2020-03-08 Escapadela a Piódão II

Piódão - Chãs d'Égua - Foz d'Égua

Alguns queriam iniciar a caminhada logo na pousada da Inatel de Piódão, mas mandou o bom senso descer à aldeia de autocarro, poupando o esforço e o tempo  que tínhamos destinado para a manhã cinzenta de domingo.

Chegamos a Piódão pouco depois das 09:00, mas já eram muitos os viajantes que tinham invadido a pequena e típica aldeia, joia maior das aldeias de xisto. Na década de 60 a freguesia de Piódão chegou a ter mais de mil habitantes, mas depois veio o abandono e agora não há sequer duas centenas de almas, sendo a aldeia de Piódão a aldeia que menos residentes alberga.

Já conhecíamos Piódão de outras visitas, mas é sempre um gosto visitar esta pequena aldeia, que mais parece um presépio negro de xisto e lousa, esculpido na abrupta escarpa desta majestosa serra do Açor

Depois de atravessar a praça frontal à igreja Matriz, contornamos a aldeia a este, passando junto da capela das Almas e um pouco mais à frente, junto ao cemitério tomamos o trilho que foi usado durante gerações para interligar as aldeias das margens das ribeiras de Piódão ou Piodam, como aquí também se designam.

Mal começamos a marcha e começaram os atrasos! Já nem vale a pena voltar a dizer que quem vem a uma marcha deve ter o cuidado de nunca se atrasar e deixar de ver quem o precede. Mas... mais uma vez o grupo ficou parado enquanto o voluntarioso Pimenta voltou atrás para resgatar os "desaparecidos" que se enganaram no caminho.

Ultrapassada a situação cruzamos a Eira do Cerquinhal e a encosta da Eirinha sempre a meia encosta, sem grandes desníveis e pouco depois cruzamos um lugar com um conjunto de casas há muito abandonadas, que tem o curioso nome de Pés Escaldados. Longe vão os tempos em que os campos eram o modo de subsistência dessas gentes, restam os socalcos ao abandono e apenas paredes e escombros das típicas casas de xisto e lousa.

Subindo mais um pouco o vale começaram a aparecer alguns socalcos cultivados e chegamos entretanto a Chãs d'Égua, mais um remota aldeia de montanha, localizada na vertente norte do Outeiro do Penedinho, debruçada sobre a ribeira de Chãs.

Chãs d'Égua não tem o encanto de Piódão, pois sofreu diversas intervenções que desvirtuaram bastante o aglomerado de casas de xisto originais, mas a praça central, onde também existe o forno comunitário, apresenta um belo enquadramento pois está empoleirada sobre um conjunto de pequenas cascatas do ribeiro que cruza a aldeia. Não vimos vivalma, o que diz bem do grau de desertificação destas terras. Contávamos encontrar por lá os companheiros que optaram por não foram fazer a marcha, mas soubemos posteriormente que se deram à preguiça e preferiram apenas descer até Piódão para uns petiscos e shop - shop.

A fundação da aldeia de Chãs de Égua remonta a quase 1000 anos A.C., sendo as construções dispersas ao longo do apertado vale, mas sempre com alguma proximidade, de forma a conseguirem comunicar gritando uns aos outros, para se poderem valer em caso de perigo. São muitas a pinturas rupestres do Neolítico e da Idade do Bronze que aquí foram descobertas.

Depois de uma paragem e reabastecimento começamos a descida para a ribeira de Chãs. Aqui o estreito carreiro complica-se pois o solo xistoso com a humidade fica muito escorregadio e propício ao trambolhão, mas tudo se passou se sobressaltos e pudemos apreciar todo o vale da ribeira, e as múltiplas casas abandonadas nas suas margens.

Cruzamos o ribeiro e chegamos a Eira da Bocha, interessante conjunto de casas de xisto, com algumas mais ou menos recuperadas, onde reagrupamos e fizemos mais um pausa, antes de continuar a descida do vale da ribeira de Chãs.

Infelizmente o grupo aqui dividiu-se, pois um pequeno número de participantes teve receio da descida que se avizinhava e preferiu seguir pela estrada alcatroada de regresso a Piódão.

Perderam talvez a parte mais interessante do percurso, pois logo após a descida ingreme dos socalcos abandonados de Eira da Bocha, cruzamos o ribeiro para a margem esquerda e descemos calmamente o vale, observando a densa vegetação circundante e diversos núcleos de moinhos com suas levadas, os desnivelados socalcos de cultivo, os extensos e os impressionantes muros e suporte que delimitam a ribeira e as muitas casas em ruína, que pejam este estreito e comprido vale.

A descida complicou-se bastante, obrigando a precaução redobrada, pois para além do desnível, o caminho é nesta zona um amontoado de xistos soltos, que rebolam ao mínimo descuido, atrasando consideravelmente a progressão.

Chegamos finalmente à Foz d'Égua, pequena aldeia situada na confluência do ribeiro da Chãs d'Égua com a de Piódão, que correm depois em direção ao rio Alvoco e cujo percurso é travado por uma represa, criando um espelho de água muito procurado em tempos estivais.

É mais uma típica e encantadora aldeia de montanha, com um harmonioso aglomerado de casas de xisto e lousa, enquadradas pelas escarpas da serra de Açor.

Começou entretanto a chover, pelo que não nos demoramos na observação e seguimos encosta a cima de regresso a Piódão. Aceleramos o ritmo da marcha, mas mesmo assim ainda houve tempo para ir observando os extensos socalcos agrícolas que se estendem ao longo da margem esquerda da ribeira de Piódão, agora totalmente ao abandono.

Chegamos pouco depois à confluência de percursos, junto ao cemitério, onde tiramos a costumeira foto de grupo, com Piódão como pano de fundo, regressando depois ao autocarro, para o já muito desejado regresso à pousada da Inatel.

A chuva não ajudou nada, mas também não prejudicou em demasia esta interessante jornada pelas aldeias de xisto de Piódão.

José Almeida
Vianatrilhos

Dados do percurso

Informação sobre os aspetos mais significativos:

Data2020-03-08
Hora de início 09:05
Hora do fim 13:36
Tempo total do percurso 04:30
Velocidade média deslocação 2,3 km/h
Distância total linear 10,1 km
Distância total 10,3 km
Nº de participantes 36