Expedição a Santa Maria de Pitões das Júnias

Foto do grupo Vianatrilhos

Dados do percurso

Informação sobre os aspetos mais significativos

Data 11-03-2000
Localização Stª Maria de Pitões das Júnias
Distância total 5 km
Participantes 107

Amigos caminheiros

Mais uma vez os AMIGOS DA CHÃO, levam a efeito nova expedição, desta vez a Terras do Barroso, mais propriamente a Stª Maria de Pitões das Júnias.

Este é um mundo aliciante onde avassaladoras paisagens de raro tolerismo (como a serra do Gerês) se casam com a bucólica panorâmica rural, em que a agricultura de mera autovivência se patenteia, a pecuária assume alto significado económico na bovina raça barrosã, os usos e costumes têm a força de centúrias e congregam a empírica sabedoria popular.

Quem não ouviu falar da serra das Alturas? O povo chama-lhe, vernaculamente, «os Cornos das Alturas». Anda-se por ali e por além, e sempre as serras nos acompanham, ora vestidas de arborização e de povoados, ora dantescas. A chamada Terra do Barroso constitui, afinal, uma enorme unidade geográfica e sociológica em que a hospitalidade é tão natural como o ar puro que se respira. Mas este povo, que recebe com respeito e estima, também diz que «com o homem barrosão não se brinca».

São terras transmontanas, estas. São terras antigas, parte das chamadas «Terras de Barroso», tão inclementes, tão ásperas, de clima tão extremado, que delas se diz o ano composto de «nove meses de inverno e três meses de inferno».

A partir da cidade de Braga, tomaremos a EN 103 e rumaremos a Terras do Barroso, já no limite entre as províncias do Minho e Trás-os-Montes. O ponto exacto onde se inicia esta a nossa incursão situa-se na barragem de Salamonde.

O itinerário entre a barragem de Salamonde e Tourém, compreende um percurso quase todo de montanha, atravessando pequenas povoações agro-pastoris de grandes reminiscências comunitárias e etnográficas. Tudo isto enriquecido pela visita ao extinto mosteiro de Pitões das Júnias, cujas ruínas dum românico ducentista nos fazem voltar atrás nos séculos até ao tempo dos recônditos cenóbios pré-nacionais que tanta preponderância exerceram na catecumenização das comunidades indígenas.


Itinerário:

Fafião - Pincães - Cabril - Chãos - Chelo - Xertelo - Lapela - Paradela do Rio - Outeiro - Covelães - Sezelhe - Pitões das Júnias - Tourém

A partir da barragem de Salamonde iniciamos o nosso passeio, já em pleno PNPG.

Em Fafião, pequena aldeia serrana, vivendo duma agro-pastorícia de subsistência, o elemento mais representativo da sua cultura rural é o Fojo do Lobo. A sua construção resultou duma unidade social de conjunto, de raiz comunitária. E a sua finalidade era a de, através de montarias organizadas, conseguir dar morte a esse predador que punha em risco a existência dos rebanhos e consequente economia resultante do pastor6ío de gado lanígero e caprino.

Como Fafião também Pincães conserva ainda algo da sua cultura ancestral. Referimo-nos à Pedra de Água, construída em forma de dólmen e cuja tampa funciona como um relógio-de-sol relativamente ao tempo de água de rega a que cada lugar da povoação tem direito. Uma inscrição colocada a seu lado dá informações mais pormenorizadas sobre a natureza e finalidade desta pedra.

A partir de Cabril a estrada vai começar a subir e iremos passar por Chãos, Chelo, Xertelo, Lapela, Sela e Sirvozelo, pequenas povoações dum quotidiano rural bastante comum.

Mas é a partir de Paradela do Rio, cuja Barragem faz parte de um conjunto de mais três projectadas e construídos pela extinta HICA (hidroeléctrica do Cávado), que tem início a região de Barroso, cuja paisagem se caracteriza pelo verde das suas culturas e dos seus lameiros.

É mesmo a partir de Paradela e, mais particularmente, entre Outeiro, Paredes, Covelães e Sezelhe, que o número de Prados de Lima se começa a evidenciar, e em que é bem clara a irrigação pelo sistema de água lima que o camponês barrosão pratica há imensos séculos. Também neste percurso há uma dispersão maior de pequenos lugarejos, como nos casos de Loivos, Fiães do Rio e Contim, e em que algumas casas se poderão apresentar ainda com cobertura de colmo.

No cruzamento de Contim parte uma estrada de montanha que conduz à Barragem dos Pisões. A outra, em direcção oposta, segue para Sezelhe, freguesia tradicional Barrosã situada a norte duma albufeira de reforço da Barragem de Paradela.

Já atrás nos referimos ao sábio doseamento do minifúndio da propriedade agrícola e correcta separação do solo entre o arvoredo e a pastagem, como técnica de gestão agrária aplicada aqui pelos cultivadores locais. Quer dizer, para pasto o que é necessário ao gado; para campo o que der para sementeira, e para arborização o indispensável ao fornecimento de madeira e lenha relativas à segurança e aquecimento da casa, bem como à construção de currais, execução de alfaias agrícolas (carros de bois, arados, grades).

Entre Sezelhe e Pitões das Júnias, distam 13 quilómetros, e de Tourém 19.

A gente de Pitões das Júnias representa uma comunidade agro-pastoril muito semelhante à da extinta Vilarinho da Furna, e cuja identidade com a das primitivas hordas nómadas que deram início ao povoamento local é bem evidente. Fala-se, mesmo, das ruínas de Juríz, como sendo os restos duma aldeia de raiz pré-histórica. O padre Fontes diz que antes desta presumível aldeia ter sido envolvida pelos troncos das árvores, contou aqui cerca de quarenta construções feitas de grossos calhaus.

Bem mais recente será a fundação do Convento de Santa Maria de Júnías, hoje também reduzido a escombros. Talvez seja do século IX. Simplesmente, os restos de construção ali visíveis, são românicos, do século XIII. A parte mais apreciável é a igreja.

O comunitarismo de Pitões das Júnias continua bem patente ainda através do forno do povo, do boi do povo e da vezeira da rês.

A introdução do milho maez (grosso) em Trás-os-Montes, ao contrário do que aconteceu no Minho, não encontrou grande receptividade por parte do lavrador barrosão. Nem mesmo o milho miúdo (milho alvo) ou o painço, espécies cerealíferas anteriores ao milho. A sua cultura tradicional foi sempre o centeio e, a partir do século XVIII, também a batata, altura em que este tubérculo passou a fazer parte, sem desconfiança, dos seus hábitos alimentares.

Em Pitões das Júnias as casas obedecem a um tipo comum de construção e de interdependência entre a parte habitacional e a corte, o cortelho e o espaço destinado à arrumação dos utensílios agrícolas. Algumas dessas casas ainda possuem cobertura de colmo, embora na sua maioria sejam já de telha.

De Pitões a Tourém vão continuar a abundar os lameiros (prados de erva espontânea), cuja cultura forrageira cresce entre Abril e Junho, altura em que é segada e transformada em feno destinado à alimentação do gado na corte durante o período invernoso. Lá longe, a poente e noroeste, ficam as fragas e picos agressivos do Gerês. A contrastar com eles os dorsos boleados da Mourela, com as suas encostas verdejantes e vacas pastando sossegadamente. Que maravilha de pastos, que encanto de erva tão verde.

O último ponto deste itinerário é Tourém. Aqui prevalecem, como em Pitões das Júnias, algumas reminiscências do comunitarismo praticado pelas comunidades agro-pastoris serranas, tanto do noroeste como do nordeste português.

Fica nos confins de Barroso, limite da Serra do Larouco, paredes-meias com a Espanha. É o caso do forno do povo e do boi do povo, este uma espécie de ídolo sagrado dum antigo culto pagão aqui praticado, com a sua chá própria, o seu curral próprio e o seu guardador próprio. É ele o único encarregado da cobrição das vacas do lugar no seu período de fecundação.

Em Tourém, como noutras povoações, tanto do Alto, como do Baixo Barroso, o espectáculo que mais mobiliza as pessoas, é o da Chega de Bois. São intervenientes neste espectáculo, dois reprodutores, um de cada povoação. Escolhe-se o terreno da chega e um entra a turrar contra o outro, numa medição de forças que só termina quando um deles desistir, dando-se por derrotado.

Antigamente o desfecho da chega quase sempre redundava em actos de pancadaria. Hoje a coisa vai sendo diferente. Há emigrantes que têm o seu toiro privativo, e as próprias chegas começam a ser, regra-geral, organizadas com fins especulativos. São as apostas que estão por detrás delas, com os seus agenciadores e empresários, tudo organizado na direcção do emigrante. E os emigrantes acorrem às centenas e até aos milhares. Temos mesmo, os que vêm de avião, só para verem o seu boi ganhar... ou perder.

Miguel Moreira Vianatrilhos