Pelo Vale do Rio Trovela

Foto do grupo Vianatrilhos

Dados do percurso

Informação sobre os aspetos mais significativos

Data 18-02-2012
Localização Fornelos
Distância total 13.9 km
Participantes 26

Era sábado de um Fevereiro friorento e seco, quando estacionamos as viaturas junto a um pontão sobre o Trovela na aldeia de Fornelos e um longo percurso em piso térreo nos acompanhou, logo no início, e nós sempre a contemplar o alto do monte, para além da outra margem, que sabíamos ser S.Lourenço da Armada. Só esperava que não houvesse uma dor estomatológica, porque senão a caminhada acabaria por se tornar uma promessa ao santo advogado contra as dores de dentes. Todos perguntavam se teríamos de subir até ao alto, enquanto outros, já experimentados diziam ser já ali e, antes de lá chegar, passaríamos por algum mato, haver vamos diziam os neófitos desta verdadeira marcha de montanha.

O rio corre bem fundo, sempre a descer e nós a subir, nasce na Boalhosa e desagua no nosso Lethes, podendo dizer-se que é um autêntico rio limiano, porque nasce e desagua no alto-Minho; já o rio Neiva, do poeta Sá de Miranda, nasce ali bem perto deste, no monte do Oural, é à nascença Vilaverdense de gema, mas perde esta identidade quando vai abraçar o Atlântico, entre Esposende e Viana, mais propriamente na Foz do Neiva.

Transpusemos o rio e a beleza dos carvalhos e castanheiros e outra flora autóctone emprestavam a este local um remanso pictórico para não dizer idílico, numa tarde de verão. Sempre a andar, lá tivemos que dobrar o cabo das tormentas, neste caso era o fantasma do tojo eriçado e muito arreliador, do tão pouco agrado das caminheiras. O mato era cerrado e abundante, havia que escalar esta encosta para chegar à ermida, era o preço a pagar para que S.Lourenço nos amacie uma dor de dentes não desejada, tira-se mais uma peça de roupa, sobrepõe-se outra encosta, mais tojo, mais suor, respira-se fundo e a chegada à plataforma da capela dá-se, finalmente, por entre disformes e monumentais penedos.

Eis-nos lá no alto a contemplar o território deixado para trás e a deliciar-nos com a paisagem de todo o vale do rio Trovela, soberbo, grandioso, um espetáculo da natureza! A romaria é a 10 de Agosto e a capela foi construída sobre castro celta, em que “ as paredes sobem com o perpianho em parapeito acima do cume do telhado, para que as ventanias não destelhem o templosinho. Da banda norte e sul, gárgulas rudes servem de escoante às águas pluviais “ Este local, pelos vistos, serviu de culto pagão celta, mais tarde romanizado e, depois, cristianizado, partindo daqui a tradição dos arraiais vespertinos, instalada à volta deste templo, como em outros mais, como o de S.João d´Arga. Com a sobreposição de culturas religiosas, muitos crentes continuaram a adorar os ídolos pagãos, pela calada, indo depois do sol-posto e durante a noite, na véspera do festejo, adorar seus ídolos, para fugir à censura religiosa do povo dominador, neste caso os cristãos. Eis a razão por que a reconversão cristã dos povos levou séculos e as reminiscências históricas aqui estão bem documentadas, bela caminhada, prenhe de história e histórias.

Aqui, grandes zaragatas se davam, com o jogo do pau, ou melhor, à paulada. Uns por mera exibição, os foliões do costume, outros por desforço, com raízes nas feiras novas, e tocados por um copo de vinho a mais. Eram as romarias típicas há meio século atrás. Os jogadores do pau da Boalhosa apresentavam-se já de cabeça atada, para evitar que o sangue corresse pela testa e impedisse a continuidade da luta do varapau.

Aquilino Ribeiro retrata esta tradição de arte marcial popular portuguesa, em Terras do Demo “ - Ainda aí apareces, filho de sete curtas?- increpou o Zé Narciso. Vais pagar o descaramento… E à mão tente despediu-lhe o lodo à nuca. O Brás aparou a pancada no ombro e respondeu-lhe com uma chuçada valente do sombreiro à arca do peito. O outro pulou e, trás, trás, só deixou de bater pela cabeça, pelos braços, pelo corpo todo, quando o viu estrumado por terra, a roncar”.

Após o aligeirado almoço e café no café “Armada” entramos na Boalhosa e começamos a descer para o rio, entre carvalhos e castanheiros, à procura de uma saída para a outra margem e, de socalco em socalco, atravessamos portelos de pequenas courelas de horticultura e pastagens, e saltitando de cancela em cancela, com matagais à mistura, lá nos embrenhamos todos, como quem explora floresta virgem.

  • O Pimenta tem uma catana, trouxe-a de Timor – dizia bem alto o Mesquita. Sem catana, lá passamos pelas bordas do rio, inundado de moinhos desativados e terrenos cobertos de água, até que deparei com o Filipe segurando uma cancela, fechando-a de seguida, mesmo a dizer que a história desta caminhada acabava aqui.

POST SCRIPTUM

Explicação para quem não está dentro do assunto:

Esta deveria ser ou deverá ser (ainda) a abrideira mestra dos nossos próximos percursos a corta-mato. E também de alguns passados...

Esperemos para ver, com tranquilidade - como dizia o Paulo Bento, que não consta ter andado na psique por aquelas bandas.

Depois da abridura, cumprimentos como fechadura.

FernandoAVdeMesquitaGuimarães

Luís Gonçalves Vianatrilhos