Pelas levadas do Germil

Foto do grupo Vianatrilhos

Dados do percurso

Informação sobre os aspetos mais significativos

Data 18-06-2016
Localização Germil
Hora de início 08:58
Hora do fim 18:44
Tempo total 9h 46m
Distância total 16.9 km
Participantes 24

Desta vez não choveu, o que embora seja natural para esta tardia Primavera, é um achado num ano em que quase sempre choveu ao fim de semana!

O percurso planeado era o das Levadas do Germil, que nos foi aconselhado pela Associação Péd´Rios do Germil, alertando-nos todavia para a dificuldade do percurso, designadamente da ligação entre Paradela e Sobredo, onde nos esperava um osso duro de roer na subida final.

Mas à partida, o resto do percurso não parecia apresentar grande dificuldade, pelo que nos aventuramos a fazê-lo sem cuidados especiais na sua preparação.

Começamos cedo em Sobredo – Ponte da Barca, apreciando a típica aldeia de montanha, aparentemente deserta, descobrindo junto da capela um interessante núcleo de bases de canastros de vara, testemunhos da anterior utilização comunitária.

Deixamos a aldeia e seguimos na direção da sua levada, que não foi fácil descobrir, pois estava escondida pela vegetação, mas começamos a seguir a conduta, que ainda agora canaliza a água para os campos agrícolas.

A coisa começou logo mal, pois a levada estava completamente tapada com vegetação alta, pelo que havia que abrir caminho com o que havia à mão. Tomaram a dianteira o Miguel e o Cocas, que a golpe de varapau foram abrindo caminho, afastando as silvas e mato que nos castigaram todos, especialmente os incautos que apareceram de calções!

Lá fomos avançando devagar, com cuidado redobrado, pois a borda direita da levada escondia uma vertente agreste que fazia temer queda perigosa, pelo que continuamos sempre, ora entre a encosta e a levada, ora pela perigosa borda exterior. O prémio do “risco” eram as vistas, primeiro para a aldeia de Sobredo, depois para o vale do Germil.

Houve algumas escorregadelas e pés molhados, mas nada de grave ou perigoso e progredimos até ao Chão da Arcas, quando a levada inflete para a Fecha da Laje.

Nesse local a vegetação adensou tapando completamente a levada, tornando-a demasiado difícil e envolvendo riscos que preferimos ultrapassar, deixando a levada e subindo para a casa abrigo de Pena de Eido, o que também não foi “pera fácil”, já que o mato era alto e a progressão muito difícil e morosa.

Tomamos então a estrada de Germil, para umas dezenas de metros à frente, regressar às margens do rio, pelo já nosso conhecido “Trilho do Germil”, tomando sua margem esquerda, cruzamos um antigo carvalhal, até finalmente atingir as primeiras casas de Germil de Baixo.

Aí, visitamos a Eira Comunitária onde os espigueiros de pedra e as velhas bases de canastros de varas, os “caniços”, são testemunho dos seus usos e costumes.

Foi neste cenário que tiramos a habitual foto de grupo, com alguns a protestar pela tardia hora do “comer”, mas a paragem estava prevista para Germil, pelo que havia que fazer mais uma curta subida até ao largo da igreja da aldeia, aproveitado o adro para pousar o farnel.

Depois vieram os batismos de dois novos caminheiros. Desta vez coube à Rita Bettencourt e ao Alcindo Carvalho a elevada honra de professar a adesão, aos acordes da típica ladainha e emborcar o preciso líquido batismal, na presença dos padrinhos que testemunharam a sua meritória adesão ao seio da Vianatrilhos.

Findo o momento solene regressamos a Germil de Baixo e tomamos um trilho pela crista da serra que passa junto ao recuperado Fojo do Lobo de Germil, já apreciado na parte da manhã, do lado oposto do vale.

O trilho continuava para a aldeia de Paradela e no caminho encontramos nova levada e vista espetacular para a Fraga da Lages, com as suas múltiplas cascatas e lagoas naturais.

Ouvimos vozes e paramos com um grupo que, aproveitando o sábado, trabalhava na manutenção da levada, já que “a água dava sempre jeito para os campos” e havia que manter o sistema de distribuição comunitário em boas condições.

Depois de quererem saber ao que vínhamos e para onde íamos, afirmaram que o nosso destino da travessia de Paradela para Sobredo, cruzando as poldras do Germil era impossível. “Mas que não! Que era tolice! Que o caminho já há anos não tinha serventia” desaconselhando qualquer tentativa.

Ficamos de pé ainda mais atrás, pois a coisa estava mesmo muito pior do que a Associação Péd´Rios do Germil nos tinha prevenido, mas lá fomos descendo por uma velha calçada para Paradela, onde fizemos uma pausa no largo da capela de S. Pedro, defronte de mais um núcleo de típicos espigueiros comunitários.

Preparava-se então o pequeno altar da capela com novas flores e à nossa renovada pergunta pelo estado da ligação a Sobredo, a resposta foi ainda mais veemente. “Nem pensar! Nem os homens de cá lá conseguem ir, quanto mais vocês! Só de volta, por Tamente é que lá se pode ir”.

Bem! A coisa estava cada vez mais feia, mas havia que decidir, chamar táxis ou tentar a travessia? Decidimos tentar, descendo a encosta, transpusemos o Germil pelas degradadas poldras, alcançamos a custo sua margem direita e procuramos o início da tal calçada para Sobredo.

Parecia fácil no papel, mas mesmo de GPS foi complicado dar com o túnel coberto de silvas em que se tinha tornado a desembocadura da tal calçada.

Se o início era mau, a continuação ficou pior e só com muito trabalho dos “batedores” foi possível vencer a verdadeira “selva” em que o caminho se tornou. Demoramos uma eternidade a chegar aos calcinados sobreiros que marcavam a proximidade da aldeia de Sobredo, mas a partir daí “foi canja”.

E foi, suados pelo esforço, negros com a fuligem dos sobreiros, sujos com a folhagem e pólen e arranhados de pernas e braços, que finalmente alcançamos o fim desta epopeia, que rematou mais um belo dia na serra.

Caso estes trilhos e levadas estivessem limpos e utilizáveis, seria indubitavelmente um dos mais belos percursos que já fizemos. Pena o estado de abandono a que estão votados.

José Almeida Vianatrilhos