Ao encontro da nascente do Rio Vez

Foto do grupo Vianatrilhos

Dados do percurso

Informação sobre os aspetos mais significativos

Data 30-11-2013
Localização Arcos de Valdevez
Distância total 16.3 km
Participantes 30

Caminhar ao encontro da nascente do rio vez foi o desafio aceite pelos 30 caminheiros que se dispuseram pelas 07H30 de uma manhã de sábado a partir para a terras Rouceiras, belo recanto deste nosso Minho.

A viagem entre Viana e a Gavieira decorreu sem problemas, e a partir da Portela do Mezio fomos presenteados com fantásticas paisagens com que a serra nos recebeu envolta em manto de névoa.

O dia apresentou-se inicialmente com o céu limpo, mas com o avançar do mesmo foi nublando acompanhado por uma brisa de frio cortante próprio da serra.

A gavieira bela aldeia de montanha, encaixada na encosta solarenga do vale por onde corre o rio Pomba (ou Grande), foi o local escolhido para início deste nosso percurso, onde a sua principal actividade é a agricultura e a pecuária.

No livro de Eugénio de Castro e Caldas – Terras de Valdevez e Montaria do Soajo, anota-se um caso particularmente assinalável, por ser muito restrito e diverso dos costumes regionais em que a Gavieira se insere. Tratava-se do costume, agora naturalmente em desuso, que regulava o casamento neste espaço serrano. O namoro não era tolerado, porque se prestava a difamação, sendo o casamento fortemente decidido pelos pais, tendo por fase preliminar «a iniciação». Os noivos iam ocupar um palheiro durante duas semanas, sendo alimentados oito dias pelos pais da noiva e outros oito dias pelos pais do noivo. No dia do casamento, a festa reunia toda a comunidade aldeã, anunciando um foguete que a noiva estava pronta para se dirigir á igreja. No entanto, como a igreja se encontrava longe para muitos, a viagem era precedida de um almoço de quatro pratos de carne. No fim da cerimónia religiosa, novos foguetes avisavam as cozinheiras de que deviam preparar o jantar. Comia-se e dançava-se até de madrugada, com a presença dos noivos, que no fim ia cada um para sua casa. No dia seguinte, perto da noite, recomeçava a festa em casa da noiva, a dançar e a comer. À meia-noite tudo recolhia e os noivos iam para casa juntos.

Em espaço mais amplo da serra referiram-nos que era tradição de á muito abandonada a noiva ser «inculcada» pela família sobre promessa de «dote» que revertia em favor do casal constituído. Esta seria a forma de «segurar o noivo» ao compromisso em que se envolvia ao aceitar o noivado. Desta forma a noiva nunca se apresenta como «mercadoria vendida», com proveito para os pais. Pelo contrário, o noivo é que seria «comprado». Deve notar-se que em região de emigração sistemática os homens representam espécie rara, sendo as mulheres muito abundantes.”

Com o rio correndo lá mais em baixo, fomos subindo ao longo da meia encosta pela sua margem direita, utilizando um velho carreiro de lages, marcado pelos rodados dos muitos carros de bois que o transpuseram, na direcção da Branda de S. Bento do Cando.

Chegados a S. Bento, antigo lugar de paragem e de repouso do caminho que ligava os conventos beneditinos de Braga a Melgaço, e que hoje continua a ser um grande centro de romagens.

A Festa de S. bento do cando realiza-se anualmente na Branda com o mesmo nome, entre os dias 3 e 11 de Julho. Começa-se a fazer a novena de peregrinos que vêm de várias terras, a partir do dia 3 até ao dia 11. No dia 10, pela noite, faz-se uma procissão de velas à volta do lugar. Quando nascem animais nesta altura, leva-se o gado até ao monte e diz-se: «Que Santo António te guarde». No dia 11, é a festa propriamente dita, com arraial que inclui a gaita galega, a «seringa».

Curiosa também a tradição de que seria este o local, em que os namorados se refugiavam, quando os pais se opunham ao casamento, forçando assim a união desejada.

Após o breve descanso neste local, aproveitado para visita, e toma de um café na “tasca” do lugar, daqui seguimos para a Branda das Busgalinhas ou “Buzegalinhas”. Estas Brandas, tanto de S. Bento do Cando como das Busgalinhas, foram espaços de uso sazonal, com uma ocupação secundária, sobretudo com os usos agrícolas e pastoris de Verão, por oposição à Inverneira da Gavieira, de cariz mais permanente.

Aqui chegados logo se deu pela falta mais uma vez da veterana Louise, que havia continuado por outros caminhos. Após curta paragem, começamos a subida para o planalto, até entroncarmos com o estradão que atravessa toda a serra da Peneda, por onde seguimos em direcção a sul, envoltos em largos horizontes, tendo pela nossa frente os magníficos altos da Pedrada, Outeiro Maior, Bragadela e da Peneda, até atingir-mos o local onde nasce o rio Vez, conhecido por “Lamas de Vez”, aproveitado para novo descanso, e reconhecimento da zona.

Retomado o caminho, passamos no cruzamento que nos poderia levar para o Mezio ou para os lados de Lordelo, e um pouco mais á frente viramos para nascente caminhando por entre vegetação rasteira, passando no “sofá do Pastor” local aproveitado para registos fotográficos, e logo chegamos á Branda de Seide ou “Seida”.

A Branda de Seide foi o local escolhido para a merecida pausa para o almoço e retemperar de energias. Costuma ser de outras vezes um local de imenso relaxe, pela sua exposição solar, o que não aconteceu desta vez devido ao muito frio e vento que se sentis, o que obrigou á procura locais bem protegidos e reforço de agasalhos.

Depois de tirada a foto de grupo, seguimos em direcção de um muro que acompanhamos e nos levou até á corga onde se encontra a fase terminal do Fojo do Lobo do Soajo, em razoável estado de conservação, bem como o fosso da armadilha para onde as feras eram encaminhadas. Aqui se pode imaginar como seriam efectuadas as batidas aos lobos e a sua perseguição pelos montes e vales circundantes, até a fera ser obrigada a entrar na armadilha de altos muros, perseguida até á queda fatal. Longe vão esses tempos, mas ficaram para a história estes “monumentos” a vontade e determinação que são um testemunho do muito que se pode fazer, quando congregadas as vontades individuais num objectivo colectivo.

Regressados a Seide, transpondo o Couto da Redonda, e como o tempo apertava devido aos dias serem pequenos, resolvemos iniciar a parte final deste percurso através da descida para a Branda de Gorbelas, que a todos presenteou com vistas e recantos de grande beleza através de toda a paisagem circundante. Descendo com o máximo dos cuidados a ingreme calçada, não foi difícil imaginar como seria a sua utilização para as fainas diárias da lavoura, pois tão ingreme ela é que até com uma simples mochila tornou dolorosa a sua utilização.

A meio da descida cruzamos a Branda de Gorbelas, onde houve oportunidade para conversar com os naturais e até apreciar a recolha do gado Pisco e Cachena aos currais.

Com os joelhos já a acusar o esforço lá continuamos a descer com algum custo, pois as lajes molhadas obrigavam ao redobrar de cuidados, o que não parecia merecer tais cuidados a alguns naturais que connosco também iam descendo, regressando da recolha do gado

Já com os primeiras sombras de final de tarde, chegamos a Rouças onde no café Central enquanto os condutores iam buscar as viaturas á entrada da Gavieira, os restantes aproveitaram para uma bebida, havendo até a oportunidade da companheira Glória dar um pé de dança com naturais ao som de concertinas que alegravam o ambiente serrano.

Já era noite escura quando encetamos a viagem de regresso, fazendo assim o fecho de mais um dia de montanha, em serras deste maravilhoso Minho.

Miguel Moreira Vianatrilhos