2000-11-04 Marcha às Torres

Estava prevista para esta data uma marcha às Casarotas na Serra Amarela, contudo, face às péssimas condições climatéricas, optamos por levar a cabo esta marcha às Torres.

A marcha teve o seu início na Pousada da EDP do Lindoso, seguindo depois, sempre pela margem esquerda do Vale do Cabril, que cruzamos em ponte rústica chamada de Portamasseira, seguindo depois, pela margem esquerda do rio dos Mordornos e depois da ribeira de Gavião, rodeando a Torre Grande.

Chegando à Cabana do Gavião, abrigo pastoril de silhares graníticos, com tecto em falsa cúpula e grossa laje de fecho, torna a virar a Oeste e sobe, agora custosamente até à Chã da Torre.

Lá em cima vistamos as "casas" da Chã da Torre e depois seguimos até à orla da chã, para apreciar o maciço da Torre Pequena.

Seguiu-se a refeição, tendo pouco depois iniciado o regresso, pelo mesmo trilho, até junto da Pousada, onde fizemos um atalho, até junto dos carros.

Por fim veio o "lanche" retemperador.

Miguel Moreira

Amigos da Chão


Monumentos Arqueológicos do Parque Nacional

A Torre Grande (Lindoso)

Quem, guiado pela estrada que de Lindoso conduz à fronteira da Madalena, a abandonar pouca antes de chegar ao vale do Cabril e seguir para montante através de um caminho de pé posto ao longo da margem esquerda desta rio, não deixará de ficar impressionado com o imponente maciço da Torre Grande que cada vez mais perto se vai alongando no horizonte.

Ultrapassado o Cabril na ponte rústica de Portamaceira - sustida por um pilar central assente num formidável penedo arrastado para o leito do Cabril - o visitante começará a contornar a Torre Grande seguindo primeiro o vale cavado e fundo do rio dos Madornos e logo depois, virando a sul, o da ribeira de Gavião.

Chegando à cabana de Gavião, um abrigo pastoril de silhares graníticos, com tecto em falsa cúpula e grossa laje de fecho, torna a virar a Oeste e sobe, agora mais custosamente, até à Chã da Torre.

A Chã, suave e coleante, alongando-se entre a Torre Grande e a Colá da Bruta, é rasgada a espaços por afloramentos graníticos de grão médio a grosso, rugosos e muito erodidos. É este o tipo de granito que foi utilizado na construção das estruturas de habitação que pontilham igualmente a chã.

São construções de planta quadrada ou sub-rectangular, hoje totalmente arruinadas, formadas por grandes blocos mal aparelhados e sem qualquer argamassa de ligação, Uma observação rápida, afastado o giestal e o silvedo, permite lobrigar curiosas paredes duplamente facetadas e com vão central aberto. Recordam-me algumas das casinhotas do povoado de Porto Chão que o fogo lambeu no Verão que há pouco se despediu.

As "casas" da Chã da Torre não ultrapassam os 5 ou 6 metros de comprimento, algumas são mesmo mais pequenas, toscas e informes, provavelmente teriam remates em falsa cúpula empedrados e torroados ou com grandes lajes lisas corno ainda hoje se podem ver na branda da Chã de Mosqueiros, na serra do Soajo. Mas em Mosqueiros cada cabana tinha a sua cerca, qual recinto megalítico do tipo "cromlech", para reter os gados. Aqui na Chã da Torre as casas são poucas, quase irreconhecíveis já, sem evidências de alguma vez terem tido cercados ou pátios exteriores, algumas com paredes duplas e vão central aberto, ora adoçadas entre si, ora isoladas mas sempre de aparelho bruto. Quer no interior, quer em seu redor, não se descobrem quaisquer outros vestígios materiais, nomeadamente cerâmicas.

Um abrigo pastoril ainda utilizável, a oeste da chá, de planta subcircular, portinha bem rasgada e tecto em falsa cúpula formado por pequenas pedras imbricadas entre si e torroadas exteriormente onde fermenta um pequeno pasto de herbáceas, é uma construção que rasga o insólito dos restos que vínhamos observando e deles sobressai. Neste abrigo, semelhante a muitos que ainda são utilizados pelos pastores das serranias do Noroeste, só a porta ostenta pedras facetadas de maiores dimensões. O interior é um solo em terra bem compactada pelo uso, assentando o conjunto sobre uma espécie de mamoa artificial.

Subindo-se à Torre Grande, imponente maciço de moles graníticas franqueado a oeste pelo rio Cabril e a leste pela ribeira de Gavião, ao atingir-se o Alto da Torre a primeira sensação é de pequenez frente ao deslumbramento de horizontes. Na última vez que aqui estive e era Verão, o vento esfibrava uma chuva miúda e zunia em cargas forçadas, logo amainado, como que a zombar dos caminheiros.

Mas no Alto da Torro, que amplidões de maravilha!

Para norte, o grande rasgão do vale do Lima a cortar cerco o abraço das serras do Soajo e Amarela, e a receber o desmaio do fio de água do Cabril de margens ainda densamente arborizadas. Para sul, é o verde carregado da mata do Cabril, uma das jóias da coroa do Parque Nacional e que mentes ignaras tentaram nos anos 20 transformar em carvão!

E a nossos pés, juntinho à Torre Grande mas isolada por uma fenda abissal larga de alguns metros, levanta-se o inacessível pináculo da Torre Pequena.

Estar no Alto da Torre Grande em dia chuvoso e de ventos peregrinos, nuvens baixas e carregadas, é como sentir-se tocar quase o tecto do mundo, pese embora os pouco mais de 600 metros de altitude. Ao longe, os maciços retalhados do Soajo e da Peneda, rebuçados por chapéus esparsos de nuvens cinzentonas, destacam-se esgarnados das feridas profundas que o avanço das obras do Alto Lindoso por ali vai rasgando. Mais perto, a Amarela, que nos envolve pontilhada pela vezeira da cabrada do Lindoso...

Mas no alto da Torre Grande, aproveitando os interstícios entre as fragas formidáveis, criando pequenas chãs onde as terras se sustêm das fortes erosões, há igualmente restos de estruturas arqueológicas. São construções de plantas rectangulares e quadrangulares, formadas por pedras de proporções razoáveis, aparelhadas, e ora soltas, ora adoçadas entre si, de que só restam as plantas térreas.

Uma prospecção sumária pelas pequenas chás e cumeadas do Alto da Torre permite identificar um tipo de povoamento diferenciado do que vínhamos descrevendo nos baixios da Chá da Torre. Assim, no Alto da Torre as estruturas habitacionais são melhor delineadas e constituídas por blocos graníticos melhor aparelhados. Há uma mais cuidada distribuição espacial e, facto muito importante, estão associadas a cerâmicas de tipo aparentemente romano, que aparecem em grande profusão à superfície e em bolsas entre penedias.

São formas estruturais e aparelhos idênticos ao povoado que foi já identificado no "plateau" a sul do castelo de Castro Laboreiro, onde aparece igualmente o mesmo tipo de material cerâmico em superfície, nomeadamente tegulae, tijoleira e cerâmica comum romana. E hoje não duvido em paralelizar os 2 povoados como pertencentes à mesma época e tendo em comum as seguintes características:

a) Em ambos se identificam restos de construções de planta rectangular ou quadrangular, com muros formados por uma só fiada de pedras bem aparelhadas e de proporções razoáveis, ainda que nos recintos delimitados por estes blocos não se perceba qual fosse o tipo de cobertura.

b) Em ambos há uma clara tentativa de ordenamento de espaço onde surgem as estruturas, criando-se formas que poderemos considerar de um proto-urbanismo, surgindo nomeadamente no povoado de Castro Labareiro uma via como eixo central com as construções adoçadas à direita e à esquerda. Esta tentativa de ordenamento urbano é menos evidente no Alto da Torre, onde a chã é menos favorável e mais irregular do que em Castro Laboreiro, o que faz com que algumas das estruturas de habitação aproveitem mesmo afloramentos mais reentramos e suas saliências, integrando-os nas próprias habitações.

; c) Num e noutro povoado é vulgar encontrarem-se tegulas, grossos telhões de cerâmica avermolhada e acastanhada muito compacta, de tipo romano. Encontram-se igualmente materiais cerâmicas diversos, todos do tipo da "cerâmica comum" romana, grosseira e sem qualquer tipo de decoração, e mesmo restos de solos em barro cozido compactado.

d) A localização de qualquer um dos povoados é dominante e estratégica relativamente à região envolvente, Assim, enquanto no povoado de Castro Laboreiro este assenta num bem desenvolvido "plateau" dominado pelo maciço do castelo, mas bem defendido e encaixado entre este e as vertentes abruptas do rio Castro Laboreiro, o povoado do Alto da Torre distribui-se pelos cumes e reentrâncias do formidável maciço da Torre Grande, dominando completamente a região e boa parte do curso do rio Cabril.


Torre Grande do Lindoso

É difícil determinar a época destes povoados sem a realização de quaisquer escavações arqueológicas, mas a presença de tegulae e as outras cerâmicas comuns poderão indiciar-nos uma cronologia do período romano ou imediatamente posterior. As estruturas pétreas visíveis apontam, pelas suas formas de cantos rectos e ordenamento espacial, também para formas organizacionais derivadas do urbanismo romano, mas isto só em planta, pois os aparelhos das construções nada têm do clássico e regular aparelho romano.

Poderemos assim estar em presença de restos de povoados indígenas da época romana ou imediatamente posterior ao período tardo-romano, cronologicamente enquadráveis na Alta Idade Média, num momento em que se utilizavam ainda as formas cerâmicas legadas pelo Império? Ou serão já povoados mais avançados no tempo, por exemplo da época da Reconquista, nichos de povoamento alcantilados entre escarpas e penedias aproveitando as chãs alteadas e de muito difícil acesso? Em qualquer destes dois povoados não se vislumbram obras de amuralhamentos, pelo que não seriam povoados defensivos, mas talvez simples refúgios passageiros...

Com estes dois povoados, que não duvido em situar cronologicamente no mesmo momento, poderá também paralelizar-se o de Cidadelhe, já em pleno Vale do Lima e relativamente perto da Torre Grande, e que vem sendo classificado como um castro proto-histórico, o que me parece pouco provável. Mas a este voltaremos um dia!

Em resumo e relativamente ao complexo arqueológico da Torre Grande, há neste maciço imponente evidências de dois povoamentos diferenciáveis:

a) Na Chá da Torre há restos de um aldeamento que poderei classificar do tipo de branda pastoril, com paralelos, por exemplo, em Porto Chão, também na serra Amarela e muito perto deste local, e ainda com outras brandas, quer a Amarela, quer mesmo da Peneda. Este tipo de povoamentos, em que só o pastor se desloca com os gados, é diferente do clássico modelo das brandas e inverneiras, em que toda a comunidade se desloca ora para uma, ora para outra aldeia. Nas brandas pastoris só o pastor e os seus gados habitam sazonalmente os pastos de altitude. A serra Amarela tem ainda, algumas destas aldeias formadas por pequenos casinhotos agrupados ou disperses em chãs elevadas, que foram bastante utilizadas pelo menos até à época da chamada "revolução do milho", sendo ainda algumas habitadas até aos primórdios do nosso século. Recordarei aqui que a única branda pastoril que ainda funciona como tal na Amarela é a branda de Bilhares, pertencente à aldeia da Ermida. E não deixa de ser curioso recordar que Bilhares está por Vilares, (como ainda aparece na cartografia antiga) um topónimo claramente latino, derivado de villae, a indiciar um antigo assentamento romano, o que se prova pelos inúmeros silhares graníticos de boa factura, alguns almofadados e sem dúvida romanos, que foram aproveitados em muitas das casas da actual branda.

b) No Alto da Torre estão os restos de um outro povoado, claramente anterior cronologicamente, talvez da época romana a julgar pelo tipo de materiais que aparecem à superfície, ou mesmo da Alta Idade Média, sabido como é vigorosa a força dos arcaísmos nas montanhas do Noroeste Peninsular.

Relativamente ao maciço da Torre Grande, muito perto da actual linha de fronteira galaico-portuguesa, não poderei ainda deixar de mencionar o registo da memória popular que recolhi em Lindoso, onde é ainda muito viva a recordação de naquele sítio elevado estarem instaladas vigias aquando das sangrentas invasões francesas nos inícios do séc. XIX, que comunicariam com outras vigias Lima abaixo, através de grandes fogueiras ...

Memórias e lendas que os vestígios arqueológicos mais enriquecem e que bem justificam a visita do simples curioso ou do investigador avisado a este maciço da serra Amarela, tão perto e tão longe dos nossos tempos e a que o povo chama de TORRE GRANDE.

António Martinho Baptista

Dados do percurso

Informação sobre os aspetos mais significativos:

Data2000-11-04
Distância total9 km
Nº de participantes15