Trilho Geológico do Vez

Foto do grupo Vianatrilhos

Dados do percurso

Informação sobre os aspetos mais significativos

Data 19-05-2001
Localização Monção
Distância total 17 km
Participantes 30

Esta actividade teve início na branda de Santo António de Vale de Poldras (Riba de Mouro - Monção).

Vistamos demoradamente a Branda da Aveleira, onde pudemos apreciar a recuperação de parte das casas para turismo rural, continuando depois, serra acima, para a observação do Vale Glaciar do Rio Vez.

Continuamos até às Lamas de Vez local onde nasce o Rio Vez, e bem próximo existem vestígios de dolmens e antas.

Caminhamos depois até ao Fojo do Lobo, armadilha usada pelos povos da região para capturarem as feras quando as mesmas lhes davam prejuízos nos rebanhos. É composto por dois muros que vindos de sentidos opostos, convergem para um mesmo ponto, onde termina com um poço, que disfarçado, servia de armadilha.

Seguimos depois para a Branda de Seide local ameno semeado com grande número de abrigos para pastores com alguns muros em volta que servem de curral para a fazenda miúda (ovelhas e cabras).

Visitamos o Lago Glaciar, de onde se aprecia uma vista única para a branda abaixo - Branda de Gorbelas. Continuamos depois até à Gavieira, retomando as viaturas, inicialmente colocadas em S. Bento do Cando, local de grande romaria, em que os namorados se refugiavam, quando os seus pais se opunham ao casamento, forçando assim a união desejada.

Por fim, já no regresso, paramos no Miradouro de Tibo, local de paragem obrigatória para quem aqui passe. A vista é deslumbrante, para norte vemos o Santuário da Peneda, para nascente a Varzea e albufeira do Lindoso.


Montaria ao lobo

Já vimos que o maior inimigo do gado, quando este permanece na serra, é o lobo; os prejuízos causados por este carnívoro são enormes, o que leva os lavradores a promoverem montarias com o intuito de lhe dar caça.

O que também incita os lavradores contra o lobo, é o facto de muitas vezes não atacar só para comer, mas pelo prazer de matar, «pegando» uma rés aqui, outra acolá, que logo abandona para, na sua correria, ir morder outra que fugia, como se pressentisse o perigo que estava a correr. Na maior parte das vezes o lobo apenas acaba por levar para a sua toca um cabrito que pega pelo pescoço, atirando-o para as costas. para melhor poder correr.

Das reses que vai mordendo, salvam-se aquelas em que a dentada foi mais superficial, pois o lobo na correria é «só pegar e largar».

Conta uma tradição que D. João I concedeu «à Vila» do Soajo o privilégio de «promover e organizar montarias aos lobos», pelo que, ainda hoje, todas as terras mortas são propriedade desta aldeia, privilégio apreciado pelos Soajenos.

Hoje, porém, estão proibidas batidas à caça grossa, excepto quando requeridos ao Ministro, por intermédio da comissão venatória, e como os requerimentos, desde há dois anos, depois de longo prazo de espera, têm sido indeferidos, e como não há quem os indemnize dos prejuízos causados pela fera, os habitantes da serra, vêem-se na necessidade de «ir atrás dela», mesmo sem licença.

Numa esplêndida prova de auxilio mútuo, todos os lugares situados num circulo de 10 a 12 Km de raio com centro no Fojo, se aprestam para a montaria. Esta é sempre recebida com sinais de regozijo e muitos lavradores a preferem a qualquer romaria.

Oito ou quinze dias antes da data marcada para a batida, um grupo de homens, lamentando os prejuízos causados pelo lobo, vai de terra em terra, convidando para a montaria, a realizar em «tal data», dia que todos aguardam com ansiedade.

Aquela que assisti realizou-se num domingo, 24 de Agosto e nela tomaram parte, embora «sem conhecimento», o regedor e professores; não faltou quem notasse que batidas ao domingo, e para mais em Agosto, costumam ser infrutíferas, mas mesmo assim todos foram.

A montaria consiste na batida de toda a serra por grupos de Indivíduos, divididos em «espingardas» e «batedores», que percorrem, a horas previamente combinadas, itinerários já de todos conhecidos e que foram legados «dos antigos», com o fim de atirarem com a fera para o «fojo», onde por vezes vão cair três e quatro lobos, que são imediatamente mortos a tiro, para evitar que fujam.

Os «fojos» foram construídos, alguns há séculos, em vários pontos da serra; são grandes covas suficientemente largas e fundas, a que se seguem dois longos muros divergentes, com altura suficiente para que o lobo os não salte.

Na véspera, ao cair da noite ouvem-se estalar foguetes e as ruas são percorridas por uma «caixa» de madeira que vai rufando continuamente, anunciando a montaria do dia seguinte.

A pólvora a queimar é comprada com o produto de um peditório em que cada qual dá o que pode e quer, mas de facto, todos os habitantes dos lugares interessados concorrem para a despesa.

Mesmo os lugares espanhóis da raiz, como Buscalque, Quintela, Illa e Pereira, costumam contribuir para a montaria «batendo» os seus terrenos no dia anterior, como aliás fazem os habitantes de Seramangal, Delambeije, Ribeira de Cima, de Baixo e do Meio e Figueira Ruiva.

Pela técnica usada e que passa, através dos séculos, de pais para filhos, cabem ao pessoal do Soajo dois itinerários: um «batendo toda a encosta do Ribeiro da Bordença e direito à «branda», seguindo depois pela «corga» do Aguilhão até à cova; outro «batendo» a serra, subindo até Entre Outeiros e depois Cova, onde convergem os batedores de Vilar de Soente e Vilarinho das Quartas, depois de terem batido o outro lado da encosta de Entre Outeiros Aos batedores compete bater o mato, fazendo barulho, largando bombas e dando tiros de pólvora seca com espingardas e bacamartes, alguns muitíssimo antigos, rufando a caixa, enfim fazendo o possível por descobrir e assustar a fera onde quer que seja o seu covil, quer entre urzes e giestas mais alias, quer entre as fragas que existem tanto nas abruptas encostas como no fundo dos vales, em enorme quantidade; a rudeza do terreno não permite uma «batida» eficaz; muitos são os pontos Inacessíveis ao entusiasmo que anima estes homens há muito habituados à serra.

Depois de descoberta a fera, devem encaminha-la para a "linha", o que é fácil porque os batedores simultaneamente vêm avançando para ela; a "linha" é constituída pelos homens que possuem espingarda e se colocam previamente escondidos atrás de qualquer rocha ou arbusto ao longo das corgas ou nas encostas que ladeiam as chãs donde deve sair o lobo, deixando um largo espaço entre si que, contudo, deve ser inferior a uma distância de dois tiros de espingarda.

Se o lobo for descoberto e sair correndo do seu covil (e dizem que é mais rápido que um fogoso cavalo, embora menos veloz que uma lebre). passa para o meio da linha e cada componente só depois de ele passar na sua direcção, é que se levanta, fazendo barulho, obrigando assim a fera a correr cada vez mais, e sempre na boa direcção. 0s componentes da frente devem conservar-se escondidos e calados, pois dizem que o lobo tem bom ouvido e vista, mas não olfacto; só aparecem se a fera tentar atravessar a linha; então fazem barulho e dão gritos típicos como «Ah! lobo, agarra cão» (embora este não exista), procurando metê-lo no caminho desejado, o do «fojo».

Aparecer à frente da fera ou pretender matá-la antes do tempo é pena grave, por vezes punida à cacetada ou ao tiro, pois se o lobo furar a linha, «nem que para isso tenha que passar por cima de um homem», já ninguém o agarra; e o êxito da caçada não pode ser comprometido pela fanfarronice de um atirador, pois nela estão empenhados não só o valor do gado que o lobo ataca, como também o dia de 600 homens com o seu farnel melhorado e aumentado, sempre mais caro que o caldo de leite ou de cozinha e um bocado de broa, seu alimento vulgar.

A primeira linha, constituída com a máxima força, forma-se em Cova; e só depois de todos os terrenos até lá terem sido batidos sem aparecer o lobo é que se desfaz, para ir ocupar a segunda linha, até então fracamente guarnecida. Por vezes ouve-se um tiro mais forte, anunciando que determinada corga já foi batida e que os batedores ou a "linha" podem avançar.

Por outro lado, os batedores não avançam a partir de determinados pontos sem o sinal da linha estar formada, o que geralmente se indica fazendo fumo.

Na linha, enquanto se espera pelos batedores, a expectativa aumenta; virá ou não o lobo? Os olhos não param, os ouvidos estão alerta ...

Depois da chegada dos batedores é levantada a linha e, apesar de não existir um chefe, os movimentos são coordenados e simultâneos, revelando cada homem a consciência da responsabilidade dos seus actos.

Na segunda linha, formada a norte da Cova, aguarda-se que seja batido o Guidão; a ansiedade é a mesma, e enquanto se trepa uma encosta muitíssimo abrupta e se espera pelo sinal de avançar até à última Iinha, a Norte de Outeiro Maior, começa-se a murmurar se não irá tudo por água a baixo; o lobo ainda não apareceu…

É Agosto, domingo e dia de S. Bartolomeu, anda o diabo à solta ! ... e é mesmo o diabo se não se apanha algum lobo, pois eles abundam e têm causado enormes estragos.

Em Outeiro Maior aguarda-se o sinal de formação da última linha, (dado por fumo na corga do Ramiscal) e espera-se que os batedores - ou a fera - apareçam ; as esperanças de que a caçada dê resultado já são poucas; há desânimos e sussurros, Agosto ... domingo ... dia de S. Bartolomeu ...

E de facto a lobo não apareceu ...

Tantas canseiras inúteis, tanto esforço sem recompensa.

Mas todos resignados acabam por almoçar, que a encaminhada é longa e fatigante e a hora avançada. Por volta das cinco da tarde começa a descida ; o vinho, que fartamente regou o almoço dissipa o aborrecimento do «bicho» não ter aparecido ; há quem se divirta fazendo um bocado de tiro ao alvo que se repete em Cova, mas apesar disso de vez em quando ainda se houve murmurar uma curta frase «foi peita, mas é Agosto ... »

Se o bicho tivesse aparecido muito maior era a alegria ; ele seria transportado por dois Soajeiros e ainda um pouco longe do lugar, já neste se saberia, pela algazarra «dos da montaria», que esta tinha dado resultado. E a povoação correria toda ao encontro desses valentes que já tinham contribuído para um pequeno aumento na segurança do gado.

Mas era domingo de Agosto, dia de S. Bartolomeu ...

Raquel Soeiro de Brito

Uma aldeia da montanha do Minho: Soajo

José Almeida Vianatrilhos