Trilho do Pé do Cabril

Foto do grupo Vianatrilhos

Dados do percurso

Informação sobre os aspetos mais significativos

Data 28-04-2012
Localização Serra Amarela
Distância total 12.4 km
Participantes 34

Na margem de lá, o Pé de Cabril, solene, esperava o abraço duma ascensão. Miguel Torga (in Portugal)

Em tempos idos, quando subíamos a serpenteada vertente leste da serra Amarela, o início da caminhada dava-se nas imediações da aldeia afundada de Vilarinho da Furna, eram quatro horas a subir esta nona elevação continental e nos momentos de ligeiro repouso, o simples olhar agarrava o Pé de Cabril, o penedo dos namorados, para lá da outra margem do rio Homem. Hoje, fomos dar mesmo o abraço fraterno ao ciclópico monstro granítico, partindo da Porta do Campo do Gerês, abandonando o autocarro junto ao museu etnográfico. Do cruzamento de Lamas, em terra batida, seguimos até ao topo e derivamos da rota para o miradouro da Junceda, donde a minúscula vila do Gerês e a banheira da barragem da Caniçada nos oferecem uma linda e microscópica foto panorâmica. Retomado o trilho das “Silhas dos Ursos”, pedras, pedregulhos e penedos iriam ser a nossa companhia até ao fim. Eis que uma placa em madeira nos indica Gamil para a esquerda e o pé de Cabril para a direita. Aqui começa a ascensão do abraço torguiano, vem a Tojeira e depois os Urzais, tojais húmidos, como a urze dos brejos e o tojo- molar, torga e outras espécies; vem o Prado Amarelo, onde se destaca o abrigo, a 1049 metros de altitude, típico deste lugares de altitude e que serve ou serviu para abrigar os vezeiros pastores durante o seu tempo de permanência com o gado na montanha entre Março e Setembro/Outubro.

O Pé de Cabril está perto de nós, mas as dificuldades locomotoras acentuam-se, mais parecendo que o promontórico granítico, constituído por blocos geométricos, se afastava à medida que nos aproximávamos dele. Perdi de vista a Filipa e o Hélder e todo o pelotão, era sempre mais um pouco, quando o atraso da caminheira Maria José me arrasta também para a rectaguarda, caminhamos lado a lado, entre mariolas, e por nós passa um grupo jovem de galegos, de Lóbios, um pouco desordenados na descida e hablando: estamos entrando no vosso território. Gerês ou Xurés, no fundo, são uma reserva mundial da Biosfera, proclamada pela Unesco. O nosso Gerês é a primeira área protegida a ser criada em Portugal através do DL 187/71 e o único com o estatuto de Parque Nacional.

Finalmente, na base deste fálico monumento, todos eramos verdadeiros pigmeus; alguns recobraram forças e decidiram subir até aos 1236 m, enquanto outros ficaram-se a contemplar os que subiam mesmo até ao cimo, como os radicais Jorge e Rego, enquanto outros apenas ficaram pelo abraço. Curiosamente, atendo um telefonema da Madeira do Filipe em plenas Levadas a fazer o seu circuito e com orgulho lhe respondi: estou no Pé de Cabril.

No retorno, refeitos das energias recobradas, invertemos a marcha até ao abrigo do Prado, onde um numeroso grupo de caminheiros de Braga descansavam e depois dos Urzais e Tojeira seguimos até ao prado de Gamil, a 981 metros de altitude. A partir daqui seguimos o trilho “Silhas dos Ursos”, em descida pedregosa e dolorosa para alguns, sem um palmo de terra, só pedra, um mar de pedras! No meio deste oceano granítico os meniscos pediam socorro, enquanto a conversa com o Carlos era about food, ficando a saber da existência de açafrão selvagem, pequeninas flores que despontavam por entre pedras enegrecidas dos incêndios fustigadores deste santuário natural.

Veio a propósito falar de uma receita de coelho com carqueja, cozinhado pelo Carlos, que registei e facultarei a todos os caminheiros, com muito apetite. Sempre a descer, de pedra em pedra e, para variar o monótono piso, em cima de uma delas depositadas algumas moedas de reduzido valor, à mercê do tempo, talvez a prenunciar o fim apocalíptico do euro…atingimos o ribeiro que dá pelo nome de Rodas e nos acompanhou na parte final desta emblemática caminhada. Neste vale surgem duas cilhas dos ursos que admiramos, estruturas medievais e que duraram até ao sec XVIII e que protegem cortiços de abelhas dos ursos, consistindo em recintos de pedra circulares ou rectangulares, localizadas em zonas de vale e com boa exposição solar.

Finalmente, chegamos ao Campo do Gerês, uma das portas deste PNPG, para além do Mezio, Lamas de Mouro, Lindoso e Montalegre. Desgastados pela dureza granítica do piso, mas satisfeitos pela caminhada, o local onde chegamos é precisamente onde vivem alguns dos habitantes despojados de seus teres e haveres da aldeia submersa de Vilarinho das Furnas, que terá nascido e desenvolvido com a abertura da geira romana, troço da via XVIII do itinerário de Antonino, que ligava Braga a Astória, numa extensão de 240 km. Nesta aldeia comunitária a propriedade privada coabitava com a propriedade colectiva, dizendo esta respeito aos logradouros comuns, onde todos apascentavam o gado, roçavam matos e cortavam lenha; no que concerne à organização social, havia a assembleia de representantes das várias famílias da aldeia, liderada por um juiz, com mandato de seis meses, escolhido pelos homens casados, competindo-lhe decidir sobre as tarefas comunitárias que tinham a ver com a distribuição das águas de rega, divisão de matos de roçar, madeira a cortar e até a montaria aos lobos, entre outras actividades, como a abertura e reparação de caminhos. Era o que se pode dizer, uma democracia popular.

O rio Homem, linha de água da barragem que roubou o nome a esta aldeia, sob o ponto de vista etimológico nada tem a ver com o mamífero, mas com água corrente, fonte ou rio, porque deriva de “om”, da língua celta, mas com a passagem pelo galaico - português originou “óme” e com a romanização, na sua forma popular, converte-se em “home”. É caso para dizer: por onde anda o mê home?!

Enfim, o Gerês, segundo Campos Monteiro, é aspirina do espírito.


PS. Um agradecimento ao Jorge Mota, pelas dicas.

Para todos os caminheiros vai a tal receita de vos falei, do Carlos Penedo: Coelho com carqueja, cozinhado numa panela eléctrica:

Rodelas de cebola num fundo dum recipiente. Por cima o coelho inteiro e temperado com sal, alho, piripiri a gosto, duas folhas de louro, um raminho de carqueja seca, vinho qb. Deixa-se o coelho nesta marinada de um dia para o outro. No dia seguinte ou após algumas horas vira-se o coelho para que todo ele receba o tempero. Na hora de cozinhar pôr as rodelas de cebola, que estiveram na marinada, no fundo da panela eléctrica, depois o coelho e por cima do coelho 2 ou 3 colheres de sopa de azeite e cerca de 1 decilitro de marinada juntamente com 1 decilitro de água. Tapar a panela e ligar até apagar a luz (cerca de 45 minutos). Voltar o coelho, acrescentar mais um decilitro de água e ligar a panela de novo (cerca de 15 minutos). Quando desligar, está pronto o coelho.

Para o molho - retirar o coelho deixando a cebola, deitar o resto da marinada na panela e ligar a panela destapada para ferver e apurar o molho. Controlar o tempo de fervura de acordo com a quantidade de líquido.

Abraço

Luis Gonçalves Vianatrilhos