Dados do percurso
Informação sobre os aspetos mais significativos
| Data | 03-01-2004 |
|---|---|
| Localização | Campo de Gerês |
| Distância total | 13.2 km |
| Participantes | 25 |
Informação sobre os aspetos mais significativos
| Data | 03-01-2004 |
|---|---|
| Localização | Campo de Gerês |
| Distância total | 13.2 km |
| Participantes | 25 |
Começamos em Campo de Gerês, junto da pousada.
O tempo estava incerto e o Cabril escondido no meio da névoa, o que nos causou preocupação, pois com a serra não se brinca e uma ascensão com mau tempo estaria fora de causa.
Subimos pela Fraga do Suadouro, que fez jus ao seu nome, face ao nosso estado no seu cimo.
Enquanto esperávamos pelos retardatários, podemos observar demoradamente as vistas para o Campo de Gerês e, mais ao fundo, a barragem de Vilarinho das Furnas, onde se podem ainda distinguir alguns dos muros dos campos da aldeia de Vilarinho das Furnas, tragicamente "engolida" pelas águas da albufeira, aquando a construção desta barragem.
Continuamos a meia encosta, passando por alguns prados e uma bela nascente de águas límpidas, até ao imponente Pé de Cabril, que fomos subindo até atingir a primeira plataforma.
Aqui uma parte dos presentes ficou abrigada, tendo os mais afoitos continuado, para o cimo.
Lá fomos rastejando nas fendas e trepando os obstáculos, bem difíceis e extremamente escorregadios, até atingir os degraus incrustados na rocha, que nos levaram ao ultimo objectivo.
Valeu a pena o esforço, o frio e o risco, para vislumbrar uma paisagem a 360 graus, por todo o Gerês.
A posterior descida foi muito cuidadosa, já que é traiçoeira, muito escorregadia e uma queda seria fatal. Continuamos vagarosamente até aos companheiros que ficaram à nossa espera, desfrutando então do farnel, que nos retemperou as forças.
O regresso foi feito por outro trajecto, que nos voltou a trazer até ao Campo do Gerês, cansados, mas satisfeitos por uma jornada cheia de emoções e dando por bem gasto o belo dia que tivemos a sorte de ter.
Certo dia, um dia 20 de Setembro, meteu-se-me na cabeça fazer a ascensão do Pé de Cabril.
A janela do meu quarto, aberta de par em par, deixava vir o céu estrelado, bons prenúncios para a subida que resolvera para a manhã seguinte e cheio de confiança adormece pensando «amanhã, às 8 horas, estarei lá no píncaro e terei o prazer de observar um larguíssimo horizonte, do qual conheço já muitos detalhes e com esta contemplação obterei a síntese».
Desta forma ficarei com a chave panorâmica da Serra Amarela ao mesmo tempo que uma vista de conjunto sobre todo o Gerês.»
Estava impaciente por vir, do alto do Cabril, a longínqua silhueta do Coto do Muro, o ponto culminante da «Amarela», escalada três dias antes e portanto já familiar para mim; e de abranger em voo de pássaro as deliciosas aldeias sertejanas, envolvidas em ramadas floridas de S. João do Campo e de Vilarinho da Fuma.
Ás 6 horas da manhã fui acordado pela chuva.
O nevoeiro vendo de Oeste acumula-se sobre as terras de Bouro.
Um fino cajueiro penetra a atmosfera. O Geres, hoje, estará debaixo de água.
Partiremos? 0 guia chega, com ar inquieto, pessimista, teimoso como quem não tem dúvida que será necessário tomar o seu partido.
Mas não conseguirá coisa nenhuma, a ascensão prevista provará a possibilidade do passeio.
Tanto pior, teve de o arrastar contra sua vontade e lá me seguiu sem se queixar, resmungando «Estes diabos destes franceses»!
Metemos pois a caminho para Leonte debaixo de uma chuvinha cada vez mais cerrada.
Pereiras selvagens, pinheiros, castanheiros choram através das suas folhas a água do céu.
Atingimos a Perguiça onde nos abrigamos debaixo de um enorme carvalho.
Passa uma hora, passam duas. A chuva ora batia em fortes rajadas, ora amainava por instantes.Decidido a não desistir, aproveito uma distas escampas para dar o sinal da partida.
Não falarei do Pé de Cabril senão como alpinista, porque o subi, pode-se dizer, com os olhos vendados e furioso.
Desde Leonte à ponta sul não vi nada senão os pés do guia e as águas que escorriam pela sua capa, e certamente teria continuado a subir se o meu companheiro não me tivesse assegurado que estávamos chegados à plataforma superior.
Então, tive o sorriso desconsolado de todos aqueles que reconhecem o êxito fácil em demasia, o que corresponde quase a uma decepção.
Em vão procurava descortinar alguma coisa por entre a opaca névoa no meio da qual nos encontrávamos.
Não se via nada, a não ser os movimentos rápidos mas inúteis e sim vida, das nuvens, ascendentes e descendentes, impulsionadas por fortes rajadas, deslocando, misturando, desorientando tudo, sem nada esclarecer.
Como escorrêssemos água por todos os lados e o frio nos fizesse bater os queixos, refugiamo-nos sob uma enorme fraga, en porte à faux a pouca distância abaixo da laje culminante.
Pingentes de bruyére arborescentes brilhavam.
Precisamente no momento em que aproximava as mãos regeladas da odorífera e quente labareda, um enorme golpe de vento libertou do forte cajueiro as arestas da montanha, e eu vi, sobressaindo da mancha azulada a cinquenta metros em frente, em linha recta, mais alto que nós, mas distintamente mais alto, o esboço fugitivo do outro morro, a ponta norte:
O ponto mais alto
O guia teve um sorriso amarelo e procurou convencer-me que seria preferível não experimentar subir lá cima, acompanhando as suas palavras com um gesto que mergulhava até ao fundo dos barrocais, mas como não visse no meu semblante sinais de acordo foi acrescentando a garantia de que me não acompanharia.
Nada mais pude conseguir.
Pouco depois experimentava através o dédalo de fraguedos encontrar uma passagem que me levasse ao píncaro superior do Cabril, de cuja ascensão estive quase a ficar roubado.
Tinha-o visto: não retrocederia.
Ao princípio fácil a subida, depois de atravessar a pequena garganta que junta os dois cimos, deve voltar-se à esquerda deixando à direita a vertiginosa muralha do nascente que se lança quase vertical até ao caminho do vale de Albergaria.
Segue-se de começo uma série de blocos da direita para a esquerda, tendo depois de retroceder, atingindo o recanto que delimita a segunda altura de rochedos, por onde se segue alguns metros até determinada ravina, que se passa com o auxílio da aresta vertical aguçada que a limita do lado esquerdo.
No entanto, melhor será suster um pouco a marcha antes, por baixo de uma pequena anfractuosidade aberta na muralha vertical pelas aguas, à altura dos braços estendidos para o ar.
Nesta altura é necessário com todos os cuidados e com conhecimentos de alpinista fazer uma preparação bastante delicada e arriscada até conseguir colocar um joelho na cavidade.
Uma vez atravessado este passo volta a subir-se com relativa facilidade até ao corredor horizontal, da largura de cerca de um metro e que tem dos lados os blocos terminais.
Podem atingir-se colocando o corpo horizontal, os dois pés apoiados a um dos lados e as duas mãos ao outro, com a ajuda dos cotovelos.
É necessário recomendar-se que será bom ninguém se meter para a direita sobre o rebordo extremamente perigoso, que tanto permite atingir o píncaro, como voltar a encontrar os grupos de carvalhos e de ericas, quatrocentos metros mais abaixo.
Uma vez atingidas as lajes cimeiras que se prolongam para o norte, pude refrescar as mãos na água da chuva depositada em pequenos buracos musgosos abertos na pedra.
Neste momento ouvi o guia gritar do píncaro sul, aplaudindo alegre e espalhafatosamente:
«primero, a primero!»
Dez minutos depois confessava-me que ninguém, nem ele, nem outros, ainda lá tinha subido.
Confirmaram-me à tarde no Gerês que tinha feito uma «première».
E tê-los-ia acreditado se...
Se não tivesse visto, lá em cima, mesmo no cima de tudo, na última laje da extremidade norte do píncaro escalado, quer dizer, a três metros de desnível inferior do cume topográfico do Pé de Cabril, um certo circulozinho pintado a encarnado que tinha no centro qualquer indicação que foi sem dúvida inscrita no dia em que alguém lá esteve, com certeza, em cima a 1.237 metros sobre o nível do mar.
Dr. Roger Heim.
Trad. de Camacho Pereira.
Pensa-se que terá sido o Dr. Roger Heim o primeiro a visitar este pico, de acesso muito difícil (quando era obrigatório ser feito pelo lado da Portela de Leonte)
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