2020-01-11 Caminhos da Ruralidade

Já tínhamos marcado esta deslocação ao vale do Urzal por duas vezes, mas o tempo anormalmente agreste de Novembro passado não nos permitiu a deslocação a estas terras de montanha dos Arcos de Valdevez.

Mas desta vez o tempo ajudou, pois estava fresco mas soalheiro quando iniciamos o percurso um pouco acima da capela de Stª Luzia, da remota aldeia de Grijó, freguesia de Rio Frio, concelho de Arcos de Valdevez.

Começamos por subir um estradão florestal que nos levou até à proximidade do “Corno do Bico”, que com os seus 883m domina a paisagem circundante. Desta vez não era esse o nosso destino, pelo que chegados ao cruzamento de acesso ao “Corno” seguimos em sentido oposto contornando uma mata de cedros e dirigimo-nos para a aldeia de Travassos por “Outeiro Maior”.

Á nossa direita o vale do Urzal envolto num manto de densa bruma matinal permite-nos divisar lá ao longe o extenso vale do Vez, ensolarado por esta raiosa manhã de Inverno.

Já perto da aldeia, depois de cruzar uma levada, descemos um escorregadio e traiçoeiro caminho de pedras roladas, onde o Higino acabou sentado, mas prontamente recuperado para a continuar a marcha.

Chegamos finalmente à aldeia de Travassos, que faz parte da freguesia de Senharei, também do concelho de Arcos de Valdevez. É uma aldeia de montanha encaixada na vertente norte do Vale do Urzal, com uma população envelhecida e com difícil acesso à sede do concelho.

Quando cruzamos a aldeia deparamos com uma idosa caída no seu quintal, pelo que prontamente lhe prestamos assistência. Felizmente a mulher estava apenas combalida mas bem, pelo que a “equipa médica” presente a recompôs e pudemos seguir adiante. Isto de viver em aldeias isoladas, longe de tudo e de todos tem as suas desvantagens, pois em caso de acidente ou doença as ajudas são parcas e tardias, o que aliado à elevada idade dos residentes faz perigar a sua vida.

Deixamos para trás Travassos e contornamos os campos agrícolas circundantes, seguindo para a aldeia de Vila Franca, da freguesia de Rio Frio.

Na descida para Vila Franca passamos pelo “Penedo da Mijadoira”, que deve o nome à sua curiosa forma e de onde brota cristalina água da montanha. Depois de arranjar a semi destruída placa de sinalização continuamos a descer o estradão florestal até Vila Franca. Aí seguimos até à capela de S. Vicente onde fizemos uma curta paragem antes de nos embrenhar na densa mata do Urzal.

Penetramos num vasto carvalhal constituído maioritariamente por carvalho-alvarinho (Quercus robur), mas também com muitos exemplares de castanheiros (Castanea sativa), amieiros (Alnus glutinosa), azevinhos (Ilex aquifolium), gilbardeira (Ruscus aculeatus) e fetos.

O trilho não foi fácil de seguir, pois não evidenciava vestígios de anteriores marcações e estava muito obstruído por árvores derrubadas, silvas e giestas, que aos poucos vão tomando conta dos caminhos, agora em desuso.

Foi nessa densa mata de carvalhos, com vistas para o profundo vale do Urzal, que fizemos a já muito reclamada pausa de almoço. A paragem serviu também para o batismo de três novos participantes que passaram a integrar o grupo de "Caminheiros Vianatrilhos".

Desta vez a honra coube a Anabela Marques, Peter e Ana Maria, que apadrinhados por companheiros mais veteranos, foram batizados ao som da laica ladainha do "Bota a Baixorum".

Findo o ritual foi tirada a foto de grupo antes de nos voltar a embrenhar nos estreitos caminhos rurais que fomos subindo, sempre pela margem esquerda do Rio Frio até cruzar uma sombria pontelha, meia escondida pelos musgos e líquenes, local onde pudemos “bater umas chapas” com uma interessante queda de água a servir de pano de fundo.

Descemos de seguida uma interessante mas escorregadia calçada que contorna a vertente sul do vale do Urzal, tendo passado pelas ruinas de diversos moinhos, memórias da transformação do cereal que estas férteis terras outrora produziam.

Junto ao lugar do “Fojo” infletimos à direita, reiniciando a subida do vale. Vencidas algumas dificuldades de navegação, que nos fizeram perder algum tempo, cruzamos a estrada municipal alcatroada e voltamos a entrar numa densa mata de carvalhos, bétulas e castanheiros, que fomos cruzando inicialmente em estradão florestal e depois a corta-mato.

Aqui e ali tivemos algumas dificuldades na navegação, pois o registo GPS utilizado indicava caminhos agora inacessíveis, o que fez exasperar alguns dos participantes e stressar quem guia o grupo.

Cabe aqui esclarecer que somos um grupo de carolas que nada move senão o gosto de partilhar com todos os participantes o nosso prazer em caminhar na natureza.

Não somos, nem nunca quisemos ser guias profissionais, nem temos por norma fazer reconhecimentos prévios, indispensáveis aos prestadores de serviços, pelo que é normal haver necessidade de verificar amiúde a cartografia com os registos GPS que utilizamos. Quem não entender estes pressupostos poderá sempre escolher os serviços dos muitos grupos que negoceiam nesta área de lazer.

Ultrapassadas as dificuldades referidas, tomamos o largo estradão de acesso ao “Corno do Bico” e fizemos um pequeno desvio a um enorme penedo na borda de um precipício, de onde se desfruta de uma paisagem impressionante de toda a serra e da envolvente do vale do Urzal.

Subindo sempre o estradão começamos a ver ao longe o "Corno do Bico" lá no alto e um "corta-fogo" que nos parecia subir a pique até ao céu.

Houve até alarme! Vamos ter que subir aquilo? Não há outro caminho? Mas como devagar se vai a longe trepamos a íngreme ladeira, último esforço para atingir a célebre “Cruz Vermelha”, que marca a confluência dos concelhos de Arcos de Valdevez, Paredes de Coura e Ponte de Lima.

Inserida na Área Protegida do Corno Bico, a Antela da Cruz Vermelha é datada de cerca de 2500 AC e tem a forma circular com um penedo de cabeceira que tem uma cruz gravada pintada de vermelho.

Mais uma foto de grupo e finalmente uma longa, mas relaxante descida para Grijó, encerrando um belo dia, propício para a marcha nestas serranas e remotas paragens dos Arcos de Valdevez.

O lanche de encerramento foi em Perre na “Tasca Zé da Ferreira”, onde foi também festejado o aniversário do amigo e companheiro Manuel Rego, decano caminheiro cofundador do nosso grupo. 

 

José Almeida
Vianatrilhos

Dados do percurso

Informação sobre os aspetos mais significativos:

Data2020-01-11
Hora de início09:12
Hora do fim16:12
Tempo total do percurso7h 00m
Velocidade média deslocação2,4 km/h
Distância total linear16,2 km
Distância total16,6 km
Nº de participantes33