Travessia da Serra Amarela

Foto do grupo Vianatrilhos

Dados do percurso

Informação sobre os aspetos mais significativos

Data 26-05-2001
Localização Vilarinho das Furnas
Distância total 24 km
Participantes 24

Integrado nas comemorações do 25º Aniversário da EDV - Escola Desportiva de Viana, a secção de Montanhismo, Caravanismo e Campismo organizou uma caminhada, já no limite climático próprio para estas jornadas de montanha, em 26 de Maio, decorre o ano de 2001. A aderência foi razoável e quanto basta, se atendermos ao grau de dificuldade da marcha e ao eventual calor que acabou por ser um óbice a transpor: 24 caminheiros!

Pés ao caminho, seriam 9h30, depois de largados de autocarro junto à barragem do Vilarinho das Furnas, inaugurada em 21/05/1972. Submersa pela albufeira da barragem, esta aldeia comunitária é hoje um fantasma. O rio Homem separa a Serra do Gerês da Serra Amarela, o Baixo do Alto Minho. Seguimos pela margem direita do rio, mas se fôssemos na direcção de Brufe, quão espectacular e inolvidável paisagem nos estaria reservada, a pé ou de carro, por caminho recentemente asfaltado. Junto à margem do Homem, as primeiras passadas serviram de aquecimento muscular; aqui e acolá, sombras de construções de pedra, as ruínas de Vilarinho. Todos estavam conscientes que iriam subir à cota de 1.359 metros de altitude, lá bem no altar da Serra Amarela, onde posam as antenas, também conhecido por Retransmissor do Muro; onde a nossa vista enxerga o Vale do Ave, da Cabreira à foz e se divisam os contornos da Serra do Caramulo.

Uma névoa matinal, a anunciar tempo calorento, como dizem os franceses Ia brumé di chaleur, nos esperava para todo o dia, com quatro horas de subida. Com o sol a incidir no cachaço, ao fim de uma hora há havia cloreto de sódio por todo o corpo; animados, todavia, pelo brinde da natureza, sempre com a imponente Serra do Gerês por companhia, do lado de lá do Homem. Surge, então, à nossa direita, o penedo que configura o par de namorados, ao longe, na solidão, por cima da Bouça da Mó; mais acima, um bom pedaço, lá está o Pé de Cabril referido por Miguel Torga na margem de lá, o Pé de Cabril, solene, esperava o abraço de uma ascensão. Havemos de lá ir! Com o Rui na frente, era a bússola de orientação.

Rondava já o meio-dia e o cansaço era evidente, com as estáticas antenas, ali à beira e tão distantes Os ânimos, nunca esmoreceram, pois, era só mais um pouco, era já ali! Com as camisolas ensopadas, que bem soube beber da água que pelas fragas escorria. Junto à cabana de Porto Covo tiramos a foto de família caminheira e todos ficaram a saber que daqui partia um trilho para a Portela do Homem.

No Ramisquedo, lajes enormes barram-nos a subida e o trilho desaparece. Com a Mata de Cabril (mancha floresta classificada de Reserva Integral do PNPG) diante de nós, precipício de arrepiar, por onde corre o rio Cabril, afluente do Lima, e se localiza a ravina mais funda de EntreDouro e Minho e onde se escondem os javalis, veados, e a quase extinta cabra do gerês. Neste local, à cota de 1.117 metros de altitude, retemperamos as forças, eram 13 horas. Mais um esforço, por entre piorno, urzes e carqueja e a caminhada tinha o seu fim.

Apesar das dificuldades acrescidas, o sol a pino, a fadiga da caminhada, e a ilusão da proximidade do final da marcha, o pelotão caminheiro ia compacto, onde seguia a Glória, o Júlio e o Meixedo, bravos caminheiros edevistas. Não possuem as mãos milagrosas da caminheira fisioterapeuta, Ana Maria, e os derradeiros metros iam atraiçoando os músculos de dois companheiros, mesmo à chegada, pelas 14 horas.

Já no cimo, na base do vértice da Louriça, a olhar para as antenas, na encosta nascente, íngreme e acentuada, nota-se o fojo do Soajo, que o Miguel, com a sua habitual pachorra, esteve a explicar à caminheira Olinda, ser uma armadilha para o lobo, ou seja, um fosso na cova profunda e larga, a qual constitui o vértice de dois longos muros de pedra solta, mas altos, com quilómetros de comprimento, que para ele convergem. No sopé do ponto mais alto fizemos pausa merecida para descanso e deglutição dos restos do farnel de montanha.

Houve quem comesse bolos de bacalhau, ainda quentinhos e bebesse um verde branco "fresquinho". Retemperador, sem dúvida! Havia que cumprir o ritualismo do baptismo de montanha, desta feita, foram baptizados a caminheira Olinda e o casal Fernando e Helena. O matreiro do Pimenta, abeirou os lábios da garrafa e, à revelia, bebeu um golo do etílico e inebriante líquido baptismal. A curiosidade de ir às antenas espicaçou a vontade de alguns, mas como lá já tinha ido e por saber que era mais 1,5 km nas pernas, para cada lado, estendi-me ao comprido, mas fiquei com pena do horizonte espectacular de Caminha ao Porto e do Gerês até ao mar.

Para ser franco, a caminhada deveria ter terminado aqui, só de pensar que até à aldeia do Lindoso eram mais 14 km pelo estradão florestal. Quem ao mais alto sobe, ao mais baixo desce e, a corta-mato, passamos por Rebordo Feio, avistamos as Fragas da Amarela e cabana de Travanquinha, até Porto Chão, onde se fez a última paragem. Eram 19 horas quando nos abeiramos dos altaneiros espigueiros, a testemunhar a vida comunitária deste povo protegido por Castelo, desde o séc. XIII, com funções estritamente militares.

De uma velha do Lindoso ouvi contar que em menina e moça atravessava a serra, a pé descalço, até S. Bento da Poda Aberta.

Da barragem de Vilarinho das Fumas partimos, a Serra Amarela atravessamos, do Homem ao Lima calcorreamos e à barragem do Lindoso chegamos e, na retina, permanecem os mais belos trechos panorâmicos do Alto Minho, talvez, de Portugal.

Luís Gonçalves Vianatrilhos