Dados do percurso
Informação sobre os aspetos mais significativos
| Data | 13-02-2010 |
|---|---|
| Localização | Afife |
| Distância total | 11.5 km |
| Participantes | 42 |
Informação sobre os aspetos mais significativos
| Data | 13-02-2010 |
|---|---|
| Localização | Afife |
| Distância total | 11.5 km |
| Participantes | 42 |
O dia amanheceu com muito frio, à volta de 3 °C em Viana, mas o sol esteve presente e reconfortante no decorrer da caminhada que, mais uma vez, nos levou até à risonha aldeia onde o poeta Pedro Homem de Melo viveu.
Guiados pelo historiador local Dr. França Amaral, iniciámos o percurso no Monte de Santo António, admirável miradouro sobranceiro ao oceano, com vistas para a veiga que se estende a sul até à colina do farol de Montedor, e para a serra de Santa Luzia, que pelo nascente abraça e protege a freguesia.
Em breve, espicaçados pelo frio, atravessámos o Largo das Tílias, saudando o amigo António e a esposa, e recordando os saborosos “samos” com que, na casa da Quinta, nos deliciámos, já lá vão dois anos. O Caminho da Revolta levou-nos até ao Cruzeiro do Vale, onde a primeira intervenção do nosso erudito guia nos chamou a atenção para o vandalismo que impera no nosso país, pois um outro cruzeiro, o de São João, muito mais antigo, também ali existiu e foi roubado nos finais do século XX, perante a indiferença das autoridades. Deste local saíam, no fim de junho, os “clamores”, procissões que se dirigiam ao mosteiro de Cabanas, implorando tempo mais clemente para a agricultura (agora pedem-se subsídios, mas o Senhor está lá para Bruxelas…).
Iniciámos a subida para o monte pelo Calçadão, caminho pavimentado por lajes de granito, afeiçoadas pelos picos dos pedreiros afifenses e dispostas com a sabedoria dos homens que faziam obra para durar séculos. Por aqui transitavam os carros de bois, transportando os matos com que os lavradores preparavam os adubos para as terras, e as madeiras necessárias às casas, para as obras e para a cozinha do dia a dia.
As paisagens magníficas que pudemos desfrutar ao chegar ao Cutro compensaram a frustração de não ser possível avistar os restos do castro aí existente, ocultados por uma vegetação invasora. Este castro, também denominado Castro dos Mouros, foi explorado por arqueólogos ingleses, e ficámos a saber que o local faria parte de um conjunto de assentamentos que os castrejos estabeleceram para desenvolver as suas atividades – mineração, agricultura e, provavelmente, a guerra.
O estradão florestal conduziu-nos até à Cividade de Afife-Âncora, importante conjunto pré-romano com três ordens de muralhas. A intervenção do arqueólogo da Universidade de Oxford, Prof. Cristopher Hawkes, em 1959, permitiu identificar seis ou sete níveis de ocupação, troços das muralhas, algumas casas circulares e um espólio constituído por cerâmicas, pedras aparelhadas e objetos metálicos considerados da Idade do Ferro. As detalhadas explicações do Dr. França Amaral permitiram ainda ver a base do Cruzeiro da Matança, único vestígio que resta no limite das freguesias de Afife e Âncora, local de variadas opiniões especulando sobre o topónimo.
A caminhada continuou em direção ao poente, passando pelo interessante Cruzeiro de Lavoradas, em frente da antiga estrada real Viana – Caminha. Em breve cruzámos a EN 13 e dirigimo-nos então pela mata da Gelfa para o Forte de Cão, construção militar mandada edificar por D. Pedro II, entre 1699 e 1702, sobre os rochedos junto ao mar, para defender a costa no período da Guerra da Restauração. O sol do início da tarde convidava a dar início ao “trabalho do bronze”, embora alguém nos informasse que ali perto se teria localizado uma estação paleolítica de confecção dos chamados “picos ancorenses”, utensílios de pedra de uso variado nesses tempos recuados.
A pausa junto ao mar abriu os apetites (e estava-se tão bem ali…) e foi necessário que, do alto do forte, fosse dada a ordem de marcha para atacar o último troço desta nossa digressão pela História. Depois de uma investida corajosa pelo caminho invadido pelas austrálias e mimosas, chegámos à Mamoa da Eireira, necrópole do Neolítico que chegou aos nossos dias quase intacta, tendo sido explorada pelo Dr. Eduardo Jorge da Silva. Infelizmente, também aqui o vandalismo marca a sua presença – as cercas de proteção têm sido roubadas e o local merecia mais atenção.
O fim da caminhada fez-se pela Estrada Velha, que utilizava o percurso da antiga estrada real, e não deixámos de beber a fresquíssima água da Fonte do Pincho (ou Pinxo?), enquanto, ao longo do Caminho do Lagido, contemplávamos os velhos muros e portais antigos. Atingimos o Monte de Santo António, pelo lado poente, e no miradouro, protegido por centenários pinheiros mansos, deliciámo-nos com a paisagem grandiosa – montanha, veiga e mar azul, tudo banhado por um sol que anunciava a Primavera próxima.
Por um feliz acaso, pudemos visitar a linda capela onde é venerado Santo António, com a sua abóbada em caixotões de granito e o altar que teria vindo da Igreja Paroquial no século XVII. Os vestígios do Castro de Santo António, que teria ligações com a Cividade, são ainda bem visíveis, e algum espólio encontrado está à guarda do NAIA de Afife.
Terminou aqui a digressão por Afife e a sua História mas, como a Quaresma está próxima, alguns respeitadores dos preceitos tradicionais dirigiram-se para os lados de Carreço para sacrificar ao leitão à moda de… Só foi pena que as “penetras” não tivessem ido — afinal, ainda chegava!
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