Escapadela às Berlengas - Dia II

Foto do grupo Vianatrilhos
Percurso aos pontos de maior interesse das Berlengas

Dados do percurso

Informação sobre os aspetos mais significativos

Data 05-10-2019
Localização Berlengas
Participantes 37

Arrancamos da Pousada do Inatel da Foz do Arelho às 08:30, dando rigoroso cumprimento ao programa definido para este belo dia de sábado de 5 de Outubro, em que se comemora a Implantação da República, que ocorreu no já distante ano de 1910.

Esta pousada tem uma situação soberba, com uma visão privilegiada sobre a Lagoa de Óbidos e a extensa Foz do Arelho. Foi palácio de férias do proprietário dos célebres "Armazéns Grandella", que numa visita se apaixonou pelas belezas naturais do local, contribuindo também para o desenvolvimento regional na construção de diversas infraestruturas que perduram até aos dias de hoje.

Na viagem da vila da Foz do Arelho à cidade de Peniche cruzamos vastas produções hortícolas muito diversificadas nas chamadas “terras do pó”, que segundo o Ernesto devem o nome à composição química do terreno à base de calcário com uma granulometria muito fina, que compensa a ausência de água superficial com a retenção da humidade, que a proximidade da zona lagunar e orla marítima proporcionam.

Chegamos entretanto ao porto de pesca de Peniche, onde iriamos embarcar para a travessia para as Berlengas. Foi tempo para apreciar o bulício do porto, com a saída de diversas embarcações de transporte de turistas, que como nós aproveitavam este prazenteiro sábado para conhecer as ilhas atlânticas fronteiras a Peniche.

Atrás de nós a imponente Fortaleza de Peniche, mandada construir por D. Manuel I em 1557 e finalizado em 1570, já no reinado de D. Sebastião, que teve como primeira missão a defesa da costa das múltiplas incursões dos corsários ingleses, franceses e de piratas da Barbária.

Depois de muitos anos de importante papel militar na defesa nacional, veio no passado século a ter um papel muito menos meritório e tristemente célebre, como prisão política de segurança máxima do Estado Novo.

Mas era agora tempo de embarcar nas lanchas semirrígidas contratadas à “Feeling Berlenga” que fizeram muito rapidamente a travessia até ao “paraíso natural do arquipélago das Berlengas” num mar pouco revolto, mas que com uma ondulação de 2m ainda proporcionou alguns salpicos mais ou menos violentos aos que calharam a estibordo do azul “Odisseia” e assim enfrentaram a nortada marítima.

O arquipélago das Berlengas dista cerca de 10 Km do Cabo Carvoeiro e é composto pelas ilhas Berlenga, Estelas e Farilhões. A nossa visita limitou-se à Berlenga, que é Reserva Natural da Biosfera da UNESCO desde 2011. Depois das emoções dos saltos do semirrígido na travessia entramos no Carreiro do Mosteiro e atracamos no porto dos Pescadores, onde se encontram a maior pare das poucas construções existentes.

Depois de reagrupar com os que fizeram a travessia no semirrígido amarelo “Homero” começamos a subida pelo “Carreiro do Mosteiro” passando pelo “bairro dos pescadores” e antes do parque de campismo iniciamos o trilho que nos levou aos miradouros de “Melreu” e um pouco mais à frente de “buzinas”. Foi o ponto mais oriental da “ilha velha” com Peniche a destacar-se na costa litoral no horizonte e com a ilhota do “Cerro da Velha” mais cercana. Depois de uma curta paragem retomamos a subida pelo bem delimitado carreiro até ao ponto mais elevado da “Ilha Velha”, de onde se tem uma perspetiva completa da ilha e seu entorno.

Depois da subida descemos até ao “Carreiro do Mosteiro” para de seguida subir para o farol. À nossa direita a imponente garganta do “Caneiro dos Cações” impõe respeito pela inclinação das vertentes desta língua de mar que quase divide a ilha.

No cimo do “Carreiro do Mosteiro” surge o “Farol das Berlengas”, que foi mandado contruir em 1758, ainda na época Pombalina, mas que só em entrou em funcionamento em 1842. A imponente torre com cerca de 29m de altura domina completamente a paisagem e é ainda hoje ponto de referência para as muitas embarcações que se atrevem a cruzar as agitadas águas do Cabo Carvoeiro. A sua luz de guia salvou muitas vidas, mas foram também muitos os naufrágios que testemunhou.

Foram muitos os naufrágios ao largo de Peniche, sendo a zona do país onde ao longo dos anos se acumulou o maior número de navios naufragados, hoje procurados por um número considerável de mergulhadores vindos de toda o mundo que aqui acorrem, desejosos de explorar a fauna e a flora subaquáticas e especialmente aceder às embarcações que aqui repousam. Foram identificas cerca de 600 embarcações naufragadas na zona de Peniche e Ilhas Berlengas, constituindo um importante espólio subaquático.

O seguinte destino foi o miradouro da “Cova do Forno”, ponto mais ocidental da Berlenga, onde tiramos a foto de grupo, ainda que desfalcada daqueles que preferiram regressar ao bar do cais para descansar as pernas. No regresso pudemos apreciar a abandonada cisterna de recolha de águas pluviais, que abasteceu de água potável as instalações da ilha.

Faltava descer ao Forte de S. João Batista, encaixado lá em baixo entre o “Carreio da Fortaleza” e o “Carreiro da Moxinga”, ligado à ilha mãe pelo “Carreiro do Forte”. Este forte foi edificado sobre as ruinas do Mosteiro da Misericórdia da Berlenga, da Ordem de São Jerónimo, datado do Séc. XVI.

A descida do escadório de acesso ao forte é vertiginosa e requer atenção redobrada, pelas voltas e mais voltas que a descida do promontório obriga.

A "Fortaleza de S. João Batista" foi edificado no Séc. XVII como fortificação para a defesa deste ponto estratégico do litoral, tendo já em 1655, quando ainda em construção, resistido com sucesso ao seu primeiro assalto por embarcações turcas. Este bastião de defesa nacional teve papel importante ao longo dos séculos, designadamente na Guerra das Restauração, na Guerra Peninsular e nas Guerras Liberais. Foi desativado no Séc. XIX, passando a ser utilizada como base de apoio para a pesca comercial. Foi finalmente reconvertido para pousada e hoje funciona como casa-abrigo, sob a gestão da Associação dos Amigos das Berlengas.

Chegados ao forte ficamos logo a pensar no regresso!

Descer já custou, mas subir… subir ia ser o diabo!

Mas como quem desce tem que subir… fomos visitar o forte, apreciar o seu pátio interior, as vistas do patamar mais elevado e depois aproveitamos o bar existente para fazer a já mais que merecida pausa de almoço, com umas bebidas bem fresquinhas.

Tiradas as fotos e finda a visita verificamos que alguns dos visitantes do forte não regressavam subindo a escarpa e apanhavam barcos para regressar ao cais de chegada, pelo que depois de breve conferência, optamos por tentar essa mesma solução.

A decisão não foi unânime e um grupo de valentes fez-se ao caminho regressando pelo farol, mas a maioria votou pelo regresso de barco, evitando mais essa dificuldade. Pretendíamos ainda aproveitar o regresso para visitar as grutas, mas nessa ocasião as visitas estavam interditas, pela mudança de maré e agitação das águas costeiras.

Cabe aqui uma palavra de agradecimento para a “Feeling Berlenga” que depois de contactada, nos gentilmente facilitou o regresso gratuito ao cais do “Carreiro do Mosteiro” onde concluímos esta vista à ilha.

Depois… foi desfrutar do sol, da paisagem e apreciar as idas e vindas dos muitos visitantes destas paragens. Mais uma bebida na explanada do "Restaurante Mar & Sol" e mais um tempo de amena conversa com os que preferiram o descanso às agruras do percurso.

Tempo ainda para visitar a "Cova da Moura", a "Cova do Espanhol" e descansar os pés na "Praia do Mosteiro" .

Finalmente o regresso, desta vez mais calmo nas lanchas rápidas da “Feeling Berlenga” que nos trataram sempre de um modo simpático e muito profissional. Parabéns!

Já na companhia do Cocas e da Lúcia, que tinham ficado em Peniche, houve ainda tempo para a visita à "Praça-forte de Peniche", que depois de ter sido durante séculos um importante baluarte de defesa, se transformou na mais importante prisão fascista existente no continente, com um extremamente severo regime prisional.

Foram muitos os compatriotas que por lá passaram, cujo nome está hoje gravado num memorial de ferro à entrada da antiga prisão, que nos recorda os tempos em que o delito de opinião era suficiente para a perca da liberdade. Lá dentro vistamos o parlatório, o pátio, as celas da solitária, a capela de Santa Bárbara e finalmente exposição permanente “Por Teu Livre Pensamento”.

Que este espaço museológico possa servir para não esquecer nem branquear uma época em que as liberdades individuais eram reprimidas de um modo tão brutal.

O jantar de encerramento foi na Anadia, na adega da “Nova Casa dos Leitões, onde o Pimenta marcou um farto repasto, em que o leitão e o espumante da adega foram vedetas.

Os organizadores Pimenta e Miguel estão pois de parabéns, pois tudo correu pelo melhor!

Ficamos à espera do Piódão.

José Almeida Vianatrilhos