Percurso circular com início no Parque de Campismo de Aboim da Nóbrega, passando por trilhos, pontes e caminhos rurais. O trajeto inclui locais históricos como a Fonte de Dente Santo e a Capela de São João de Padronelo e Arredores, além de paisagens naturais deslumbrantes, como o miradouro do Alto de Perre. Durante o percurso, cruzamos o rio Vade e exploramos a área em torno do Castelo de Aboim e a Casa da Pequenina.
Data: 15 de março de 2025 Participantes: 27 companheiros do Vianatrilhos
Sobre o Rio Vade
Este rio nasce em terras de Nóbrega, mais propriamente em Gondomar, escorre num vale pouco apertado que tem no topo o colo junto a Portela de Vade e na foz, Ponte da Barca. Este rio atravessa as terras de Gondomar, Aboim da Nóbrega, Covas, Vila Verde e, já no concelho de Ponte da Barca, passa pelas freguesias de Vade São Pedro, Cuide de Vila Verde e Vade São Tomé, acabando por desaguar no rio Lima, em Ponte da Barca. As águas deste rio são ricas em truta, facto que atrai numerosos entusiastas na época da pesca.
Características do Trilho
É um trilho desafiante, com um grau de dificuldade considerável, com declives mais acentuados que exigem esforço físico, num misto de arruamentos, caminhos de terra, estradões florestais, antigas calçadas, caminhos rurais e trilhos serranos, mas muito bem marcado.
Início do Percurso
Iniciámos o percurso junto ao Parque de Campismo Rural de Aboim da Nóbrega, onde o responsável pelo Parque, Sr. Domingos, nos recebeu e ofereceu a sua ajuda no que pudesse.
Seguimos no sentido dos ponteiros do relógio e começámos a descer por um caminho que se pode considerar bastante técnico dada a quantidade de pedra solta e a inclinação. Mais à frente, atravessámos o rio Vade por umas poldras. A travessia foi fácil dado que o tempo estava seco e o nível das águas do rio estava baixo.
Lugar de Borges - Fonte do Dente Santo
Depois de cruzar a linha de água, continuámos por caminhos rurais até chegarmos ao Lugar de Borges onde se situa a Fonte de Dente Santo, cuja lenda reza assim:
No lugar de Borges, na freguesia de Aboim da Nóbrega, onde ainda hoje existe uma fonte com alminhas, ladeando uma casa (fonte do Dente-Santo), vivia um homem de nome Manuel António Martins (1920), que possuía um dente de São Frutuoso - abade de Constantim (Vila Real), o qual tinha poderes excecionais para curar mordidelas de cão raivoso. Este Dente foi referido já no século XVII e a tradição diz que o dente tinha mais de oitocentos anos.
Manuel António pertencia à família de "Os do Feitor", ou "Dentes-Santo", a qual teria recebido o dente dum fidalgo solteiro, que à hora da morte o deixou a um criado. O Dente Santo ou Dente de São Frutuoso, teria igualmente sido oferecido diretamente pelo Santo ao Fidalgo, antes de morrer, dizendo-lhe: "Quem possuir este dente não será rico, mas será sempre remediado, e nunca passará necessidades. Só poderá ser possuído por um varão".
O dente foi assim passando de geração em geração. Conta-se que muitas pessoas vinham procurar, a Borges, as benzeduras do Dente-Santo, e que ninguém do lugar teria morrido com a doença da "raiva". A benzedura era feita com o dente (que estava pendurado numa corrente de prata) acompanhada da seguinte reza: "Em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo / E de São Frutuoso / Eu te benzo / E tocado por mim nunca serás raivoso".
Igreja de Nossa Senhora da Assunção
Continuando a caminhar, voltámos a cruzar o rio Vade, desta feita por uma pequena ponte, a Ponte da Quelha de Frades. O troço que nos trouxe até aqui, desde o Parque de Campismo, faz parte da Via Mariana que abandonámos ao desviarmo-nos para o adro da igreja de Nossa Senhora da Assunção onde fizemos a primeira paragem para comer a bucha da manhã.
História da Igreja
A igreja matriz de Aboim da Nóbrega é um notável exemplar de igreja maneirista, onde se destacam a capela lateral de invocação a São Miguel, edificada no século XVI, e os tetos barrocos da nave e capela-mor em caixotões pintados com caixilhos de talha dourada (infelizmente estava fechada e não pudemos apreciar essas peculiaridades). Este monumento religioso foi, em tempos remotos, mosteiro de freiras bentas. Aboim da Nóbrega foi couto, Comenda da Ordem Militar de Malta. Recebeu foral em 1513 por mercê do rei D. Manuel I.
Capela da Senhora do Amparo
Após o pequeno descanso e com o estômago confortado, recomeçámos o trilho, desta vez a subir, por caminhos rurais onde havia bastante água. Mais adiante entrámos num campo onde está uma criação de galinhas. É privado, mas permite passagem aos utilizadores do trilho desde que abram e voltem a fechar umas cancelas de ferro. Continuámos por caminhos em campos de cultivo e fomos ter a um portão que contornámos para passar, continuando até à Capela da Senhora do Amparo, no Lugar de Cabo.
O "Escorrega" - Lugar Fonte Mulhe
No Lugar Fonte Mulhe esperava-nos o Sr. Domingos para nos mostrar uma particularidade da sua terra. Então, e com ele a servir de guia, fizemos um desvio de cerca de 500 metros, com início na rua de Chouso Murado e, depois desviando por caminho de pé posto, para conhecer o "escorrega".
Trata-se de um penedo inclinado e com superfície lisa onde os naturais da zona se divertem a subir a pé, descendo a escorregar sentados em ramos de giesta. Apesar de todos terem sido convidados a experimentar tal desporto improvisado, apenas três caminheiros aceitaram o desafio do Domingos: Sandrina, Elsa e Sandra. Estão de parabéns e merecem admiração, palmas e um lanche reforçado!
Encontro com o Boi
Voltámos ao Lugar de Fonte Mulhe e continuámos serra acima por um trilho serrano. No meio da passagem do trilho, um possante boi pastava e mostrou o seu desagrado pela nossa presença bufando um pouco. Hesitámos, decidimos aguardar que o bicho se afastasse o que foi fazendo muito vagarosamente. De repente aparece a Elsa a caminhar na direção da fera, decidida a acabar com aquele impasse. Perante esta situação imprevista, o bovino ficou desconfiado mas quieto e assim passámos todos sob o olhar atónito do animal.
Miradouro do Alto de Perre
Mais acima, como os estômagos já reclamavam, decidimos parar para almoçar e escolheu-se um local alto, com uma vista maravilhosa em redor, que seria próximo do Miradouro do Alto de Perre, numa altitude de 668m (41º45'32.6" N 8º23'45.4" W).
Aproveitou-se para fazer o registo fotográfico do grupo e após o repasto, sem esquecer o café e algum produto alcoólico para lavar a chávena, seguimos por um carreiro de montanha por sinal lindíssimo, sempre bordeado por um exército de penedos de diferentes formas e tamanhos conforme a vontade do fenómeno que os formou.
Capela de São João de Padronelo
Dentro em pouco tempo chegámos à Capela de São João de Padronelo e Arredores, construída no século XVII.
Nossa Senhora da Alegria
Nesta pequena capela fica em exposição, durante dois dias por ano, a imagem de Nossa Senhora da Alegria. Esta é uma imagem construída inteiramente em madeira, rara em todo o mundo, de Nossa Senhora que carrega o menino Jesus ao colo e a tocar viola para celebrar a alegria com o povo. Também é conhecida por Nossa Senhora dos Prazeres noutras localidades.
Segundo os responsáveis pela guarida da imagem durante o resto do ano, quando não está exposta, esta será única em Portugal, porque se mantém a original desde 1582, ano de construção da capela, onde a imagem é exibida durante a noitada de São João. Conhece-se outro exemplar, uma cópia, dizem, numa igreja situada na região sul do país, havendo também registo de imagem em França, na Igreja de Nossa Senhora da Alegria (Liésse).
Castelo Roqueiro de Aboim
Daí a cerca de 100 metros, entrámos no Lugar de Casais de Vide onde recomeçámos a subir por um íngreme caminho. A subida tornou-se cada vez mais acentuada para o castelo roqueiro de Aboim, tendo muitas vezes que ser feita em fila indiana.
Chegados ao desvio para visitar o castelo, e como seria uma opção, apenas 9 companheiros decidiram subir. Os restantes continuaram o caminho de regresso até aos carros.
Disputa Territorial
O grupo que subiu ao castelo encontrou uns trabalhadores que calcetavam uma estrada que irá permitir o acesso por carro até ao dito castelo. Este fica no limite das freguesias de Sampriz do concelho de Ponte da Barca e da freguesia de Aboim, agora incluída na União das Freguesias de Aboim da Nóbrega e Gondomar do concelho de Vila Verde.
Estas freguesias têm mantido uma acesa disputa sobre os limites onde se situam as ruínas do antigo Castelo da Nóbrega, pois os de Aboim acusam o município da Barca de "remover" o marco existente que separava as freguesias e concelhos.
História do Castelo
Do tão reclamado Castelo da Aboim da Nóbrega pouco ou nada resta. A sua construção remonta ao terceiro quartel do século XII, tendo desempenhado um importante papel no início da nacionalidade, havendo apenas vestígios de uma cerca subcircular, que envolveria uma torre-fortim central implantada no topo do impressionante maciço granítico.
Vista Panorâmica
Depois de se ter apreciado a vasta paisagem que se vislumbra do alto do castelo, de onde se pode observar:
O Mosteiro de Bravães
A Área Protegida do Corno do Bico
A vila de Arcos de Valdevez
A vila de Ponte da Barca
O Mosteiro de Vila Nova de Muía
A Albufeira de Touvedo
A vila de Soajo
O rio Lima
Entre-Ambos-os-Rios
Lindoso e a Serra Amarela com as antenas da Louriça e o Muro ao seu lado
Em dias bem limpos ainda se consegue ver o mar.
Casa da Pequenina
O pequeno grupo que optou subir ao castelo começou a descida por uma zona de bosque em direção à aldeia da Pequenina que se destaca pela sua antiguidade e história e pela famosa casa da Pequenina.
História da Casa
A Casa da Pequenina, em Aboim da Nóbrega, sede do antigo couto medieval das Terras da Nóbrega, é um dos mais fantásticos exemplares da arquitetura popular minhota, onde não falta uma capela, uma fonte, um moinho, a eira e um espigueiro em passadiço cercado por uma muralha granítica.
Trata-se de uma grande propriedade que outrora ali existiu, e que agora se encontra quase abandonada e em risco de ruína eminente. É um aglomerado de casas rurais em granito, destacando-se pela sua antiguidade e história a famosa casa da Pequenina, imóvel de grandes dimensões comparativamente com os seus vizinhos.
Sede do antigo couto medieval das Terras da Nóbrega, no século XIII, quando o nobre Dom João de Aboim vivia nas antigas Terras da Nóbrega. Dom João de Aboim foi uma das mais importantes figuras ao longo dos séculos, tendo este sido Mordomo-Mor do Reino de Portugal entre 1264 e 1279.
Regresso e Lanche
Continuando sempre a descer, regressámos ao ponto de partida, junto ao Parque de Campismo onde os nossos companheiros nos aguardavam.
De seguida, para repor calorias perdidas, rumámos ao restaurante Ponto de Encontro que nos fora indicado pelo Armando Carriça, natural e residente em Aboim e conhecido de um dos nossos companheiros de jornada.
Podemos dizer que fomos muito bem tratados pela cozinheira que nos presenteou com um delicioso arroz malandro de feijão com panados e pataniscas. O vinho também escorregou bem e regou as gargantas ressequidas pelo esforço da caminhada.
Agradecimentos
Deixamos um agradecimento ao Sr. Domingos (que apesar de estar a trabalhar ainda apareceu para dar um apoio) e ao Armando Carriça (este estava ausente, caso contrário teria ido connosco).
Curiosidade: Castelo de Aboim
O monte designado de "castelo de Aboim", situa-se cerca de 700 metros para Sudeste da pequena aldeia de Ventozelo. O acesso faz-se por um estradão de terra batida mal conservado a partir da aldeia de Ventozelo, onde se chega pela estrada municipal que, de Ponte da Barca, faz ligação às freguesias de Sampriz e Azias.
História Administrativa
A margem esquerda do rio Lima, na parte que hoje corresponde, grosso modo, ao atual concelho de Ponte da Barca, integrou desde os tempos medievos uma vasta circunscrição territorial-administrativa religiosa de nível intermédio, documentada já desde finais do século XI e em meados do século XII.
O castelo da Nóbrega terá sido construído por Honorigo Honorigues no terceiro quartel do século XII, que por isso recebeu algumas herdades do rei Afonso Henriques. Em 1527 estava ermo, não se documentando ocupação posterior.
Características Arquitetónicas
O castelo foi construído no topo de um imponente maciço granítico que se eleva na margem esquerda do rio Lima, a mais de 750 metros de altitude, de onde se desfruta de uma ampla e bela panorâmica sobre os vales dos rios Lima e Homem.
Conservam-se vestígios de uma cerca de planta subcircular, que envolveria uma torre-fortim central implantada no topo das massas rochosas. Pelas características construtivas e planimétricas trata-se de uma fortificação que cumpre os padrões da arquitetura militar medieval de tipologia românica.