Subindo pelas margens do Rio Âncora

Moderado
Subindo pelas margens do Rio Âncora
Dia dedicado à memória do companheiro Cocas, com uma cerimónia simples junto à sua sepultura, seguida de uma caminhada ao longo das margens do Rio Âncora — desde a Ponte de Abadim, em Vile, até à Ponte de Tourim, em Amonde. Um percurso repleto de moinhos, azenhas, pontelhas e recantos de grande beleza, que terminou com o habitual lanche retemperador em Dem.

Dados do percurso

Informação sobre os aspetos mais significativos

Data 11-04-2026
Localização Da Ponte de Abadim à Ponte de Tourim
Ponto de Encontro Café Vitral às 8h00
Hora de início 09.30
Hora do fim 16.00
Tempo total +/- 6 horas
Distância total 16,45
Participantes 28
Nota Antes da caminhada, cerca das 8h e 15m, será feita uma romagem ao cemitério de Perre para deposição de uma placa em homenagem ao companheiro "Cocas"
Wikiloc Ver percurso no Wikiloc

Enquadramento

O Rio Âncora

O Rio Âncora nasce na Serra de Arga, na freguesia de São Lourenço da Montaria, concelho de Viana do Castelo. A extensão deste rio é de aproximadamente 19 km e a sua bacia hidrográfica tem 77 km². É limitado a norte pela bacia hidrográfica do Rio Minho e a sul pela bacia do Rio Lima.

Desde a nascente até à confluência com o Ribeiro Galego, este rio corre em leito rochoso, com declive acentuado. A partir da freguesia de Freixieiro de Soutelo, o rio atravessa um vale largo. O caudal médio anual é de 3,20 m³/s.

Os Moinhos — Origens e Morfologia

Desde as mais remotas eras, nas culturas pré-agrícolas, os frutos silvestres, sementes e grãos comestíveis serviam de alimentação ao homem. O homem do Paleolítico, ao descobrir a possibilidade de esmagamento de certos alimentos entre pedras, deu origem à longa caminhada para os sistemas hidráulicos de trituração dos grãos de cereais. Primitivamente eram utilizadas duas pedras e, mais tarde, passou a ser utilizado o almofariz. Com o desenvolvimento, o homem construiu o moinho.

Os moinhos e azenhas do Rio Âncora são edifícios compostos por dois níveis diferentes: no piso inferior está montado o aparelho motor e no superior situa-se a moenda. Nas azenhas, a água é canalizada em canos de pedra que a lançam para a parte superior da roda vertical. Tal como nos moinhos de roda horizontal, no piso superior situa-se a moenda e no inferior os elementos do aparelho motor.

A maioria destas construções tem secção retangular. As paredes são de granito ou xisto. Os beirados são em lajes de granito ou xisto e a cobertura é de uma ou duas águas, coberta com telha romana. Outrora, as coberturas eram em colmo e lajes de granito. O pavimento do piso onde está a moenda apoia-se normalmente sobre lajes de granito.

Os moinhos, como outros tipos de engenhos, são o resultado de todo um processo histórico longo em que a utilização da energia hidráulica permitiu e identificou a arte de desbravar a natureza. O rio e a terra tornaram-se o cenário complementar deste "povo em movimento", com uma realidade dinâmica e evolutiva. Nessa evolução, as mudanças foram lentas e profundas, criando raízes culturais demasiado vincadas e difíceis de se deixar "colonizar" com os novos modos de estar, aparentemente mais prometedores de felicidade.

É assim que os moinhos são a herança cultural dos nossos antepassados que, além da sua riqueza etnográfica, nos dão a identidade de um povo que, devido ao seu isolamento, conseguiu a sua autossuficiência, utilizando a energia hidráulica para ultrapassar certas dificuldades. É esta identidade cultural, bastante profunda, que deve ser mantida, a fim de se tornarem peças de um ecomuseu municipal.

Homenagem ao Companheiro Cocas

Ele permanece vivo no pensamento do Grupo VT. Por isso, fomos ao seu encontro na passagem do primeiro aniversário do seu falecimento. Foi uma cerimónia simples que contou com a colocação de uma placa alusiva e uma coroa de flores na sua sepultura.

Placa alusiva

O Armando Branco fez a leitura do seguinte texto:

"Hoje não é um dia fácil para nós. A tua ausência pesa, mas as memórias que deixaste continuam vivas em cada sorriso, em cada lembrança partilhada. Foste mais do que um amigo — foste alguém que marcou a nossa vida de uma forma que o tempo nunca vai apagar. Levamos connosco tudo o que vivemos: as conversas, as risadas, os momentos simples que valem tanto. A saudade é imensa, mas também é prova do quanto foste importante. Onde quer que estejas, esperamos que estejas em paz. Aqui, continuas presente nos nossos corações, todos os dias. Até sempre, amigo Cocas."

Também todo o grupo, em conjunto, leu um poema atribuído a Fernando Pessoa, intitulado "Amigos, ainda…"

AMIGOS, AINDA…

Um dia a maioria de nós irá separar-se. Sentiremos saudades das nossas conversas, das descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos, dos tantos risos e momentos que partilhamos.

Saudades até dos momentos de lágrimas, da angústia, das vésperas dos fins de semana, dos finais de ano, enfim… do companheirismo vivido.

Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre. Hoje já não tenho mais tanta certeza disso.

Em breve cada um vai para seu lado, seja pelo destino ou por algum desentendimento, seguirá a sua vida.

Talvez continuemos a encontrar-nos, quem sabe… nos telefonemas que trocaremos. Poderemos falar ao telefone e dizer algumas tolices…

Aí, os dias vão passar, meses… anos… até este contacto se tornar cada vez mais raro. Vamo-nos perder no tempo. Um dia os nossos filhos ou netos verão as nossas fotografias e perguntarão: "Quem são aquelas pessoas?"

Diremos… que eram nossos amigos e…… isso vai doer muito!

"Foram meus amigos, foi com eles que vivi tantos bons anos da minha vida!"

A saudade vai apertar bem dentro do peito. Vai dar vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente…

Quando o nosso grupo estiver incompleto… reunir-nos-emos para um último adeus de um amigo. E, entre lágrimas, abraçar-nos-emos. Então faremos promessas de nos encontrar mais vezes daquele dia em diante.

Por fim, cada um vai para seu lado para continuar a viver a sua vida, isolada do passado. E perder-nos-emos no tempo…

Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não deixes que a vida passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de grandes tempestades…

Eu poderia suportar, não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!

Todos quiseram estar presentes, mesmo aqueles que tinham de ir trabalhar e outros mesmo adoentados.

O Percurso

De Vile à Ponte de Tourim — Ao Longo do Rio Âncora

Feita a cerimónia, partimos através do lindo vale das freguesias de Perre e Outeiro em direção ao Rio Âncora, até ao parque de merendas da Ponte de Tourim, em Amonde. Aqui, local de término do percurso, foram deixadas três viaturas, seguindo as restantes até Vile, onde iniciámos a nossa caminhada.

Desta vez, o tempo apresentou-se logo pela manhã encoberto, um pouco fresco, mas com o avançar do dia foi abrindo até ao sol aberto.

Caminhámos todo o percurso ao longo das margens do Rio Âncora, desde a Ponte de Abadim, em Vile, até à Ponte de Tourim, em Amonde. Ao longo de todo o trajeto, pudemos ver belas propriedades, moinhos e azenhas, recantos de muita beleza compostos com o enquadramento da limpidez das águas do rio e, de quando em quando, belas quedas de água que lhe davam realce.

Cruzámos pequenas pontelhas para mudar de margem, a fim de podermos continuar a caminhar por entre estreitos carreiros de pescadores.

Incidente Junto ao Moinho do Hilário

Junto ao Moinho do Hilário, em Riba de Âncora, aconteceu um percalço com a companheira Olívia, ao aleijar-se num joelho. Avaliada a situação, e com a anuência da mesma, achou-se por bem que ela não deveria continuar. Destaque para a Elsa, que se prontificou a chamar o filho e acompanhar a Olívia até ao hospital em Viana.

Lagoa da Estorranha

O grupo lá continuou o percurso, sempre acompanhando o rio, até chegar a hora do reabastecimento, que foi feito junto à pontelha do Lagar da Alhada — local aproveitado também para se tirar a foto de grupo.

Continuámos depois, passando por baixo da A28, e logo chegámos à tão badalada Lagoa da Estorranha. Aqui havia que mudar de margem, e a travessia foi feita por alguns recorrendo a sacos de plástico de 100 l, enquanto outros, mais audazes, tiraram as botas e sentiram o frio da água do rio.

Da Ponte de Saim ao Parque de Cancela

Calçadas as botas, lá continuámos até atingir a Ponte de Saim, onde mais uma vez mudámos de margem. O trajeto entre a Ponte de Saim e o Parque de Merendas de Cancela, que veio a seguir, é para mim de rara beleza. A ausência de moradias e o estado puro do rio — sem açudes e com pequenas correntes próprias de um rio de montanha — conferem-lhe essa particularidade. O estreito carreiro que percorremos, sempre junto ao rio, através de um túnel de vegetação, dá-lhe um realce singular. Também o próprio rio, aqui menos caudaloso devido à ausência de afluentes, tem particularidades diferentes.

Trecho Final — Via Romana e Ponte de Tourim

Continuámos mais uma vez — por onde é? Perguntaram alguns — sempre em frente. Do Parque de Cancela até à Ponte de Tourim foi a parte final. Mesmo assim, ainda houve oportunidade para caminhar sob a antiga Via Romana, designada por Per Loca Maritima, referenciada no Itinerário de Antonino. Esta via, saindo de Bracara Augusta (Braga), passava o Cávado e depois o Lima, sulcando todo o concelho vianense até ao Âncora, que era atravessado pela Ponte de Tourim.

Atravessada a Ponte de Tourim, foi o final deste percurso, cerca das 16h00.

Lanche em Dem

No final, e como já vem sendo hábito, ainda fomos até Dem, ao "Capela", retemperar as energias através de um lanche um pouco ajantarado, que correu bem. Findo este, foi o regressar a casa.

Nota Final

Este percurso foi feito a pedido de alguns que nunca tinham caminhado neste trecho do Rio Âncora e que, há tempos, numa primeira tentativa, a mesma foi cancelada devido ao mau tempo. É um percurso onde talvez poucos se aventurem, pois requer conhecimento das suas margens. Mais uma vez, realço a prontidão da Elsa no apoio ao infortúnio da Olívia.

Miguel Moreira Vianatrilhos