2012-11-17 Marcha ao Cozido do Pote - S. Martinho

É mesmo verdade, foram 55 os companheiros que nos quiseram acompanhar em mais este desafio, para degustar finalmente o tantas vezes falado “Cozido no Pote”.

Cerca das 09H00, foi a hora de encontro para quem ia realizar o percurso, no entanto bem mais cedo já os “Cozinheiros” andavam tratando de adquirir tudo o necessário para a confecção do dito.

Assim os participantes na marcha rumaram a Santa Marta, terra de tradição na arte de trajar à Vianesa. Do centro da freguesia rumamos então até à beira-rio, local da praia fluvial mais conhecida por “Embarcadouro do Pinheiro”, onde na maré-cheia o rio cobre parte de pequenas ilhas existentes ao longo do mesmo. A jusante, o rio alarga-se e os seus braços entram pela terra dentro e enchem de verde as suas margens.

Ao longo da margem encontramos pequenos “portos de abrigo” onde se recolhem pequenas embarcações de gente que tem na pesca de rio um pequeno suplemento para superar as dificuldades da vida, que no entanto nos dão um ar melancólico mas de grande beleza.

Continuamos subindo ao longo da Ribeira Lima, cenário de fascínio, no todo e nas suas componentes! Apraz-nos contemplá-la, planície, montes, linhas de água, seres vivos e tudo o mais perceptível, inclusive a intervenção humana.

A Ribeira Lima é diferente, e continua a encantar. A história e a lenda encontram-se interligadas no que concerne ao rio Lima, que nem sempre é possível saber onde acaba e começa a outra. A beleza desse enigmático rio sempre provocou o poder sugestivo da Lenda; fenómeno que recua a velhos tempos. O Lima era comparado ao mitológico Lethes, cujas águas apagavam da memória, de quem o atravessasse, a vontade de regressar. Atribuiam-lhe a capacidade de provocar em todos aqueles que o transpusessem, o esquecimento do passado e da própria pátria. As suas margens e terrenos envolventes passaram a apelidar-se “Campos Elísios”, área ribeirinha que, segundo Olíbio, era um jardim onde só durante três meses do ano as rosas não floriam.

Cruzando agora Serreleis, logo passamos pelo lugar do “barco do Porto”, local de passagem imemorial de uma para a outra margem. Primeiramente o barco destinava-se ao transporte de pessoas, mais tarde uma barcaça possibilitou a travessia de veículos, carros de tracção animal, mesmo carregados e até automóveis.

Continuamos, estamos já em Cardielos, povoação com características rurais. Nas várzeas cultiva-se o milho. A vinha ocupa a periferia dos campos, armada em latadas ou emaranhada nas uveiras (vinha de enforcado). Cardielos cuja origem na existência antiga, em profusão ,do “cardo”, e é das próprias inquirições de D. Afonso III que nos vem a noticia de ser Cardielos “terra honrada”, da qual foi titular do senhorio de Cardielos, em 1336, Rui Vasques de Azevedo, filho de Vasco Pais Azevedo, senhor da casa e couto de Azevedo e rico-homem de Dom Afonso IV a quem acompanhara na batalha do salado.

A marcha ia continuando agora (11H00) sobre uma chuva forte que ia já incomodando, principalmente aos menos cautelosos. A certa altura deixamos a beira-rio e caminhamos para o interior da freguesia, já com o Monte de S. Silvestre na nossa frente, bem lá no alto com a sua pequena capela. Passamos junto à Quinta de D. Sapo (passe a publicidade) e cruzando a estrada Nacional passamos junto à capela do Senhor dos Passos e logo acima pela igreja Paroquial de S. João mas cujo patrono é S. Tiago, que assim assinala a antiga via de peregrinação ao apóstolo.

Aqui iniciamos a subida da tão bonita como penosa calçada de acesso ao topo do monte, mas cuja dificuldade foi por todos ultrapassada ainda mesmo com a chuva a cair.

Durante a subida parando de quando em quando, olhando para trás sobre o vale da Ribeira Lima, a vista ia-se perdendo com tanta grandeza. Assim um a um todos atingiram o alto e se fez o reagrupamento, enquanto uns preferiram abrigar-se e vestir roupas secas, uns poucos resolveram subir mais um pouco sobre as muralhas do antigo castro da idade do Ferro que mesmo sem estar escavado, se reputa de importante, com ruínas de habitações, restos de muralhas, acrópole, facho, cerâmicas, etc., a par de penedio erosionado no decorrer dos séculos. Valiosa área patrimonial aberta a quantos a demandam em busca de religiosidade, convívio, ócio e mesmo por atractivos culturais, atingindo-se assim o geodésico que assinala o ponto mais elevado do monte.

Descemos e logo atingimos a Capela de S. Silvestre, que cristianiza o povoado castrejo aqui existente. Diz a lenda que S. Silvestre, empenhado em cristianizar as almas rudes dos habitantes da margem direita do Lima, se colocou na outra margem, no alto do castro de Roques onde existe um penedo com uma marca a que chamam a “pegada do Santo”, de onde lhes atirou com o cajado, com a promessa de construir uma capela onde este caísse. Tanta força comunicou ao “Báculo” que este foi cair no alto do monte. Se a conversão dos pagãos foi ou não instantânea ninguém o garante mas, apoiando-nos novamente na moleta da lenda, o missionário já assistiu às obras da construção do templo sentado no penedo gasto pela erosão, a que, ainda hoje, se teima em apelidar de “cadeira do Santo”.

No largo onde se situa a capela de S.Silvestre, no bordo do seu miradoiro logo se pode perceber porque se diz ser este local um dos mais belos miradouros da Ribeira Lima. No centro do largo, arejado e luminosa, condizente com o credo lavado das gentes dos lugares próximos tão ligados à igreja como à natureza a ermida alberga a imagem principal e mais antiga de S. Silvestre, na forma de um baixo relevo com várias centenas de anos. Pode-se observar muitos “votos” em cera, resultantes de promessas cumpridas e referentes a braços, pernas e até cabeças curadas, não faltando diversas muletas como prova da força milagrosa de S. Silvestre ou da fé de quem a ele recorre.

Outras reproduzem porcos, ovelhas e gado bovino como prova de gratidão pela salvação de animais e constituíram parte substancial dos teres e haveres dos humildes lavradores da “Ribeira Lima”.

Chegados finalmente, junto à lareira, com o Pote sobre forte braseiro, e já sob o tecto da “Casa da Música”, salão assim designado por aqui acolher sobre medas de palha as bandas de música que aqui actuavam nas festividades dedicadas ao santo (patrono dos animais do campo) e que todos os anos se realiza nos dias 30 e 31 de Dezembro, nos preparamos para az parte final.

Por minha parte fico por aqui, deixando para o Luís Gonçalves o resto da descrição !!!

Miguel Moreira

Vianatrilhos

O COZIDO NO POTE

Obrigado, Miguel, pela deixa.

A respeito do “cozido vernáculo”, como refere Eça de Queirós e os nossos “compagnons de route” a ele se reportam na sua expressão, tipicamente latina, “pot-au-feu”, meus caros amigos e companheiros, o local era de eleição e o espaço apropriado. Aqui, no Monte S. Silvestre, realizou-se o convívio do 2º Congresso dos Gastrónomos do Alto Minho, em 1984.Fui obrigado a subir ao topo do monte e com ligeiro atraso cheguei, ainda a tempo de ver os três magníficos cozinheiros, Luís, Rego e Pimenta, a transpirarem de vontade e energia, enquanto controlavam a fervura do pote e continham a avidez dos caminheiros. O cozido no pote ficou célebre nas expedições dos amigos da chão ao Alentejo, agora retomada pelo Vianatrilhos, boa malha!

Entrei na sala, as mesas postas com bancos de correr, o vinho e o pão espalhado pelas mesas com a respectiva palamenta, notava-se alguma azáfama, as cozinheiras queriam colaborar e ajudar, andava tudo frenético, enquanto outros aguardavam serenamente o dito cujo no pote. O pão quase desapareceu e a prova de vinhos e outras bebidas sucediam-se, a caminhada ao longo do Lethes deixou marcas bem evidentes no estômago.

Veio, finalmente, o famoso cozido no pote acompanhado de umas batatas bem cozidas e muito jeitosas e uma hortaliça rendilhada a tapar a sua corpulência; nos entrefolhos da hortaliça a carne surgia viçosa, quente e apetitosa, ele era a entremeada e o chouriço, ele era a orelheira, a farinheira, carne de vaca e frango. As travessas iam ficando nuas e sem nada para comer, tendo-se notado a presença de uma maioria vegetariana e vai daí as hortaliças desapareceram num ápice (atenção para a próxima). Doces, tartes e bolos, foram a rodos. Cá por mim provei um doce de castanhas, cuja receita no final vos deixo, porque vale a pena experimentar.

Entre a cozinha e a sala, a tocata improvisada do Vianatrilhos bota música popular e folclórica, com toda a maestria, desde o cavaquinho, acordeão, viola e concertina, e logo saltitam bailadores e bailarinas, numa nesga de soalho, mais parecendo um baile de paróquia, exibindo seus dotes dançarinos. A Augusta e a Glória acabaram por se destacar pela graça e destreza e até o Fernando Vilaça me convidou para um pé de dança, mas estava dia não, ah! ah!
No cômputo geral, imperou a boa disposição e camaradagem e depois do bagaço com mel…(o nosso conhecido Brandy mel dos convívios no fim das caminhadas, em S. Lourenço da Montaria).

A debandada foi acontecendo, mas não me despeço eu, agora, sem vos deixar aqui a tal receita que o Armando Branco me cedeu. Em honra de S. Martinho, eis o doce de castanha, muito apropriado para a quadra festiva de Natal.

Castanhas cozidas em vinho verde

Ingredientes:

 

500 gr. de castanhas

400 gr. de geleia de marmelo

1 colher de chá de erva doce

1 pau de canela

6 grãos de pimenta rosa

1 garrafa de vinho verde de boa qualidade

Preparação

Escalde as castanhas durante cerca de 4/5 minutos em água a ferver e, ainda quentes, descasque-as.

Coloque-as num tacho e cubra-as com vinho verde. Adicione a geleia, a erva-doce, o pau de canela e a pimenta. Deixe ferver até cozerem. Retire as castanhas com cuidado e deixe reduzir o vinho. Reduzido o vinho deite-o sobre as castanhas. Servir como sobremesa.

 

PS – Por que não um cabrito no pote, lá para a Páscoa de 2013? Eu dou a receita, é beirã.

Luís Gonçalves

Vianatrilhos

(ainda não aderi ao acordo ortográfico)

Dados do percurso

Informação sobre os aspetos mais significativos:

Data2012-11-17
Distância total linear9.2 km
Nº de participantes16