2023-01-14 Aldeias de Coura

Começamos junto da igreja do Senhor Ecce Homo de Padronelo, um templo do Séc. XVIII, com uma imponente escadaria, característico da transição do estilo Barroco para o Neoclássico, próximo do exuberante estilo Rococó, onde decorria na altura uma cerimónia religiosa muito concorrida.

O tempo estava ameaçador e recomendava o uso de roupa e calçado adequado, pois os terrenos estavam encharcados e havia muita humidade no ar, que predestinava chuva.

Arrancamos logo depois da chegada do casal Rego, que se atrasou na saída de Viana, descendo na direção do rio Coura, bem engrossado com a muita chuva que tem caído por todo o país, mas com maior incidência neste nosso Alto Minho.

E a água em fartura causou-nos o primeiro contratempo, pois junto ao rio seguimos por uma levada de água, que ficou semidestruída com as enchentes, desaconselhando uma progressão segura. Para ultrapassar o contratempo fizemos um desvio a corta mato pela propriedade acima, retomando o caminho um pouco adiante.

No lugar de Valinhas deixamos a margem do tumultuoso rio Coura e iniciamos a subida na direção o lugar dos Sobreiros, continuando por caminho florestal na direção do santuário de S. Tiago, ou Santiago perdido no meio de densa vegetação, em que a linha divisória das freguesias de Padronelo e Parada é feita pelo pequeno templo, que tem na porta de entrada duas caixas de esmolas, uma para as oferendas dos devotos de cada uma das freguesias confrontantes.

Este lugar tem uma história muito antiga, pois teria sido utilizado desde tempos imemoriais para encontros festivos das duas povoações e diz a tradição que na altaneira carvalheira de S. Tiago terá havido um convento dos Templários, datado do Séc. XII, depois abandonado e reaproveitado em capela, que se foi degradando e várias vezes reconstruída, perdendo completamente qualquer vestígio da sua traça original, e nem os santos se salvaram, pois foram vendidos.

Diz-se que deste monte de S. Tiago «cuja capela existe no monte, e é antiquíssima, e há tradição que fora convento dos templários, não tem património, e se festeja alternadamente todos os anos pelos moradores desta freguesia e da de Parada e dista desta freguesia meio quarto de légua».

Depois da foto de grupo pretendíamos seguir na direção de Parada e surgiu mais um problema complicado, pois um portão bloqueava o estradão florestal, impedindo a continuação do percurso. Havia que procurar alternativas, e depois de alguma busca encontramos uma porta na cerca que nos possibilitou avançar, contornando a dificuldade e possibilitando a continuação do percurso.

Mas depois de nos cruzarmos com um pequeno potro, que nos veio fazer companhia na travessia da propriedade, deparamos com outro portão idêntico no outro extremo. Mais uma vez tivemos que improvisar e acabamos por conseguir transpor mais esta inesperada dificuldade.

Foi com espanto que verificamos esta obstrução de um caminho, que depois viemos a apurar ser público, existindo uma situação litigiosa, pela recusa de servidão de passagem, na medida em que o proprietário do recinto do Santuário de Santiago quer direito de passagem sobre o terreno contíguo. Enfim uma situação que só complica a vida a quem quer visitar o santuário e desaconselha a utilização desta troço do percurso, pelo que aconselhamos a procura de alternativa para este troço.

A freguesia de Parada é rica em nascentes de água naturais. A rega das férteis terras é feita por levadas que na maioria dos casos vem do monte. Existem as águas das Borralhas, ou de S. Tiago, compostas por 8 poças e as do Regueiro de Parada de Cima, composto na sua totalidade por sete poças. Essas águas abastecem os lugares de Parada de Cima e Vila.

Entretanto a chuva começou a engrossar e depois de um compasso de espera para reagrupamento passamos junto da igreja de Parada de Cima, antiga Matriz chamada de S. Sebastião. Diz-se que é de origem visigótica. Nas suas traseiras e no cume encontra-se fixada na parte da frente um carneiro de pedra que se diz ser muito antigo. Em anexo a essa igreja existe uma casa que funciona como casa da mesa. Aí se guarda uma pedra em forma de pia na qual se colocavam os mortos, quando esses eram enterrados nesta igreja e a qual se dá o nome de esquife. Esta pedra dá à casa o nome que popularmente é conhecida.

Continuava a chover e havia que encontrar um local para o almoço que nos poupasse á inclemência do frio e chuva, pelo que continuamos a descida para Parada, encontrando esse tão desejado refúgio na igreja Matriz de Parada, datada de 1930, sendo os santos venerados: Santa Bárbara, S. Pedro e S. Bento.

Comemos no coreto e nos diversos recantos dos anexos ao templo, fugindo à chuva e vento e contemplando as vastas vistas para o vale do Coura, um tanto obscurecidas pela chuva e neblina.

Entretanto a chuva aliviou bastante e o sol começou a espreitar pelas nuvens quando descemos pelo lugar da Várzea, passamos nas Alminhas das Eirinhas e seguimos na direção da capela de S. Gonçalo.

Deixamos o lugar da Várzea, cruzamos o ribeiro das Cartas e já no lugar de Alvarim, chegamos à pequena Capela de S. Gonçalo. Estava aberta e com preparativos de festa, denunciados pela bem audível música regional que ecoava por todo o vale, anunciando a festiva ocasião. Diz a tradição que um Cálice de prata que existe ou existiu nessa Capela terá sido oferecido pela primeira Rainha Portuguesa para invocação de S. Gonçalo.

Rumamos pelas extremas dos campos de cultivo às margens do Coura, que cruzamos numa pontelha semidestruída, passando para a sua margem direita que fomos sempre acompanhando até à Ponte de Parada. Aí cruzamos de novo o rio Coura, continuando agora pela sua margem esquerda, seguindo uma levada que corre paralela ao rio, que nesta zona tem um pendor importante, descendo a encosta por uma série de quedas de água que o iam afastando cada vez mais do nosso trilho. Este troço difere do que originalmente estava previsto, mas valorizou muito o percurso, pois esta levada tem uma vista muito interessante.

Retomamos mais à frente o percurso previsto e continuamos a seguir o vale do Coura até ao lugar de Lamamá da freguesia de Paredes de Coura, onde passamos junto a umas alminhas e na proximidade da capela de Nossa Senhora do Rosário, descemos pelo caminho das Pereiras na direção do rio Coura, que voltamos a cruzar para a margem direita.

Como o sol raiava e o cenário era adequado, fizemos aquí nas margens do Coura o batismo do Camilo Correia, Paula Cristina e Graça Barroso. Não foi com as águas do Coura mas com a aguardente bagaceira do Branco que se fizeram os batismos de mais estes novos caminheiros, que assim passam a integrar o grupo.

Depois da cerimónia passamos junto ao Engenho do Sigo onde existiu uma forja, serração de madeiras (um engenho) e moinhos para moer o grão de milho e outros cereais. Segundo se diz, aquí se arranjavam e faziam ferramentas agrícolas, com melhor têmpera que as compradas para os lados de Espanha. Também se afiavam “foicinhas”, “carbunhavam” enxadas, aguçavam os picos para os homens cortarem a pedra, arranjavam e construíam machadas e ferragens para os carros de bois.

Subimos finalmente uma desgastada calçada para o centro de Padornelo, chegando à igreja do Senhor Ecce Homo pelas 15:15, pondo fim a mais um dia nas terras de Coura, em que os poucos e curtos períodos de chuva não estragaram a deslocação.

O encerramento foi na "Tasca do Chameau" em Cardielos.

José Almeida
Vianatrilhos

Dados do percurso

Informação sobre os aspetos mais significativos:

Data2023-01-14
Hora de início09:31
Hora do fim15:13
Tempo total do percurso5h 42m
Velocidade média deslocação2,7 km/h
Distância total linear12,5 km
Distância total12,7 km
Nº de participantes34