Dados do percurso
Informação sobre os aspetos mais significativos
| Data | 28-08-2002 |
|---|---|
| Localização | São João d'Arga |
| Distância total | 14 km |
| Participantes | 34 |
Informação sobre os aspetos mais significativos
| Data | 28-08-2002 |
|---|---|
| Localização | São João d'Arga |
| Distância total | 14 km |
| Participantes | 34 |
Esta iniciativa teve como objectivo fazer reviver de certa forma a Romaria de S. João D'Arga, caminhando ao encontro do local da festa, através do trilho que parte da aldeia de Montaria, passando pelo viveiro florestal, encosta da Branca, Chã do Guindeiro, Ribeiro de S. João, atingindo-se a Fonte da Telha, já bem perto do Convento de S. João D'Arga.
"É assim que anualmente, de 28 para 29 de Agosto, ocorrem de todo o lado romeiros dispostos a passar uma noite inesquecível. No coração trazem a fé e a folia, nas mãos carregam as oferendas com que "compram" as boas graças do Santo.
Na romaria de S. João D'Arga também não se esquecem as dádivas ao "Senhos Diabo", não vá o infortúnio bater à porta. "Pedir ao Senhor com um olho no Diabo", é assim a noite da romaria"
A impaciência do jovem Egica contrastava com calmaria dessa linda manhã de Primavera. O sol iluminava aquecia o solo com o seu beijo quente, a passarada esvoaçava saltitante, sem os problemas daqueles que habitam terra. Mas o jovem Egica não via, não ouvia, não sentia nada mais à sua volta do que o objecto que o preocupava. Preparado para montar de repente no seu cavalo veloz - caso surgisse qualquer complicação ou a sua bem amada aparecesse, tal como estava combinado - Egica encheu o peito de ar para combater a respiração difícil que lhe causava o desespero em que se encontrava. Eulália - o seu grande amor - dissera-lhe dos projectos de seu pai, o rei Ervígio: casá-la com o guerreiro Remismundo. E logo o par amoroso planeou a fuga que lhes daria a liberdade. Mas Eulália não chegava no momento combinado. Eulália demorava-se. Porquê? Teria o rei descoberto o plano que haviam arquitectado com tanta minúcia?
O Sol avançava na sua linha de movimento aparente. E a impaciência de Egica avançava também pelo seu corpo, transmitindo-a ao próprio cavalo, que batia com as patas no solo.
De súbito, reteve a respiração. Alguém contornava a esquina murada, com passo leve e apressado. Era Eulália, finalmente! Ele correu para ela. Tomou-a nos braços.
Ela tremia e falou em voz baixa, como se temesse ser ouvida:
O jovem ajudou-a a subir para o cavalo e recomendou-lhe, enquanto montava também:
E, sem mais explicações, Egica esporeou o alazão e partiu como uma seta.
No ar ficou por um momento o eco desse galope desenfreado...
Entretanto, os soldados de Ervígio procuravam o par em fuga. Não se atreviam a regressar sem a missão cumprida. Contudo o dia ia-se prolongando, os cavalos enchiam-se de cansaço e espuma, e o próprio cheiro a Primavera parecia cúmplice na fuga de Eulália e do jovem Egica, envolvendo-os no seu manto de mistério para que não fossem encontrados...
A tarde já ia em meio quando jovem fez descer a sua noiva e a conduziu junto a um regato, para descansarem.
Receosa, ela olhou em volta.
Ele beijou-lhe a testa coberta de pó.
Querida, nada receies! Eles perderam-nos de vista e julgam que seguimos para o norte, onde me era fácil encontrar gente amiga. Porém... troquei-lhes as voltas...
E para onde vamos?
Vou tentar atravessar a Galiza e procurar refúgio seguro no Mosteiro Máximo, onde sei que se encontra um grande amigo de meu pai. Ele nos ajudará!
Com voz ansiosa, Eulália perguntou:
O braço forte do jovem guerreiro ergueu-se, apontando o horizonte.
O recorte do Monte Medúlio já se divisa além. É só mais um esforço!
E é nesse monte que existe o mosteiro que procuras?
Sim, meu amor. Verás que tudo correrá bem!
Ela sorriu-lhe. Um sorriso quase infantil. Mas logo a sua expressão entristeceu.
Só por ti receio, Egica!
Por mim? E por ti? Já pensaste bem o que viria a acontecer se os soldados de teu pai nos apanhassem e conseguissem arrancar-te dos meus braços?; Confesso-te que preferiria a morte, mil vezes!
Ela levantou-se como quem descobre de súbito um fantasma.
Egica sorriu, numa tentativa para acalmar a sua bem amada. Passou-lhe o braço pelo ombro. Puxou-a para si docemente. Mas como ela olhasse em redor com o medo estampado no rosto, ajudou-a de novo a montar, declarando-lhe:
O cavalo abrandou a marcha. Estava visivelmente cansado. A penumbra que antecede a noite envolvia completamente aquele estranho grupo no cenário grandioso do Monte Medúlio. Lá estava o Mosteiro Máximo, meta dessa carreira que durava há algumas horas. O silêncio naquele local e àquela hora era impressionante. Ouviam-se as próprias respirações, alteradas pelo cansaço e pela emoção.
Descendo da montada, o par fugitivo dirigiu-se para o mosteiro, e bateu à porta, discretamente. Um homem com o rosto quase tapado veio abrir. Egica tivera o cuidado de colocar Eulália fora do alcance visual do monge. E perguntou, com certa ansiedade na voz:
O monge porteiro fechou o postigo por onde espreitara. O silêncio voltou a envolver a serra. A espera foi curta, mas o coração de Egica bateu mais forte quando o postigo voltou a abrir-se. Desta vez, porém, assomou um outro rosto, que abriu os olhos num espanto incontido.
Egica sorriu.
Sim irmão Gondemaro! Sou eu... o filho do homem que ccrnvertes-tes em Salinas!
E que me quereis?
Preciso do vosso auxílio. Trago comigo alguém a quem muito quero e que corre perigo neste momento.
Chamou, com doçura:
A jovem apareceu ante os olhos ainda mais espantados do velho monge. Com voz quase velada, ele perguntou a Egica:
· jovem elucidou:
O monge levou uma das mãos ao peito.
E, abrindo com precaução singular a grande porta do mosteiro, o monge introduziu na santa morada o casal fugitivo.
Lá fora, a noite começava a cair...
Quando o jovem Egica acabou o relato da sua odisseia ' raptando a filha do rei Ervígio para vir ao Mosteiro Máximo de Monte Medúlio procurar um amigo que os casasse, o irmão Gondemaro olhou-os fixamente, num ar aflito.
Egica sobressaltou-se.
O monge explicou:
Eulália levantou-se com dignidade. - Não desejo ser uma sombra para a vossa consciência. Aceito a expulsão e só desejo que a morte me encontre depressa!
Egica protestou, magoado:
O monge tapou o rosto com as mãos. Silenciou durante alguns segundos. Depois murmurou, como em oração:
Destapou o rosto e encarou os jovens.
Egica retorquiu:
Escolhei, irmão, entre as nossas vidas e a tranquilidade da vossa consciência.
Ai de mim! A tranquilidade foi-se com o pôr do sol e a vossa aparição. Não há, pois, por onde escolher. Ficai! Vou casar-vos. Agora mesmo e secretamente. Depois emprestarei um hábito à filha do rei Ervígio para que pernoite aqui. Todavia, logo que a luz do dia desponte, dar-vos-ei um salvo-conduto para que possais ir à presença da dama que vive num castelo próximo. Só ela poderá abrigar-vos.
Egica apertou a mão do monge.
Quando a manhã voltou a banhar de luz os campos, onde os passarinhos saltitavam cantando e brincando alegremente, encontrou os noivos já prontos para a nova jornada, aliás curta.
Com a alma gritando alegrias, o par enamorado despediu-se do monge Gondemaro. No rosto dos jovens espalhava-se a felicidade. O monge reparou neles e disse, olhando a filha de Ervígio:
Ela sorriu-lhe.
O monge meneou a cabeça.
O jovem godo sorriu para o monge. - Quanto vos ficamos devendo! Só Deus poderá pagar-vos!
Eulália olhava agora o estranho habitante do mosteiro com certa ansiedade. Egica depressa deu por essa repentina mudança.
Ela fitou o horizonte distante. A sua voz fraca, de menina, esclareceu num suspiro:
Ele prometeu:
Eulália olhou em volta, como se visse aquele cenário pela primeira vez.
Como é linda esta serra! Os Romanos chamaram-lhe Monte Medúlio? Pois eu penso que ela mais parece uma enorme agra. Quem a cultiva, irmão Gondemaro?
Os monges do nosso mosteiro e alguns particulares. Todos aqui trabalham. Esta é uma terra abençoada por Deus! Egica sorriu, repetindo:
Serra de Agra! Eis um bom nome, com o qual a baptizo.
O monge sorriu também.
Egica sentenciou, teimoso, com aquela energia que punha em todas as suas palavras e actos:
No rosto do monge nasceu uma expressão de dúvida. Mas sorriu, incitando:
E despedindo-se:
Alguns meses passaram. Eulália e Egica continuavam no castelo onde o salvo-conduto do monge Gondemaro os abrigara. Não mais tiveram novas dos soldados de Ervígio. Mas a saudade do lar paterno punha uma secreta mágoa no coração de Eulália, horas esquecidas espreitando, do mirante do castelo, o horizonte mudo, para lá da serra de Agra.
Certo dia, Eulália descobriu um vulto caminhando em direcção ao castelo. Desceu a correr, com o coração batendo tão forte que lhe estremecia a túnica alvíssima.
Chegada à porta larga, abriu-a e viu na sua frente o irmão Gondemaro. Sem hesitar, correu para ele.
Ele sorriu e falou num ar descansado:
Recebi-as ontem ao anoitecer e pus-me a caminho logo de manhã.
E que novas me trazeis?
Vosso pai enviou esta resposta: «Se me derem um neto varão, perdoar-lhes-ei a fuga e a desobediência e nomearei Egica meu sucessor. Se me não derem um neto no prazo de um ano, esquecerei que tive uma filha chamada Eulália! »
A jovem uniu as mãos em muda acção de graças. O seu rosto transfigurou-se quase e a tremura das pernas obrigou-a a sentar-se numa pedra da entrada. Entretanto Egica chegava de um passeio a cavalo e, vendo o monge, correu também para ele.
Eulália não lhe deu tempo a prosseguir. Precisava exteriorizar a sua felicidade:
Egica olhou a jovem esposa com enleio.
Como num eco, o monge ajuntou: - Que Deus vos oiça!
Eulália voltou a olhar o horizonte, que desta vez parecia mais claro, menos fechado. Egica passou-lhe o braço pelos ombros e beijou-a nos cabelos. Esqueceram por momentos a presença do monge. E quando se lembraram dele, viram-no já, amparado ao seu bordão, a caminho do Mosteiro Máximo.
Eles riram, contentes.
Egica murmurou:
Eulália encostou a sua linda cabeça ao braço forte do marido.
Ele acariciou-lhe os cabelos. - E depois?
Eulália suspirou fundo:
A voz sumiu-se-lhe quase, de emoção:
Os textos apresentados foram recolhidos em obras diversas
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