2022-11-26 Passadiços do Mondego

A ideia de vir conhecer este percurso surgiu no princípio de Novembro, quando estava a ser badalada nos meios de comunicação a divulgação desta nova infraestrutura, recentemente inaugurada pela Câmara Municipal da Guarda.

A curiosidade aguça o engenho, pelo que após consulta dos “organizadores” decidimos vir conhecer esses passadiços que ligam Videmonte à barragem do Caldeirão e aproveitar a deslocação de fim-de-semana, para também fazer outra atividade na zona da Serra da Estrela.

Embora não nos seja muito querida esta febre de passadiços e baloiços, que estão a proliferar por todo o lado, desfeando completamente a paisagem e trazendo multidões desordenadas que comprometem o equilíbrio ecológico, também quisemos verificar o que de interessante nos poderia proporcionar estes novos passadiços do Mondego.

Viemos de camioneta de Viseu para Videmonte e aí começaram os problemas pois as estreitas estradas de acesso obrigaram a manobras complicadas do pesado, que teve que retroceder e fazer dois desvios antes de chegar ao ponto de partida.

Aí chegados parecia uma romaria de caminheiros de mochilas às costas, com camionetas e dezenas de carros a preencher o parque de estacionamento, junto à casota em que era feito o controlo dos bilhetes, que tínhamos previamente reservado para a travessia.

A escolha do sentido Videmonte – Barragem do Caldeirão é a oposta à recomendada pelo município da Guarda, mas decidimo-nos por esta variante, de forma a dar opção de escolha aos participantes, de se pouparem a subida final da escadaria da parede da barragem, já que poderiam apanhar a camioneta na ponte da Mizarela na freguesia de Pêro Pinheiro, na proximidade de Vila Soeiro.

Iniciamos o percurso pelas 11:10 por uma enorme escadaria que desce a pique, encavalitada nas rochas xistosas, na direção de uma vistosa cascata do Ribeiro dos Moinhos onde são ainda visíveis as ruínas de vários deles. O pendor da descida reduz e passamos junto ao Engenho dos Carriços, situado muito perto da confluência do ribeiro de Cabris com o rio Mondego, que passa depois a correr à nossa direita bem engrossado com as chuvas que temos tido neste muito chuvoso mês de Novembro. Este e os outros engenhos que fomos vendo ao longo do percurso eram destinado à tecelagem, nomeadamente à feitura dos cobertores de papa e tiveram a sua época áurea no fim do séc. XIX e início do séc. XX, sendo posteriormente abandonados, quando outras formas de energia substituíram com vantagem a energia hidráulica dos engenhos.

Fomos descendo o vale escarpado do Mondego, passamos defronte do túnel de captação de água da barragem do Caldeirão e um pouco adiante termina este troço de passadiços, tendo cruzado o Mondego por uma ponte suspensa para a sua margem direita. A partir da tomada de água da barragem, o coitado do Mondego quase desaparece e, este que é o maior rio de Portugal, fica reduzido a um ténue fio de água que corre discretamente por entre as pedras nuas do seu leito.

Seguimos o trilho marcado e visitamos as ruínas do Engenho Grande (fábrica de Marrocos), e mais à frente vimos do outro lado do rio o Engenho de Ribas, que não visitamos por estar barrada a passagem na ponte de acesso, indicando como propriedade privada.

Como entretanto chegava a hora de almoço fizemos a paragem um pouco mais adiante, junto da ponte suspensa que transpunha para a margem esquerda, aproveitando umas pedras e o arvoredo para retemperar energias, antes de reentrar nos passadiços do outro lado.

Após a refeição seguimos os passadiços até cruzar de novo o Mondego para a margem direita, passamos junto do Engenho do Pateiro, que iniciou a laboração em 1890 e ficou destruído por incêndio em 1954. Depois seguimos os passadiços sempre pela margem direita junto dos diversos açudes e respetivas levadas até à Central hidroelétrica do Pateiro, inaugurada em 1899, sendo pois uma das mais antigas do país, que alimentava de eletricidade a cidade da Guarda.

O vale do Mondego entretanto alarga e ganha dimensão, permitindo uma maior abrangência destas terras serranas e possibilitando a existência de culturas agrícolas dispersas. Passamos junto da Fábrica Velha e um pouco mais à frente, depois de uma curva do vale, fica a porta de controlo do percurso do lado da Guarda, que aproveitamos para mais umas fotos e uma paragem técnica para damas e cavalheiros.

Mas ainda não estava terminado o percurso e continuamos o trilho marcado, passando junto de mais uma tecelagem, desta vez a Fábrica Nova e depois pelo cruzamento para Vila Soeiro também chamada de Cabo do Mundo, pois quem lá chegava tinha que voltar para trás.

Segue-se a descida para a Ponte da Mizarela, também apelidada de ponte de Pêro Soares, onde depois de muita indecisão acabaram por ficar alguns companheiros, para apanhar o autocarro, evitando a subida final para a Barragem do Caldeirão.

Esta opção estava desde o princípio prevista e foi posta à disposição de quem o quisesse, mas como ninguém manifestou interesse, o autocarro não desceu à ponte e aguardava por nós no cimo da barragem. Porém, talvez intimidados pela escadaria que trepava a parede da barragem, alguns deram o dito por não dito e acabaram por acabar na ponte.

Gerou-se alguma confusão pois faltou (mais uma vez) comunicação entre o grupo dos desistentes e a cabeça do pelotão, o que originou um atraso perfeitamente desnecessário, ficando a maior parte dos caminheiros à espera na base da escadaria, dos poucos que ficaram lá em baixo à espera da chegada do autocarro e que só arrancaram para a subida depois de este partir (!)

Enfim, uma situação que não deveria ter ocorrido e que causou alguns protestos dos que tiveram que aguentar a demora na resolução do caso. Lamentamos esta situação, mas resultou de fatores externos à nossa vontade.

Depois foi a subida do escadório final! Um teste à resistência, que custosamente acabamos por superar, obrigando a diversas curtas paragens, quer para recuperar do esforço, quer para apreciar a paisagem circundante. Uma estopada!

Um destaque para a ribeira do Caldeirão, junto ao paredão da Barragem, em que as águas da ribeira se precipitam no abismo, moldando as gargantas e poços profundos na rocha xistosa, ao longo dos quase 50 m de desnível.

Acabamos às 16:20, no topo da barragem do Caldeirão, como sol já a muito baixo e com a temperatura a cair rapidamente, mas satisfeitos por acabar este esforço final.

Ao todo foram cerca de 6,7 Km sobre os passadiços de madeira, tendo o restante percurso decorrido em trilhos já existentes. Os passadiços são integralmente de madeira de pinho, tratado de forma a garantir a durabilidade e resistência da madeira, com uma garantia de 20 anos. O investimento da CM da Guarda superou os 4 milhões de euros.

Partimos finalmente para a Pousada da Inatel de Manteigas, onde jantamos e ficamos alojados.

José Almeida
Vianatrilhos

Dados do percurso

Informação sobre os aspetos mais significativos:

Data2022-11-26
Hora de início11:09
Hora do fim16:23
Tempo total do percurso5h 13m
Velocidade média deslocação3,04 km/h
Distância total linear13,2 km
Distância total13,3 km
Nº de participantes40

Esta atividade está no

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Passadiços do Mondego