Dados do percurso
Informação sobre os aspetos mais significativos
| Data | 26-02-2011 |
|---|---|
| Localização | Ourense |
| Distância total | 14.7 km |
| Participantes | 60 |
Informação sobre os aspetos mais significativos
| Data | 26-02-2011 |
|---|---|
| Localização | Ourense |
| Distância total | 14.7 km |
| Participantes | 60 |
No passado Sábado, dia 26 de Fevereiro, decorreu outra actividade do Grupo, na Província vizinha da Galiza - Percurso pedestre pelas margens dos rios Deva e Minho, Concello de Cortegada, província de Ourense, desta feita, em parceria com o grupo “Os Transfronteiriços” de Cristoval (S. Gregório)-Melgaço, ponto setentrião de Portugal.
“ Melgaço/ é aquele abraço/ sem fronteiras,/ que desliza por vinhedos,/ fragas e ribeiras,/ acenando à Galiza/ e sussurando ao Minho os seus segredos...
Melgaço ... feito de pedra morena,/ Torre de Menagem/ legenda de coragem de Inês Negra!/ Mais, muito mais/ do que mil e um matizes/ pintados em paisagem natural,/ Melgaço, amigo,/ é luta, caminho, raízes,/ pedaço deste nosso Portugal!” [1]
No local habitual de concentração, café Vitral, fizemo-nos à estrada, embalados pela boa disposição, sempre presente, do nosso companheiro Parente; curta paragem em Valença para café matinal e outra em Roussas, Melgaço, para acolher a companheira Augusta. Passada a ponte sobre o Trancoso, cruzamos a fronteira S. Gregório-Ponte Barxas, local de agrupamento com os companheiros do Porto e os de Melgaço/S. Cristoval.
“Ontem como hoje, apesar de liberalizações e uniões, a fronteira persiste. Longa, mesmo muito longa, duração a envolve. Consagra-a a memória, de lendas infiltrada. Na história foi recolhendo a sua verdade. Qual? A de protecção e obstáculo que os homens enfrentam e transgridem, na mira da sobrevivência, do enriquecimento, da fuga como do risco de desafiar a morte. O limes é terra de ninguém, de demarcação indefenida no terreno, sem e com trilhos, que os residentes na zona raiana no quotidiano calcorreiam e na candonga organizada percorrem.” [2]
Cruzar a fronteira aporta emoção... O passaporte por favor!.. Visto, caderneta militar, PIDE.. siga, siga..., Guarda Civil armada, controle de fronteira.. puede passar... e a Galiza ali tão perto, nuestros hermanos... memórias em que cruzar o limes, a raia, significava aventura pelo passeio e pela descoberta; temor pelos caramelos, chocolates e outras iguarias compradas do lado de lá e cuidadosamente subtraídos aos olhares dos guardas fiscais; drama.. “aquando do forçado exílio para que era arrastado o trabalhador do campo e da cidade, compelido a buscar em terras estranhas as condições de vida que a Pátria não lhe proporcionava... a emigração clandestina tentada a salto apesar do forte controle ditatorial salazarista..”
As margens do Deva e do Minho foram a nossa companhia durante cerca de 13 km, neste dia de Fevereiro morno, solarengo. Percurso limpo, conservado (apreciamos a natureza bem cuidada...),.. trilhos do contrabando? Natureza exuberante, medronheiros, carvalhos, loureiros, pinhos, naturalmente; vegetação a brotar, sinal de Primavera próxima; mimosas floridas, matiz amarelo vivo de encontro às águas da albufeira da Frieira, rio acima até Ribadavia... Balneário de Cortegada de Baños, um palacete modernista recentemente restaurado, cujas águas sulfurosas e ferruginosas a 38ºC de reconhecidas propriedades no tratamento de doenças hepáticas, respiratórias, gastrointestinais, urinárias e da pele, assemelha se a um túnel do tempo, capaz de nos transportar a um passado não muito longínquo, onde se desconhecia o significado de pressão/tensão (stress) ou economia global, contempla imperturbável a serena e cadenciada corrente do rio Minho. Escarpas altas, postal sublime em tons de verde azul de uma natureza bela, muito bela ...; linha férrea Vigo-Orense, ao que consta a custo baixo e velocidade q.b., ligação de uma Galiza moderna, desenvolvida, à Europa, ao Mundo...
Final do percurso na localidade de Cortegada, município de incrível beleza natural e cultural, conhecido pela “terra das mil águas”. Rumar ao outro lado, até aos Transfronteiriços, na companhia do nosso anfitrião, Carminé. O corpo cansado, a gula pelo “pica no chão” alimentava a alma.
“Tanto do lado da Galiza, defronte da outra margem do ribeiro, como de Portugal, a mesma cadeia de montes se abraçava, não ficando a raia mais que uma convenção e a noção de pátria convertida em fronteira. No lado de lá havia um posto de carabineiros, para repressão do contrabando; na margem portuguesa, um quartel de guardas-fiscais.
Meio pequeno, todos se conheciam e cumprimentavam. Havia uma espécie de confraternização, carabineiros de luzente tricórnio de oleado, os guardas-fiscais e os contrabandistas, num tácito reconhecimento de que deviam o pão à existência comum. Evitavam astutamente encontrar-se ... tácito realismo, suficiente para o contrabando ser aceite como um mal necessário”.
Final de tarde na sede do Grupo de Cristoval, nome de terra que sublinha e define a imemorial partilha cultural raiana, (Cristóbal...Cristóvão), edifício sobranceiro à raia, erguido pelo persistente labor de Cristovalenses mui briosos da sua terra, cabeço de terra lusa. Queremos sublinhar, emocionados, a extraordinária simpatia e muito calor com que fomos brindados pelos dirigentes/sócios da colectividade e habitantes de Cristoval, presentes neste convívio.
Duas grandes mesas, arroz de galo caseiro, pica no chão, delicioso, preparado pela mão experimentada e tão simpática da D. Augusta, fez as delícias de todos, que eram finalmente muitos... Faltou desta volta, para fechar com chave de ouro este dia tão profícuo, a actuação da banda Vianatrilhos; ficou contudo a promessa de se carregar concertina, cavaquinho e viola, numa próxima oportunidade... a ver vamos.
[1] Francisco Fernandes – Na Poética dos Lugares, 2009 [2] João Francisco Marques - O Contrabando no Romance Contemporâneo Português, 2004
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