Por Trilhos da Serra D'Arga

Foto do grupo Vianatrilhos

Dados do percurso

Informação sobre os aspetos mais significativos

Data 15-12-2001
Localização Montaria
Distância total 13km
Participantes 34

Este percurso, teve o seu inicio e fim no centro da aldeia de Montaria, local em que se pode descobrir uma enorme riqueza etnográfica com alguns restos de comunitarismo, não devendo deixar de visitar a sua igreja paroquial, com admirável talha, azulejaria, alfaia liturgia e o presépio de Machado de Castro. No exterior acerte a hora pelo relógio de sol existente na torre da igreja. Não deixe ainda de ver os "Massadoiros de Linho" no largo da aldeia.

O percurso teve início pelas 09h00 e passamos por:

Calçada da Encosta do Curral, Fonte Cavada, Porta da Vila, Alto do Corisco, Outeiro do Homem, Ribeiro dos Enxurros, Châ das Sizedas, Ribeiro da Póvoa, Três Coutinhos, Alto da Portela, Regueiro da Fisga, Chã do Guindeiro, Fonte Alta, Porrilhão, Outeiro das Cabras, Viveiro Florestal, atingindo-se novamente a aldeia de Montaria.

Desta feita tivemos o prazer de ter connosco novos companheiros, com destaque para um grupo de caminheiros de Coimbra e do Porto, que se nos juntaram, tanto no percurso como no convívio que se seguiu, que também serviu para homenagear o companheiro Celso pelo seu recente aniversário.

Esperemos que voltem para mais actividades na nossa região, com relevo especial para a Romaria de S. João d'Arga, lá para o dia 28 de Agosto.


Por trilhos da Serra D'Arga

Foi no dia 15 de Dezembro de 2001, véspera de eleições autárquicas, tempo seco e frio, óptimo para andar na serra. Passava pouco das nove horas, quando abalámos na direcção de Ponte de Lima. No nó da IP9, em Nogueira, derivámos para a Montaria, aldeia típica, encostada à Serra D' Arga, outrora passagem obrigatória para os romeiros de S. João D'Arga, sempre em finais de Agosto. Esta romaria foi e continuará a ser das mais populares e castiças do Alto Minho. Ruben A., pela sua pena de escritor, retracta o que poderia ser parte da nossa caminhada de hoje, passados 40 anos.

"Vai-se de automóvel até S. Lourenço da Montaria, depois à pata... À saída de S. Lourenço é uma subida enviesada entre pinheiros, cabeça marrada aos pés, romeiros vestidos de animais, patas são quatro, sobe-se de gatas, voltar atrás é perder o equilíbrio... o extraordinário é que está sempre gente a subir e a descer qualquer que seja a hora, desde o dia 28 pela madrugada ao dia 29 já noite fora Sobe-se sempre, parece uma humanidade transportada em bandos de funicular nacional. O momento está a chegar, fora dessa montanha de pinheiros espessos começa o planalto de pedras, pedras sempre pedras, pedras desde o princípio do mundo, pedras poemas, sabendo que são pedras, pedras sim... Chega-se ao fim do planalto e vê-se a Ribeira Lima, o alto da cidade de Viana, descortina-se Âncora com o pinhal da Gelfa de sentinela alerta. É um espectáculo cinzento ao pé, quase verde nos longes. Começa agora nova subida por melhor caminho ... (pág. V)

Chegados à Montaria, arrumaram-se os veículos e, depois de tirar a foto do grupo de caminheiros, seguimos pela calçada da Encosta do Curral até atingir a casa do guarda florestal, lá bem no alto, abandonada ao tempo, a pedir clemência. A vista é indescritível, é um lugar que fica na retina pela beleza da paisagem e da monumentalidade serrana. Daqui à "Porta da Vila" foi um pedaço duro de roer; o tojo alto e espesso, não poupou as pernas mais sensíveis de algumas caminheiras desprevenidas.

Por cima de nós, a Chã Grande e a Senhora do Minho, a tal que veste de minhota e sai à rua no dia da sua peregrinação, no primeiro domingo de Julho de cada ano.

À "Porta da Vila" chegados, tiraram-se fotos para recordar; andava por ali um garrano jovem; dele me aproximei, quase lhe tocando, não fosse ele selvagem e teria havido uma montada.

Mais à frente, vê-se o Oceano Atlântico, o que dá consolo observar e contemplar. E, mais uns metros, sempre difíceis, com o mato a castigar, atingimos o Alto do Corisco, onde descansámos.

Retomámos a caminhada, antes, porém, tive a primazia de provar uma "jeropiga" de Vinho do Porto, que o nosso amigo e caminheiro Fernando Vilaça trouxera. Enquanto descíamos, no horizonte era o vislumbre nostálgico da nossa Princesa do Lima.

Descemos por trilhos de giesta seca, foi a nossa sorte, e atravessamos o regueiro da Póvoa. Bem perto deste, vimos ruínas de abrigos dos pastores, a demonstrar que por estas paragens a transumância era um facto: no Inverno (inverneira) os pastores desciam ao povoado e no Verão (verandas ou brandas) subiam à serra com os animais à procura de melhores pastagens.

As tantas, dá-se pela falta do Pena, o geólogo, mas ao olhar para o cume da serra é avistado, já bem longe, em cima de um penedo, à procura de calhaus, pensamos todos. O desnorte foi um equívoco, enquanto se desviava para nascente, nós caminhamos para poente. A serenidade e a experiência esfriou os ânimos expectantes dos caminheiros, em redor de um abrigo desmoronado.

Continuamos a marcha até ao penedio de monstruosas pedras sobrepostas, que foi o local escolhido para repouso e "almoço", já bem perto do caminho dos romeiros da Montaria a S. João D'Arga.

Aos pouquinhos todos se foram sentando, pertinho uns dos outros, e a malta de Coimbra, sempre bem disposta e divertida, começou a aperceber-se de algo estranho na comitiva dos "Amigos da Chão". É que não faltaram bolos de bacalhau, salpicão e outras coisas mais, típicas de romaria que se preze, com acompanhamento vinícola das mais variadas castas, como touriga nacional, periquita ou castelão francês e tinta roriz. E, vejam só, até "Côtes du Rhone" provei, à cautela.

Os neófitos caminheiros (por estas bandas) provaram o que quiseram, em sadia camaradagem; porém, tinham que ser baptizados pelos fundamentalistas dos "Amigos da Chão". E claro que o receio de tragar um "shot" de um liquido amargoso passou pelas mentes, sobretudo femininas. A cerimónia fez-se, lá no alto da montanha, para gáudio de todos o liquido baptismal esteve à altura, a tal jeropiga de vinho do porto que referi. A malta de Coimbra aderiu e de que maneira!

Foi uma verdadeira claque coimbrã! Para registo, aqui ficam os novos amigos da chão: Ana Falcão, Mane, José Couceira, Margarida, Luís Januário, Margarida Veigas, Carlos Filipe, José Távora, Alda, Aline, Luísa Marques, Joaninha, Luís Mendes, Balbina Fernandes, Rui Pena, Varela e Monteiro.

Conversa puxa conversa, o Rui Pena, o geólogo, diz conhecer um amigo em Viana. E quem havia de ser? - É o B.B. diz o Pena. Como o mundo é pequeno!

Todos ansiavam o fim, especialmente a malta de Coimbra, para comprar um chouriço da Montaria, ver o presépio de Machado de Castro, ver o estilo Barroco da Igreja Paroquial, mas cadê o Padre Alexandrino?

Vai ter que ficar para a próxima, pois não tinha sido nada combinado, até porque os "Amigos da Chão" nunca pensaram ter nesta caminhada este grupo fantástico, que, por chalaça, até tinha um "líder", para uma anarquia tão grande!

Nada satisfeitos com este vazio gastronómico, havia que procurar outras paragens e lá fomos até Ponte de Lima. Diziam uns, vamos aos irmãos da Isabel! Assim foi, quando nos sentamos à mesa já lá estavam os costumados petiscos e o vinho branco verde da região, à nossa espera. Às duas por três envolvemo-nos todos na conversa, parecendo que já nos conhecíamos há "longtime".

O Miguel incansável guia, aproveitou uma data aniversariante recente, para oferecer uma foto emoldurada ao veterano caminheiro Celso, que a recebeu, com emoção, acompanhada de sentidas palavras. Gesto simples e eloquente. Bravo Celso!

A hora era de abalada, porém, ficou escrito, antes de partirem para Coimbra, que se ia marcar um cozido à portuguesa em S.Lourenço, da Montaria, a cujo apelo ninguém se absteve.

E mesmo para finalizar, só faltava o filho do Castro Almeida subir para uma cadeira e contar anedotas. E não é que o arrebitado adolescente, em final de festa, conseguiu arrancar sonoras palmas a todo o grupo?

Até que uma voz, soa mais alto: Vamos embora!

Luís Gonçalves in Aurora do Lima

Miguel Moreira Vianatrilhos