Nos Trilhos da Cachena

Foto do grupo Vianatrilhos

Dados do percurso

Informação sobre os aspetos mais significativos

Data 20-03-1999
Localização Serra da Peneda
Distância total 13 km
Participantes 70

Desta vez o nosso destino vai levar-nos até terras da "Vaca Cachena", aos lugares de Avelar e Lordelo, na encosta poente da grande mole da Serra da Peneda.

A partir dos Arcos de Valdevez toma-se a estrada que segue em direcção a Sistelo até se atingir a povoação de Cabreiro. Aquí após chegar a um cruzamento viramos à direita em direcção a Avelar e Lombadinha. A estrada sobe bastante até se chegar ao alto , e ao chegar junto de uma cerca de madeira, para vacinação do gado, daremos o inicio do nosso percurso.

Após arrumadas as viaturas num largo do lado direito e nos termos preparado, seguiremos através do estradão, tendo pela nossa frente bem lá no alto os contrafortes da Serra da Peneda, e pelo nosso lado esquerdo o vale do Rio Ramiscal (Cabreiro).

Após caminharmos durante algum tempo, cerca de 2 km, atingiremos um cruzamento com o desvio para Avelar por onde seguimos. Chegados à aldeia poderemos ler algumas casas típicas, assim como um grande conjunto de cortiços na encosta a nascente da pequena capela.

Tendo atravessado a aldeia teremos que apanhar um pequeno carreiro, já na encosta que desce para o rio, e que após descida cautelosa, nos fará chegar junto a uma ponte de madeira, por onde atravessaremos o rio para a margem contrária, tomando uma calçada que nos conduzirá a Lordelo, bem lá no alto.

Esta calçada deverá ser feita lentamente, parar de vez em quando, para poder disfrutar da vista.

Chegados a Lordelo (terra da vaca cachena) passaremos por umas alminhas, e logo depois estaremos no meio da aldeia, que vamos visitar e procurar pelo queijo das vacas cachenas.

É na "branda do Rodrigo" que vamos fazer o nosso pic-nic.

O regresso vai ser feito pelo mesmo caminho, cruzando o rio até Avelar. Aquí tomaremos um estreito trilho, que descendo nos conduzirá novamente até ao rio Cabreiro, que atravessaremos, passando no local em que há uma ponte que ficou por concluir, que ligaria Avelar a Vilar.

Aquí o caminho alarga e vai subindo novamente, até chegar ao local onde se encontram as viaturas.


José Augusto Vieira - Minho Pitoresco

A serra e suas lendas Outrora foi Sistelo vigararia anexa de S. Salvador de Cabreiro, a próxima freguesia que vês acantonada nas crespas elevações da montanha, batida por um ar puríssimo, e fertilizada por o rio do seu nome – Cabreiro – gozando perfeitamente a fama de terra salubre, como atestam os seus vigorosos habitantes, que não raro ultrapassam os limites de uma senilidade octogenária.

Vai longe a noite da barbárie e entretanto a tradição ainda chega até nós como fio ténue de um ribeiro, que se tresmalhou pelas quebradas da serra.

Ouço distintamente a sua voz e um queixume brando de resignação e agonia, parece evolar-se dali, daquele poço de Portocales, que muje ao fundo da enorme laje escorregadiça, sítio onde as águas caídas do Outeiro Maior são atravessadas por uma tão singela como antiga ponte.

Ouço distintamente esse gemido a dor aflitiva de uma vida que se esvai, embora resignada, embora voluntária.

Aproximo-me da margem e recuo de horror. O corpo de um pobre velho mergulha ensanguentado nas águas sinistras do abismo. Seria um suicídio ? Não.

Tranquilamente, no alto, um homem impassível como a estátua da indiferença, espera a última vibração dessa agonia curta. É então o assassino?

É o parricida, é o filho.

O filho, imaculado como a túnica da lei, tranquilo e sem remorsos, consciente de haver cumprido um dever sagrado, imposto pelo código da tribo, pelo costume bárbaro, pela necessidade feroz que ordena o sacrifício de todo o velho inútil.

Madrugada ainda, dois homens caminham pelas veredas sombrias da montanha. Um é vigoroso e forte, o sangue cantábrico nas veias; adivinham-se por baixo dos seus vestidos de peles os músculos valentes como aço, o peito largo, o braço possante de guerreiro.

Caminha entretanto devagar. Uma oscilação do seu espírito? Quem o sabe!

Talvez que para não fatigar o companheiro, o pobre velho alquebrado de forças octogenário e trémulo, cego quase na noite da sua existência. Adivinhava-se que era pai e filho.

O novo, mais fatigado talvez da condescendência que da marcha que trazia, tomou então às costas o ancião. Desta vez caminhava seguro, apressadamente, o passo firme e cheio. Foi assim durante algum tempo.

  • É longe ainda a jornada, meu filho?

  • Para perto, respondeu bruscamente.

Um sorriso de melancolia indizível passou então nos lábios trémulos do velho e a sua voz, como um gemido antecipado, murmurou clara:

  • Bem sei, meu filho, levas-me onde eu levei teu avô e onde teu filho te há-de trazer um dia.

Estas palavras foram como uma revelação da brutalidade da lei, como o alvor de uma aurora, que havia de chegar um dia. O filho não comentou o parricídio – diz a lenda – e o costume bárbaro cessou desde esse momento. Esse momento, sabes tu, chama-se civilização.

Abençoado sol.

Miguel Moreira Vianatrilhos