2022-07-09 Pelas Veigas de Perre e Ponte do Arco

Pic-Nic de encerramento de época

A jornada de fim de época foi tardia, já que o habitual é fazer a marcha de encerramento nos últimos dias de Junho. Desta vez os múltiplos afazeres da “organização” atiraram com a marcha para um tórrido dia de verão, com alertas laranjas e vermelhos para temperaturas bem acima do aconselhado para a prática do pedestrianismo.

Depois da concentração na casa do Carlos Rocha, o simpático “Cocas”, iniciamos o percurso tomando um estreito caminho na extrema de campos de milho, na direção do monte de St° Luzia, e logo depois de passar por baixo da A28, iniciamos a subida para a cascata e poço do ribeiro do Moinho de Vidro.

É um sombrio anfiteatro, encravado no penedio granítico, por onde o ribeiro se precipita, mergulhando num negro poço, de que não se vê o fundo.

E foi esse poço que serviu para o primeiro banho da manhã, já que alguns dos mais temerários fizeram questão de ensaiar um mergulho nas negras águas.

As lajes graníticas e lodosas, com as folhas caídas, tornaram o acesso à cascata difícil, pelo que lá nós fomos equilibrando nas lajes, mas a Manuela escorregou… tendo mesmo esfolado um braço na queda. Valeu-lhe a pronta e eficiente assistência da Amélia com os primeiros socorros.

Resolvido o incidente e com os banhistas reequipados subimos para o Castelo do Malavado, curiosa construção na encosta de Santa Luzia, meio escondida pela densa vegetação circundante.

Esta estanha construção de ciclópicos blocos graníticos, apresenta uma forma estranha, pouco adequada a uma habitação, mais parecendo um posto de vigia, como um mirante sobre a freguesia de Perre e suas férteis veigas.

Não se sabe ao certo a data da construção, já que houve várias gerações de Malavados por estas terras, mas o mais provável é ter sido edificada no Séc. XIX, servindo de refúgio espiritual a um religioso da família Malavado, que de pois de ordenado como padre foi destacado para uma paróquia longínqua, recusando o cargo.

Nesses tempos era costume nas casa de lavradores abastados, a propriedade da terra ser herança do filho primogénito, bem como vocacionar um dos filhos do casal para os estudos e religião, de modo a ter alguém na família que intercedesse junto a Deus e também ajudasse nos assuntos mais complexos da justiça e impostos.

Foi o caso desse padre Malavado, que depois de ser dedicado à igreja e ter recusado a ordem do Bispo, acabou refugiado na sua casa de família e vocacionou ou seus esforços à construção deste “castelo” onde se refugiava para meditação, bem longe das almas pecadoras.

O tempo causou mossa à edificação, hoje uma ruína perdida na encosta, e que a posterior construção da A28 comprometeu ainda mais o acesso.

Foi pois difícil descer do “castelo”, já que a rampa íngreme que desce junto aos pilares do viaduto é muito perigosa, proporcionando algumas escorregadelas, desta vez sem danos.

 Cruzamos de seguida o lugar da Portela, passando junto da capela de S. João e continuamos pelas veigas até à margem da Ribeira de Portuzelo, parando na presa junto da Ponte do Arco.
É um recanto fresco, em que a retenção das águas do ribeiro para uma levada do moinho junto à ponte, proporciona um magnífico local para o banho, prontamente aproveitado pelos que vieram equipados para o mergulho.

Tempo para uma pausa de abastecimento, junto à ponte, onde o Miguel lembrou as diabruras das feiticeiras que por ali andaram, amedrontando os incautos caminhantes da estrada medieval que ligava Viana às terras Limianas. Reza a lenda, que a Ponte do Arco era local de encontro das muitas feiticeiras destas paragens, local escolhido para as danças e ladainhas noturnas, que chamavam os espíritos e afugentavam os terrenos.

A ponte do Arco, erigida na idade média (Séc. XII) fica na extrema sul da freguesia de Perre, fazendo fronteira com a de Santa Marta e numa das suas guardas está um nicho com os dizeres “Lembrai-vos das benditas almas”

Seguimos pelo lugar do Freixo para a Cruz dos Picoutos e a velhinha capela da Senhora do Olival e daí para a Igreja Paroquial de Perre.
Fizemos um desvio ao Núcleo Museológico do Castro do Viveiro, que foi instalado no edifício da antiga escola primária Dr. Alfredo de Magalhães.

Foi um bom aproveitamento deste belo edifício, que domina a paisagem de Perre para o Vale do Lima. Pena não ter sido possível ver a projeção do audiovisual sobre o Castro do Viveiro, importante povoado que teria sido habitado entre o Séc. I Ac e Séc. I Dc, contemporâneo com o início da ocupação romana da região.

Este Castro foi sepultado com a construção da A28, ficando dele as fotos da escavação e os parcos fragmentos expostos no núcleo.
Desapareceu assim um legado inestimável, que podia e devia ter sido salvaguardado para as gerações vindouras, soterrado por uma obra que bem podia ter distinta diretriz.

O calor apertava cada vez mais, pelo que uma parte dos caminheiros regressou ao local de início, fugindo à inclemência deste tórrido sábado.
Desfeita a companhia, os mais resistentes seguiram para o monte do calvário e, depois de mais uma foto de grupo, cruzamos o lugar de Freixo pela parte mais arborizada descendo depois o caminho do relojoeiro para o centro da freguesia.
 Fizemos uma curta pausa na recente rotunda da N302-1, perto da casa do nosso amigo Cândido Morais, onde esperamos um grupo de atrasadas, que ficou para trás a abastecer de agua. Logo depois do arranque, mais um percalço, desta vez com a Laura, que caiu a uma valeta, torcendo um pé. Ao princípio parecia pouco o dano, mas com a continuação a coisa foi piorando consideravelmente.

Entramos entretanto no lugar de Monção, passamos na pequena capela de Nossa Senhora de Fátima e descemos às margens da Ribeira de Outeiro para observar o curioso conjunto do Moinho da Parola e os Tanques de “Alagar o Linho”.

O linho, recurso outrora muito usado nestas paragens, era aqui processado. Depois de os “maçadeiros” de linho serem sacudidos para largar a semente, eram aqui mergulhados em camadas finas perpendiculares à corrente cerca de 8 dias para “cozer”, de modo a amolecer a parte mais lenhosa do caule, sendo de seguida o linho seco e depois maçado. Nestas alturas de alagar ou enlagar o linho, estava interdito o uso da água do ribeiro a jusante dos tanques.

Cruzamos as poldras do ribeiro e descemos para o Parque Ecológico de Perre, nome pomposo para um espaço singelo junto ao ribeiro, na proximidade do moinho e levada de João de Mestre, onde os banhistas tiveram oportunidade de dar mais um mergulho.

Entretanto a Laura estava cada vez mais combalida, com o tornozelo a inchar muito, pelo que houve que chamar ajuda externa, tendo a Amélia valido à urgência mais uma vez.

Resolvida a urgência, cruzamos o lugar da Portela, cruzando as poldras junto do moinho do Morais, tomamos o caminho de S. Francisco Xavier, com tempo para espreitar a capela do mesmo nome, que já tivemos oportunidade de visitar num anterior percurso, organizado com o saudoso companheiro Moreira, que há anos nos deixou.

Depois, foi um saltinho até ao local de início, a casa do companheiro Carlos Rocha, local do tão esperado pic-nic de fim de época.

Depois dos “técnicos” terem instalados os toldos e de as “ajudantas” terem posto as iguarias nas mesas, o João Coto iniciou a exigente e dura tarefa de assar as febras e chouriços para tanta gente. Entretanto o chefe da casa tratava incansavelmente das bebidas, de saca-rolhas na mão, mal tinha tempo de ir provando os múltiplos aperitivos.

Ele foram as entradas! Ele foi o presigo! Ele foram as sobremesas! Ele foram os vinhos e os digestivos!

Foi o máximo! Não vale a pena dizer mais, tudo da melhor qualidade e com muita animação.
No final, a singela oferta ao simpático casal anfitrião de um planta ornamental (já meia murcha com o calor) e de uma foto de homenagem, para marcar a data.

Os nossos maiores agradecimentos à Lúcia e ao “Cocas” que foram perfeitos na receção de tantos convivas.

Bem merecedores de uma salva de palmas!

Até Setembro!

José Almeida
Vianatrilhos

Ponte do Arco

A Ponte do Arco é referida por José Rosa Araújo e Félix Pereira como tendo sido construída na Idade Média, estrutura com três arcos de tamanho desigual, é única no seu género por ter uma inscrição numa aduela do arco médio, já foi alvo de várias reconstruções e chegou a fazer parte da estrada medieval que ligava Viana do Castelo a Ponte de Lima.

José Rosa Araújo apresenta com fundamentada argumentação a possibilidade da sua construção se encontrar no número das que, muito vagamente, refere a doação do Couto de Paredes, de 1174.

A meio da Ponte do Arco existiu um nicho de alminhas assente numa das suas guardas, hoje desaparecidas, diz-se que foram roubadas.

Esta ponte é um ícone importante da freguesia, é um dos emblemas do brasão de Perre.

Feiticeiras e Feitiçarias

As feiticeiras de Santa Marta de Portuzelo e de Perre, reúnem no rio junto da ponte do Arco, na última daquelas freguesias.

Quem lá passar a desoras, ouve-as gargalhar e vê-as dançar a dança de roda. Deve passar depressa e não olhar.

Uma vez, passou por ali um velhote corcunda. Como era uma pessoa amiga da borga, parou, riu-se e avançou para elas, muito risonho. Mas ainda: tomou parte na dança, dando as mãos a duas velhotas que lá dançavam.

Quinta e sexta, quinta e sexta, diziam elas, no meio de grande galhofa.

E ele ria-se também e repetia:

- Quinta e sexta, quinta e sexta...

No fim, perguntaram elas umas às outras:

- Que se há-de fazer a este homem que tanto nos ajudou?

- Tira-se-lhe a corcunda!

E assim fizeram e o velhote viu-se, num abrir e fechar de olhos, livre da gibosidade.

Voltou a casa todo contente.

Ao outro dia, constando-se o milagre, foi procurado por um tio também corcunda.

- Como foi que te livraste da disformidade?

E tanto insistiu que o outro lhe revelou o segredo.

Na noite seguinte, lá foi ele e vendo as feiticeiras a dançar, imitou o outro.

E quando elas se puseram a cantar:

- Quinta e sexta, quinta e sexta, ele atrapalhou-se e disse:

- Quinta e sexta e sábado!

Quinta e sexta, quinta e sexta, gritaram

E ele, entusiasmado, repetia e voltava a repetir na mesma toleima:

- Quinta, sexta e sábado!

As bruxas, furiosas, pararam o canto e a dança e perguntaram umas às outras muito zangadas:

- Que havemos de fazer a este tipo que tanto nos contrariou?

- Põe-se-lhe a corcunda que o outro deixou!

E, daí para a frente, o homem ficou com duas corcundas.

in: Serão de José Rosa Araújo

Dados do percurso

Informação sobre os aspetos mais significativos:

Data2022-07-09
Hora de início08:56
Hora do fim13:39
Tempo total do percurso4h 43m
Velocidade média deslocação2,7 km/h
Distância total linear12,0 km
Distância total12,0 km
Nº de participantes30