2024-01-20 Caminhada de Ano Novo- Trilho das Brandas e Socalcos de Sistelo

Caminhada de Ano Novo-Pelas Brandas e Socalcos de Sistelo

O primeiro trilho de 2024, que foi denominado Caminhada de Ano Novo, foi o “Trilho das Brandas e Socalcos de Sistelo” começou e terminou em Sistelo cuja origem remonta à época medieval. Fala-se de que já existiria em 1258 e que seria um pequeno povoado oferecido pelo fundador de Cabreiro à Ordem do Hospital e, como tal, essas terras encontravam-se isentas de fossadeira (tributo pago para se eximirem de ir ao fossado, ou seja, de acompanhar o rei na guerra, ficando livres do serviço militar), por pertencerem àquela ordem. No entanto, os seus habitantes estavam sujeitos à anúduva (um imposto direto que consistia na obrigação de trabalhar na construção e reparação de castelos, de cavas, torres, muros e outras obras afins necessárias à defesa da terra, assim como nos paços ali edificados e para a estada do rei ou dos alcaides), e à cobertura da fronteira com Espanha, guardando o “porto de couso”. Esta aldeia mantém algumas características dessa época, destacando-se os espigueiros, o cruzeiro, o fontanário, a igreja e os seus socalcos moldados no terreno montanhoso para cultivo e condução das águas para o regadio. Ainda é de salientar o castelo construído no séc. XIX por Manuel António Gonçalves Roque, próspero emigrante no Rio de Janeiro e Visconde de Sistelo (título concedido por D. Luís I, Rei de Portugal,1880), agora centro interpretativo da biodiversidade do rio Vez e de promoção dos produtos locais. Atualmente, Sistelo venceu, na categoria Aldeia Rural (que abrange os lugares de Igreja, Padrão, Estrica, Quebrada e Porta Cova), o prémio “7 maravilhas de Portugal” e também pela sua Paisagem Cultural (primeira vez que foi atribuído um reconhecimento deste género em Portugal) tornando-se Monumento Nacional desde Dezembro de 2017. Após esta breve introdução acerca deste idílico lugar, vamos dar início à descrição do nosso trilho. Estacionámos junto à EN 202-2 e iniciámos o percurso por um caminho empedrado entre casas rústicas e espigueiros, percebendo-se, logo nos primeiros passos, que iria ser um percurso bem íngreme, com a calçada ziguezagueando para minorar o esforço. Mas este foi compensado pela belíssima paisagem verdejante com os seus socalcos em evidência com que fomos presenteados. Para além disso ainda fomos acompanhados pelo som de músicas de estilos variados (folclore, fado, música ligeira e até religiosa), que saia de altifalantes da igreja e animavam a população, ecoando pela montanha. Saindo da aldeia, continuámos por um carreteiro até chegámos à estrada CM1289 que liga Sistelo a Padrão. Esta foi cruzada por duas vezes por ser uma estrada que acompanha as curvas de nível, até que chegámos a um poço onde rumámos à esquerda, continuando a infindável e íngreme subida. À medida que subíamos íamos apreciando a paisagem circundante e o arvoredo que começou a ser mais denso e vários ciprestes ladeavam o caminho. Chegámos à Chã da Armada onde pudemos observar a beleza da paisagem circundante, onde várias éguas prenhes se deliciavam com um pasto rico e fresco. Também nós nos alimentámos com um lanche, pois já havíamos tido a primeira refeição do dia há algum tempo. Passado um bocado, já com o estômago reconfortado, retomámos o trilho com destino à Branda de Rio Covo, desta feita por uma calçada irregular junto a um precipício que ladeia uma encosta do monte na margem direita do Rio do Outeiro, cuja bela cascata (com 17 metros de desnível) pudemos apreciar no vale profundo escarpado onde corre este pequeno córrego, afluente do Rio Vez. Daí a pouco desembocámos numa zona mais plana e percebemos que, finalmente, o mais difícil havia terminado. Então seguimos mais uns metros e chegámos aos muros da Branda de Rio Covo, onde almoçámos junto a uma das cardenhas que estava restaurada e com porta fechada à chave (coisa dos tempos modernos), contrastando com outras construções em ruína. Esta branda, com construções redondas, pertence a Sistelo, servia apenas para pastorear o gado, não tendo leiras de cultivo, sendo composta por cardenhas de um e dois pisos (as de um piso eram para o gado e as de dois pisos serviam para acomodar os pastores no andar superior, onde acendiam lume para se aquecerem). Acabado o repasto, afastámo-nos desta branda e seguimos caminho por entre um belo bosque de coníferas, bétulas e outras espécies menos predominantes. Encontrámos o terreno muito alagado e o ar frio e húmido, devido à nascente da Corga da Saramangeira que ali se encontra. Mais à frente, já fora do bosque, seguimos por um carreiro num planalto constituído por matos rasteiros, sendo uma zona de pastagem à volta da branda do Alhal que é uma branda de gado e de cultivo, e atravessámos a ponte da Corga de Lourenço, por onde caminhava uma vaquita que fugia de nós. Esta branda, com a maioria dos abrigos de forma quadrangular, pertence ao lugar de Padrão e, atualmente, tem acesso automóvel. Atravessámos a branda, andámos um bocado pela estrada asfaltada e, mais à frente, virámos para uma calçada com lajes bastante gastas pela sua muita utilização, provavelmente, por antigos carros puxados por gado. Descemos, sempre ziguezagueando para acompanhar os fortes desníveis, até chegarmos ao lugar de Padrão. Este pequeno lugar está rodeado por socalcos onde se cultiva o milho e se produz feno e pasto para o gado bovino, especialmente das raças cachena e barrosã, à verdadeira maneira das aldeias de montanha minhotas. Após uma descida acentuada, chegámos à EN 202-2 que atravessámos continuando por um caminho, também ele bem inclinado, paralelo ao rio Vez. Daí a uns minutos chegámos à velha ponte medieval de Sistelo, rumando à direita, continuando por calçadas, atravessando campos, lameiros e caminhos que mais pareciam pequenos córregos devido às fortes chuvadas dos dias anteriores. Por esse motivo, os responsáveis pelo grupo procuraram alternativas para contornarmos esses obstáculos, tendo sido bem-sucedidos. Mais adiante atravessámos a ponte nova de Sistelo, que está construída sobre uma antiga e começámos a aproximação a Sistelo, novamente ao som das músicas que ainda ecoavam pelas cercanias. Do nada surgiu uma escadaria abrupta que nos levaria até à igreja de Sistelo num último e penoso esforço, antes de chegarmos aos veículos que nos aguardavam há umas horas. Sem mais delongas, rumámos para o Bar do Rio onde recuperámos todas as calorias perdidas e mais algumas, certamente…

 

Rita Bettencourt
Vianatrilhos

Dados do percurso

Informação sobre os aspetos mais significativos:

Data2024-01-20
Hora de início09:30
Hora do fim15:26
Tempo total do percurso5h 56m
Velocidade média deslocação4,5 km/h
Distância total10,69 km
Nº de participantes25