Marcha em Valongo - Serra de Santa Justa

Foto do grupo Vianatrilhos

Dados do percurso

Informação sobre os aspetos mais significativos

Data 27-03-2010
Localização Valongo
Distância total 17.4 km
Participantes 20

O frio e as fortes chuvadas dos últimos dias, por vezes acompanhadas de granizo, deixaram-me algo apreensivo. O espectro de mais um adiamento ia ganhando força perante a imagem do bravo caminhheiro de peito feito, amante da Natureza enfrentando a intempérie.

No entanto, as primeiras horas da manhã anunciaram um dia de temperatura agradável e com sol, um pouco tímido, é certo, mas proporcionando as condições ideais para uma boa caminhada, dissipando assim qualquer espécie de dúvida. Todos a Valongo, portanto.

A concentração fez-se, como o previsto, em frente ao edifício da Câmara Municipal – um verdadeiro “mamarracho” com vários andares de... habitação. Não é caso único nesta cidade, que neste aspeto merecia melhor sorte. Como tantas outras em Portugal, sofreu durante várias décadas uma forte descaracterização e cresceu mal.

Mas “Valongo da estrada”, como já era denominada no século XVI – passagem obrigatória para todos aqueles que demandavam o Porto, vindos de terras amarantinas ou transmontanas – continua a manter muitos polos de interesse que, fazendo parte das suas origens, lhe moldaram o carácter.

No centro urbano da cidade, percorremos um breve trecho da “velha estrada”, com o seu casario de rés-do-chão e andar, para ir “espreitar” o cruzeiro do Senhor do Padrão e apreciar um exemplar de uma pequena mas interessante casa do século XVIII, conhecida como a Casa do Anjo S. Miguel.

Ainda no centro, dirigimo-nos à Igreja Matriz. O caminho “obrigou” a uma paragem na velhinha fábrica de biscoitos Paupério (publicidade merecida), com a sua origem ligada a uma das principais atividades desta terra no passado – o fabrico do pão. Pode dizer-se que já faz parte do património de Valongo, continuando a produzir excelente sortido de bolachas e biscoitos – que vários caminhheiros aproveitaram para abastecer.

Visitada a Igreja Matriz (meados do séc. XIX), continuamos pela Rua Dias de Oliveira, com as suas casas antigas mas bem conservadas e habitadas.

Já no início da subida a caminho do Alto de Santa Justa, fez-se uma paragem no Centro de Interpretação Ambiental de Valongo. Fomos aqui recebidos pelo Sr. Eng.º Fernando Neves, chefe da Divisão do Ambiente da Câmara Municipal, o qual nos fez uma introdução ao interessante património cultural e ambiental das serras de Santa Justa e Pias.

O ponto alto deste encontro foi a visita ao interior de um dos muitos fojos (vestígios das antigas minas romanas de exploração de ouro) existentes na serra de Santa Justa, por certo um dos mais belos – o Fojo das Pombas. Quem não conseguiu ultrapassar o problema da claustrofobia (alguns), nunca saberá o que perdeu.

Retomou-se o percurso, agora em caminho de calçada. Podemos considerar que se deu início à verdadeira caminhada.

Lá no cimo, sagrando a serra, a capela de Santa Justa e Santa Rufina, a capela de S. Sabino e as lendas que as envolvem. E a vista, deslumbrante, sobre o casario do Porto (com o Dragão em destaque), o rio Douro, as longínquas serras do Arestal e do Montemuro, o Marão, o Gerês, a Cabreira e até o Buçaco e a serra de Arga.

Continuamos a caminhar ao longo da crista da serra, desfrutando de um panorama vastíssimo, em direção ao rio Ferreira. Algumas descidas íngremes, mal-amadas por alguns. Já próximo do rio, chegamos a uma zona rica em fósseis. Trilobites, nem vê-las. Mas foi fácil e apaixonante procurar e encontrar vários outros tipos, vestígios da presença do mar nestas paragens, há 500 milhões de anos.

Chegados ao Ferreira, perto das Fragas do Diabo, prosseguimos pela margem esquerda, para montante. Ao longo do rio, ruidoso e de forte caudal, fomos observando os vários moinhos em ruínas ou desativados, testemunhos de uma época em que a força destas águas movia as suas rodas, assegurando durante muitos anos a produção dessa singela riqueza de Valongo – o pão.

Com todas as anteriores “distrações”, a hora já ia adiantada. O ratito na barriga de cada um já dava sinais de impaciência, pedindo que o almoço, inicialmente previsto para as proximidades de Couce, fosse mesmo por ali.

Junto ao rio, uma providencial e grande mesa de “pedra” (bem, afinal era de cimento) com dois compridos bancos, na Azenha do Vicente, foi excelente solução para o repasto. Um breve descanso, num local bastante aprazível.

O rio continuava com o seu rugido, agora mais regular e brando. Um convite para uma sesta. O Castro Almeida esteve quase a render-se.

Mas havia que continuar, passar pela bonita aldeia de Couce, com as suas casas de xisto, onde ainda se mantêm algumas tradições como a agricultura, a pastorícia e a apicultura. De assinalar o esforço desenvolvido aqui pela Câmara Municipal de Valongo, na recuperação de casas e caminhos, procurando valorizar e integrar este conjunto num percurso pedonal de grande interesse ambiental e paisagístico.

Chegamos assim aos Moinhos do Cuco, que ainda moeram milho e trigo até finais de 2005, cenário de grande beleza a pedir, claro, nova fotografia de grupo.

Aqui nos despedimos do Ferreira, para passar a seguir o seu pequeno afluente, o Simão.

Até ao final da caminhada acompanhamos sempre este curso de água, pelo sopé nascente da serra de Santa Justa, numa paisagem cada vez mais urbana. Acabou por desaparecer (melhor diria “aparecer”, pois caminhámos contra a corrente), tristemente, num túnel escuro debaixo de um prédio, bem no centro da cidade.

Porém, à luz do dia não lhe falta um certo encanto, com as suas margens cuidadas e limpas, os seus belos muros de xisto, simples e sabiamente construídos, atravessando hortas, quintais e espaços de lazer, num desconhecido Valongo das traseiras dos prédios – espécie de reverso do Valongo da estrada.

Tudo acabou no Largo do Centenário, bem sentados numa esplanada com uma reconfortante bebida.
Cadeira, ó grande criação do génio humano!

O Mesquita já tinha dito. Eu não queria acreditar, mas o Castro Almeida provou-me a evidência (será que o GPS não mente?) – o percurso foi um pouco mais longo do que as minhas contas iniciais. Também já estamos habituados a estas falhas de cálculo.

Acho, porém, que ninguém deu por mal empregue o seu tempo.

Fernando Filipe Barroso Vianatrilhos