Dados do percurso
Informação sobre os aspetos mais significativos
| Data | 12-05-2007 |
|---|---|
| Localização | Leça da Palmeira |
| Distância total | 17.0 km |
| Participantes | 33 |
Informação sobre os aspetos mais significativos
| Data | 12-05-2007 |
|---|---|
| Localização | Leça da Palmeira |
| Distância total | 17.0 km |
| Participantes | 33 |
Iniciamos o percurso no Farol da Boa Nova, na marginal de Leça da Palmeira, nas imediações da refinaria, que tanta polémica tem dado nos últimos anos, pelos estragos ambientais que tem provocado na costa norte.
Este farol, com os seus imponentes 57m de altura, entrou em funcionamento em 15 de Dezembro de 1926, sendo sucessor do farolim da Boa Nova que existiu entre 1916 e 1926.
Deslocamo-nos até à capela da Boa Nova, onde existiu um mosteiro de frades, que pelas péssimas condições da costa, acabou por ser desmontado pedra por pedra, e mudado para a Quinta da Granja, apenas ficando como testemunho da anterior ocupação a sua capela.
A seu lado observamos demoradamente a implantação da Casa de Chá – Restaurante da Boa Nova, da autoria do Arq. Siza Vieira, belo exemplar de enquadramento paisagístico.
Tivemos aqui uma agradável surpresa, com a oferta por parte do companheiro Nogueira da Silva, que se associou ao evento, oferecendo uma lembrança, muito apreciadas por todos.
Percorremos depois a marginal de Leça, passando pela praia dos Beijinhos e um pouco mais à frente pelas Piscinas de Mar de Leça, obra de remodelação do mestre Siza Vieira, que encontrou um equilíbrio de formas enquadrado com a envolvente rochosa dominante.
Entretanto o Filipe Barroso mostrou-nos à distância, os portentosos titãs, guindastes monstruosos, que serviram na construção dos molhes, erguendo e posteriormente depositando no local desejado os pesadíssimos blocos graníticos. Foi a «Dauderni & Duparchy» que encomendou às famosas oficinas francesas «Fives», em Lille, os dois gigantescos e poderosos guindastes movidos a vapor que se deslocavam sobre carris. Guindastes que, pelo seu aspecto colossal, de imediato foram baptizados por titãs e que hoje são testemunho museológico industrial importante.
Chegamos entretanto ao Forte de Nª Sr.ª Das Neves, que acabamos por não visitar, pois tal não nos foi facultado pelo militar presente, alegando a falta de autorização hierárquica. Foi uma pena, pois adivinhava-se uma vista abrangente sobre o Porto de Leixões.
Seguimos depois pelo interior de Leça, na direcção da Quinta de Santiago, passando entretanto pelo Jardim do Corpo Santo e capela do mesmo nome, muito celebrada pelos pescadores locais, pois teria salvo pescadores que invocaram a sua graça quando aflitos se viram perdidos em naufrágio na Costa da Morte.
Passamos ainda na Igreja Matriz de Leça, onde pudemos apreciar a imagem de Nª Sr.ª com o menino, que os monges encomendaram em 1481.
Chegados à Quinta de Santiago, separamo-nos em dois grupos de modo a possibilitar quer a visita ao museu, quer passeio pelo jardim desta quinta, muito bem recuperada e exemplar interessante arquitectónico do início do século.
Daqui, seguimos para a Quinta da Conceição, hoje Parque Municipal, recheada de recantos encantadores e construções de diversas épocas e tendências. A foto de grupo foi tirada no pórtico manuelino, relíquia do desaparecido convento da Conceição, hoje testemunhado apenas por esse belo exemplar do manuelino, pela capelinha de S. Francisco e pouco mais. Entretanto como a ponte móvel de Leça está em obras de recuperação, fizemos a travessia do rio com as nossas viaturas, tendo reiniciado o percurso na Igreja do Sr. Bom Jesus, em Matosinhos, seguindo depois para o Parque da Cidade, passando entretanto pelo edifício da edilidade de Matosinhos, apreciando na sua fachada um alto relevo do mestre Cargaleiro.
Foi no Parque da Cidade que tivemos o almoço, servido pela Grão, grupo de jovens universitários, que se dedica a ajudar as comunidades africanas mais desfavorecidas e que, com este tipo de prestação de serviços, arrecada as tão necessárias verbas para tão humanitário desígnio.
Um bravo para estes jovens, que são um exemplo de dedicação a uma causa nobre e nos proporcionaram um magnífico repasto, na envolvente paradisíaca que é este belo parque citadino.
Depois, custosamente seguimos para o Castelo do Queijo, passando junto do Forte de S. Francisco Xavier e seguimos pela marginal, subindo a Av. Do Brasil até ao Forte de S. João da Foz, entrando logo depois no Jardim do Passeio Alegre.
Aí fizemos o reagrupamento, pois entretanto abriu-se um enorme fosso para a cabeça do grupo, sempre liderada pelos Filipe Barroso e Mesquita, que preocupados com o adiantado da hora, tentavam em vão um andamento mais vivo para este grupo sonolento e de barriga pesada, pela excelente refeição servida.
Depois da pausa para observar a fonte e as curiosíssimas casas de banho públicas, que ainda apresentam louças sanitárias primitivas, seguimos para o Farol de S. Miguel-o-Anjo.
D. Miguel da Silva mandou edificar na Foz do Douro este farol-ermida, com o desenho do arquitecto italiano Francesco de Cremona, tendo sido concluído em 1527.
O que resta deste monumento, situa-se no cais do Marégrafo, à Cantareira, tendo servido de farol aos navios que demandavam o rio e mais tarde de arrecadação de utensílios marítimos.
Apanhamos depois o eléctrico para a Ribeira, apreciando na viagem o Museu do Eléctrico, a Ponte da Arrábida, o majestoso edifício da Alfândega, tendo concluído esta viagem no tempo, na Igreja de S. Francisco, com a recepção do Ernesto, que nos surpreendeu com uma caixa de morangos, que souberam que nem ginjas aos encalorados viajantes.
Desta vez não fomos visitar S. Francisco, pois o adiantado da hora o não permitiu, bem como nos esperavam na Casa do Infante, que visitamos demoradamente.
Valeu bem a pena, pois é um espaço de excelência para apreciar o Porto medieval em todo o seu esplendor. Com a sua maqueta e as competentes explicações, proporcionou-nos uma viagem no tempo, apreciando as muitas modificações ocorridas e o exponencial crescimento desta magnífica cidade.
Depois descemos até à Praça da Ribeira para retemperar as forças, preparando-nos para a subida das Escadas do Barredo, Escadas das Mentiras, Rua de D. Hugo, Casa Museu Guerra Junqueiro e finalmente a Sé do Porto e Paço Episcopal.
O regresso a Matosinhos foi de metro, que apanhamos na Av. Dos Aliados, acabando assim um dia magnífico, que muito agradecemos aos companheiros Filipe Barroso e Mesquita, inexcedíveis nesta organização, que subiram a fasquia organizativa para um nível muito difícil de igualar.
Fica aqui o desafio para outras iniciativas análogas, que outros companheiros entendam inserir em próximo programa de actividades.
Boa Nova, ermida à beira-mar, Única flor, nessa viv'alma de areais! Na cal, meu nome ainda lá deve estar, À chuva, ao vento, aos vagalhões, aos raios! (António Nobre)
Desde 1392 que existia. na solidão dos areais da Boa Nova, um mosteiro de frades menores chamado de S. Clemente das Penhas. Erguia-se nos fraguedos onde está hoje situada a branca e romântica ermidinha da Boa Nova.
Conforme relata Camilo Castelo Branco, foi um frade franciscano, Gonçalo Marinho, quem pelos fins do século XIV edificou, "às cavaleiras desses rochedos, em que batem e espumam as ondas", umas paredes de cela, que cobriu de colmo, recolhendo-se ai com mais dois companheiros.
Com o decurso do tempo levantou-se definitivamente o modesto conventinho, que se conservou naquele ermo durante oitenta e três anos, até que D. João da Póvoa, confessor de El-rei D. João II, decidiu de conveniência transferir para mais hospitaleiras paragens a dita Casa de S. Clemente, porque "a destruía o mar e caía cada dia". Foi assim que começaram a desfazer todo o mosteiro, a acarretar a pedra, não deixando senão a igreja, a sacristia e duas celas.
A escolha do local para a construção do novo mosteiro recaiu, por influência de D. Afonso V, na Quinta da Granja, na margem direita do rio Leça, admirável pelos seus terrenos de cultivo, arvoredo, hortas e pomar, e que hoje é para todos nós conhecida como Quinta da Conceição. Foi no ano de 1482, acabada a demolição e concluída a mudança, que "os frades deixaram a casa de S. Clemente de todo", indo habitar o mosteiro novo da Conceição.
E a igreja velha de S. Clemente, certamente muitas vezes reconstruída pelos séculos fora, é hoje a bela e triste Ermidinha da Boa Nova, amada e cantada por António Nobre, que nas suas paredes caiadas escreveu alguns dos primeiros versos (1882-89):
"Senhora da Boa Nova! Capellinha à beira-mar! Ando a abrir a minha cova Para n'ella vir morar."
No sentido de promover a valorização turística da zona costeira, foi construída a Casa de Chá / Restaurante da Boa Nova, projecto do arquitecto Álvaro Siza Vieira, que decorreu de 1958 a 1963.
O programa de espaços públicos consiste numa sala de jantar, que se abre sobre as rochas através de grandes envidraçados, e um salão de chá - espaço mais fechado - articulados com a entrada, escada, hall, bar.
Usufruindo de uma situação invulgar, esta obra participa num todo formado pelo conjunto de rochedos que a envolvem - companheira do horizonte, ligada afectuosamente ao mar.
Sendo um dos primeiros projectos deste arquitecto, trata-se de uma obra excepcional quer pelo rigor e inspiração do desenho, quer pelo diálogo que 3 estabelece entre os materiais que utiliza e o espaço natural envolvente.
Na costa a norte do Porto, reinava a escuridão; chamavam-lhe a "costa negra”. Medonha, prenhe de naufrágios e tragédias. O problema só ficou resolvido com a construção do farol grande, da Boa Nova, inaugurado em 1927. Mantendo-se embora funcional (vê-se o clarão da serra de Valongo, e de S.Miguel-o-Anjo) é hoje monumento de arqueologia industrial. Vai-se lá acima através de 43 metros de subir a pé, em escada de caracol. A vista é soberba não já sobre os campos mas sobre o mar da refinaria da Petrogal e dos prédios que entretanto foram nascendo a sul. Ainda assim é fascínio.
O farol muito branco, recortando-se no azul-celeste foi, para gerações de gente pequena, quando ia à beira-mar, gigante fabuloso de magias eléctricas a desvendar a noite, com luzes nervosas e rodopiantes.
O velho farol da nossa infância permanece alvo, distante, a evocar o sonho..
Situada na avenida marginal de Leça, não muito longe do restaurante da Boa Nova, a piscina propriamente dita estava projectada antes da intervenção de Álvaro Siza. Este "abriu-a" para o mar, por um dos lados, e fê-la participar em toda a sua envolvente rochosa.
Os balneários e as restantes construções de apoio foram dispostos de formas que não fosse perturbada a visão de continuidade da costa.
O betão aparente, as madeiras, a cobertura em cobre, fundem-se na paisagem, sem mimetismo ou timidez, antes pelo contrário, afirmando-se como enriquecedores do espaço que ajudam a qualificar.
Fortalezas de Lipp! Ó fosso do Castelo, Amortalhado em perrexil e trepadeiras, Onde se enroscam como esposas as lagartas! Sr. Governador a podar as roseiras! (António Nobre)
A construção do forte foi iniciada em 1638, mas arrastou-se durante longos anos, para desespero das populações ribeirinhas que viviam, então, não só a ameaça das hostilidades dos castelhanos, mas também dos ataques das fragatas dos turcos que cruzavam o nosso mar e frequentemente se aproximavam da costa, podendo ser avistados. É de aceitar que só tenha si concluído em 1720, data que se encontra inscrita no arranque do arco inferior de entrada da pequena parada central.
Durante a Guerra Civil entre liberais e absolutistas, foram as fortalezas costeiras novamente chamadas a desempenhar o seu papel de defesa do litoral, agora contra os navios portugueses que se aproximavam, vindos dos Açores, com homens dispostos a derrubar D. Miguel I. Em 1840, porém, só. muralhas se encontravam em bom estado; o forte encontrava-se arruinado parcialmente ocupado por uma guarnição de veteranos.
Em 1893 foi nele instalada a Capitania do Porto de Leixões.
A Casa de Santiago foi construída em finais do século XIX, na então chamada Quinta de Vila Franca, nome que ainda subsiste na rua da sua entrada principal. Destinava-se a residência da família Santiago de Carvalho, com projecto de um arquitecto italiano residente em Portugal: Nicola Bigaglia. Vencedor do Prémio Valmor e professor de Modelação Ornamental, Bigaglia projectou diversos palácios e moradias, tendo ainda trabalhado no Palace Hotel do Buçaco.
A casa documenta a sobreposição de duas funções deste veneziano, comuns ao exercício da sua profissão na época: as do arquitecto e as do decorador. Apresenta ainda aspectos ornamentais provenientes da vontade e, por vezes, do desenho do proprietário do edifício. Uma fusão de elementos diversos, sublinhada pelo ecletismo do século XIX, transforma esta antiga habitação num palco interessantíssimo em que dialogam estilos e tendências distintos.
Preservar e divulgar a memória histórica de Matosinhos e Leça da Palmeira através da arte é a missão central deste museu municipal, inaugurado em 1996. Além da sua exposição permanente, também aqui têm lugar exposições temporárias, concertos de música, peças de teatro, workshops, ateliers artísticos, cursos...
"À ponte de Leça, acha Vossa Excelência uns barquinhos que o levam rio acima até à cerca do convento. Aproe ali onde os salgueiros saem a recebê-lo sob um pavilhão de ramas".
Camilo (1867)
Descrevia a viagem à procura do Convento de N. Sr.ª da Conceição. Agora vai-se pela rodovia paralela à doca e entra-se na Quinta da Conceição, sobrevivente da frondosa mata que cercava o Convento. Disse Camilo que a sua destruição foi obra do novo senhorio, homem de muitos haveres e minguada instrução, "sujeito que esgalha árvores para lenha, e as esfola para vender a casca aos tintureiros e artífices de rolhas. Quanto à bolota, a que não pode vender, come-a..." (Belo retrato do casca-grossa, destruidor de cultura).
Os frades dali eram franciscanos estabelecidos no "oratório de S. Clemente de Penhas", sobre o mar do Cabo do Mundo. Em 1478 começou a erecção do novo convento que, vivendo de esmolas e com o modesto apoio de D. Afonso V, só em 1481 ficaria aprontado Como escreveu o cronista (Frei Manuel da Esperança) da Ordem de S. Francisco, "não ficou muito agigantada a casa". Em 1482, "depois da Páscoa da Ressurreição", mudaram-se. No ano seguinte veio de Coimbra a imagem da Virgem. Custara 20 000 reais de fazer e 3000 de pintar e fora executada em pedra de Ançã pelo santeiro ou mestre de imagens Diogo Pires o Velho.
A rasoeira do tempo e a incúria dos homens quase varreram da geografia quinta e convento. Em 1867 já uma mulher "vestida de serguilha e lama" dissera a Camilo: "Qual convento? (...) Cá não há nada disso há muito".
Acrescentaria o escritor que a porta estava "na quinta do Sr. Conselheiro Antero Albano, em S. Paio além-Douro, comprou-a por quatro moedas". Este pórtico - manuelino e belo voltou à quinta. É relíquia do convento, juntamente com a interessante capela de S. Francisco, três chafarizes (de granito, requintado e partes do claustro. Tudo o mais desapareceu entre 1848 e 1867.
Antes que certos "apetites" o devorassem, o que restou da Quinta da Conceição foi transformado em Parque Municipal em finais da década de 50, sob projecto do arquitecto Fernando Távora: "Eu funcionei ali como o padre prior do convento. Caminhava com os pedreiros e jardineiros indicando-lhes o que deviam fazer. Havia um encarregado que me dava os seus conselhos, muitas vezes seguidos". Da sua intervenção, que além do plano geral incluiu o próprio traçado viário adjacente (o que evitou uma desastrosa e maior amputação da quinta), há a destacar o belíssimo Pavilhão de Ténis, considerada uma das obras marcantes da arquitectura moderna portuguesa. O parque integra ainda um interessante conjunto formado por uma piscina e respectivos apoios, do arquitecto Siza Vieira
A primitiva igreja paroquial foi edificada nos meados do século XVI. Nela se acolheu a imagem do Crucificado que, desde o séc. X até essa data (1550), era objecto de veneração no velho Mosteiro beneditino de Bouças. Essa igreja, apeada nos princípios do sec. XVIII, deu lugar ao formoso templo actual, cuja inauguração se realizou, em 1732, com uma grande festividade. Dai nasceria a tradicional romaria grande, hoje ainda uma das mais concorridas de todo o Entre-Douro e Minho.
Da construção inicial restam a capela-mor e metade do corpo do templo. A frontaria tem o recorte característico das boas obras de pedraria da época. Com um pouco de atenção logo se nota um perfeito sentido de medida na altura e afastamento dos dois campanários, no remate do corpo central, levitado por quatro graciosos fogaréus, no ritmo das pilastras e aberturas, no relevo forte e dinâmico do entablamento e até nos agradáveis lavores (cédulas e conchas) que preenchem os espaços.
Desconhece-se o autor do risco, mas é fácil reconhecer que um tão equilibrado alçado só poderia ser concebido por um bom mestre de arquitectura da época joanina. Alguns autores atribuem a sua autoria - está por confirmar - a Nasoni. Este não se envergonharia decerto de o subscrever.
O edifício dos Paços do Concelho de Matosinhos, concluído em 1987, é o resultado de um concurso de arquitectura que o seu autor, o arquitecto Alcino Soutinho, venceu em 1980. A imagem pública do edifício é de uma monumentalidade afirmativa, mas quanto baste, alinhando-se em altura pelas construções próximas, exibindo as suas longas superfícies de pedra, o ritmo ondulante do pórtico da fachada, a grande cúpula cobrindo o Salão Nobre. No lado mais privado, virado aos jardins, a existência de uma moradia antiga (o palacete dos Travões) impõe uma articulação volumétrica mais rica, feita de colagens de planos e volumes.
De assinalar, na fachada principal, um baixo-relevo em pedra de João Cutileiro. No interior, na zona reservada aos trabalhos da Assembleia Municipal, encontramos murais de Júlio Resende evocando toda a mística do mar e das comunidades piscatórias.
A reintrodução do azulejo (espaços de circulação de público) revelou-se um desafio ganho no plano formal, num conjunto onde os sistemas construtivos adoptados, a escolha dos materiais e o cuidado posto no desenho, cumprem com eficácia o papel de garantir a perenidade do edifício.
Ao longo do século XIX a costa marítima da Cantareira foi alargada - obra de rectificação da foz, começada no reinado de D. Maria I, pelo Eng.º Oudinot - dando lugar à construção de um dos mais românticos e fascinantes jardins da cidade, inaugurado em 1888. Toda a área que ocupa, conquistada ao rio, foi durante largos anos um vasto descampado, exclusivamente usufruído pelos pescadores para ali estenderem e consertarem as redes.
O centenário Chalet do Carneiro, simbolizado pela popular figura de cameirinho branco que o encima, último pavilhão do género existente na cidade, avenidas em saibro rodeadas de vegetação exuberante - com realce para as araucárias excelsas que orlam a principal - plantas ornamentais, candeeiros em ferro fundido e bancos de madeira, propiciam momentos de relaxamento como talvez nenhum outro jardim ofereça.
Mas a verdade é que motivos de interesse suplementar existem no Passeio da Foz. É o caso do notável chafariz do sec. XVIII, proveniente do extinto Convento de S. Francisco e, a nascente, os dois belos obeliscos em granito, da traça de Nicolau Nasoni, trazidos da Prelada, onde assinalavam a entrada na cidade. Através deles passaram os 7500 "bravos" do exército liberal 9 desembarcado no Mindelo.
Impressionante obra de engenharia (1960 - 1963), projectada pelo Prof. Edgar Cardoso (que, anos mais tarde, viria igualmente a projectar a não menos bela Ponte de S. João). Inteiramente construída por portugueses, veio alterar profundamente o sistema de circulação rodoviária entre a zona urbana do Porto e a populosa margem sul do rio Douro.
A ponte, toda em betão armado e de um só tabuleiro, assenta num grandioso arco de 270m de vão e 52m de flecha, constituindo uma das obras mais arrojadas do mundo, no seu género. Todas as operações de conclusão do cimbre (Julho de 1961) e, posteriormente, da sua descida, constituíram um espectáculo emocionante para a cidade, trazendo às margens verdadeiras multidões de espectadores.
Elegante e firmemente ancorada nas escarpas graníticas, hoje, a visão da ponte recortando-se sobre o horizonte e a foz do rio Douro, faz parte do imaginário da cidade.
Iniciada a sua construção no fim do século XIV, em estilo gótico. È a principal igreja deste estilo existente na cidade. Na frontaria destacam-se a rosácea, formada por colunelos radiantes ligados por arcos, simbolizando a Roda da Fortuna, e o pórtico. Este, em estilo barroco, é composto por dois corpos, ambos com colunas salomónicas, contendo o superior um nicho, com a imagem de S. Francisco. A porta lateral, voltada ao rio, mantém a sua primitiva traça.
O interior, de três naves, causa grande surpresa, tão singular é a prodigalidade das talhas que o recobrem. Os revestimentos dourados não se confinam aos altares: alastram pelos panos das naves laterais, sobem pelos pilares, ocultam a pedraria das abóbadas, sublinhando-lhes as nervuras e vão ao ponto de preencher inteiramente duas das arcadas - os dois tramos centrais. De assinalar ainda, no seu interior, uma valiosa tábua de pintura do sec. XVI representando o Baptismo de Cristo, obra não identificada, mas de grande qualidade, e o notável retábulo do se. XVIII, em madeira policromada, representando a Árvore de Jessé.
Raro será o caso em que uma igreja de tão nítida estrutura gótica se apresente assim transfigurada por um tal acréscimo de riqueza barroca. A pobreza franciscana como que se converteu em asiática opulência.
A tradição que relacionava o nascimento do Infante D. Henrique com este local, levou ao descerramento de uma lápide sobre a entrada principal, no ano de 1894. É, porém, muito incerta essa atribuição. A casa onde teria nascido, a 4 de Março de 1394, o 3° filho de D. João I, terá sido demolida nos fins do sec. XIX. O edifício subsistente julga-se ser a Alfândega Velha ou "Almazem", próximo do qual D. João I teria mandado edificar o seu Paço.
Esse "Almazem", destinado a Alfândega, havia sido construído anos antes, por ordem de D. Afonso IV, sob protesto do bispo e na sequência de uma longa disputa entre a Coroa e o Bispado sobre o controlo marítimo e fluvial. Nesta mesma área ficaria também localizada a Casa da Moeda, já em funcionamento no reinado de D. Fernando.
A partir de 1677, no reinado de D. Pedro II, desenvolve-se um programa de ampliação mais vasto. A tendência de ir somando novos espaços aos existentes desaparece e começa a ver-se o edifício como um todo. A fachada principal é ampliada com mais dois pisos. O espaço dos armazéns interiores (o actual salão central) foi organizado em três naves com altas arcarias. O último corpo, com a fachada voltada para o interior dos armazéns, constitui uma das zonas de maior significado nesta reforma. Nesta altura, a Casa da Moeda foi integrada no mesmo edifício, para o que se construíram novas forjas com chaminé de cantaria.
Estas instalações só foram abandonadas com a construção, na segunda metade do séc. XIX, do novo edifício da Alfândega, em Miragaia.
Ao fundo da rua de S. João, depara-se a Praça da Ribeira, fronteira ao cais do mesmo nome, local rico de pitoresco na sua movimentação rude e laboriosa. O cenário que a envolve é dos mais estranhos que um viajante de olhos atentos poderá encontrar. Sobre o casario sobrepõe-se, em cascata, o bairro da Sé, com a grandiosa mole do Paço Episcopal e o edifício branco do Seminário, no alto.
Para montante, o quadro é dominado pela grandiosidade da ponte metálica de D. Luís e pelo altaneiro convento da Serra do Pilar. Do outro lado do rio, desdobra-se o anfiteatro de Vila Nova de Gaia, com os seus enormes armazéns de vinho. A vista do rio é particularmente interessante para quem segue pela rua de Cima do Muro, longo e estreito passadiço assente num extenso pano da muralha fernandina. Quase no seu extremo, encontra-se o "memorial" (pela gente do local designado "as alminhas") consagrado à triste recordação da catástrofe da ponte das barcas, ocorrida no dia da entrada na cidade das tropas napoleónicas, comandadas por Soult.
A praça foi transformada no século XVIII por iniciativa de João de Almada e Melo, o qual se deve o seu remate, a norte, pela construção de uma fonte envolta numa imponente estrutura arquitectónica e, no sentido de estabelecer uma ligação franca à parte alta da cidade, a abertura da rua de S. João.
Também John Whitehead, cônsul inglês, vê aprovado o seu projecto de reordenamento da Praça da Ribeira, que previa a delimitação de duas das suas fachadas por monumentais edifícios apoiados em arcarias, mantendo o pano de muralha que a separava do rio; logo iniciado em 1766, será posteriormente interrompido, sem que tivesse sido completado.
Hoje, "o Cubo", como é vulgarmente apelidada e, após alguma polémica, acarinhada, a escultura de José Rodrigues - apoiada no que resta de uma fonte, parcos vestígios da reestruturação de setecentos - tornou-se referência, ponto de encontro e reunião de todos os que demandam a Praça da Ribeira.
Talvez o encanto da praça seja mesmo a antinomia, a oposição de culturas e de concepções arquitectónicas que acabam por formar um conjunto admirável e coerente.
Alvaro Siza em Matosinhos, José Salgado, Câmara Municipal de Matosinhos. Fernando Távora, Editorial Blau, Lisboa 1993.
Guia da Arquitectura Moderna - Porto, Fátima Fernandes, Michele Cannatà, Edições Asa, Porto 2002.
Guia de Portugal, Douro Litoral, Sant'Anna Dionisio e outros, Fundação Calouste Gulbenkien, Lisboa 1985.
Museu da Quinta de Santiago, Livro-guia, Câmara Municipal de Matosinhos. O Grande Porto, Hélder Pacheco, Editorial Presença, Lisboa 1986.
Porto, Hélder Pacheco, Editorial Presença, Lisboa 1984.
Porto a Património Mundial, Câmara Municipal do Porto, Porto 1993.
Projecto e Transformação Urbana do Porto na Época dos Almadas 1758/1813, Bernardo José Ferrão, Edições FAUP, Porto 1985.
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