2019-12-28 Caminhos de Santa Luzia

Começamos defronte da Quinta da Boa Viagem, originalmente designada por Quinta de Santa Maria da Vinha, que remonta ao Séc. XVI e pertenceu a Gonçalo Ferreira de Villalobos, nobre mercador residente em Viana da Foz do Lima.

Da quinta fazia também parte a capela da Boa Viagem, singela capela de planta retangular, que possui retábulo de talha dourada com imagem da padroeira, protetora dos viajantes e homens do mar, Nossa Senhora da Boa Viagem.

Começamos a subida do ribeiro do Pego, que atravessamos junto a importante conjunto de moinhos, uns em completa ruína perdidos no meio da vegetação, outros transformados em habitações, outros mais ou menos conservados.

Os moinhos da Areosa tiveram uma importância decisiva no desenvolvimento regional. Fruto da sua localização privilegiada, com uma extensa veiga que se estende desde o Montedor até à Foz do Lima e desde a praia até aos contrafortes do monte de Santa Luzia, tinha como suporte uma vasta rede hidrográfica, que propiciava a cultura intensiva do milho.

Com tamanha produção, o número de moinhos de água e vento necessários à transformação do cereal teria atingido as sete dezenas, tendo-se espalhado quer pelos cursos de água mais importantes, quer pelo ventoso litoral norte.

Iniciamos a subida pela margem esquerda das tumultuosas águas do ribeiro do Pego, com uma visão alargada para a extensa veiga da Areosa.

Do outro lado da escarpa, vemos a difícil calçada de acesso a vários moinhos arruinados e mais à frente o célebre “Poço Negro”, onde o ribeiro do Pego descansa brevemente as suas águas antes de se precipitar, numa última cascata, na direção do oceano. É um local muito procurado no Verão para banhos, mas que agora mete respeito pelo caudal do ribeiro, inviabilizando qualquer de travessia.

Continuamos com alguma dificuldade até ao velho edifício de captação de águas dos Serviços Municipalizados de Viana do Castelo, ainda hoje utilizado,

Com o ribeiro engrossado com a muita água das últimas chuvadas, não foi possível contornar com segurança a captação, pelo que optamos por subir a corta-mato para um caminho superior.

A partir daí a progressão foi mais fácil e subimos o caminho de acesso a Santa Luzia até aos bem nossos conhecidos “Canos de Água” que descem de S. Mamede para os “Arcos do Fincão”.

Os “Canos de Água” são parte de uma vasta rede de captação e transporte de água que aproveitava as límpidas águas de Santa Luzia e as conduziam, quer aos regadios da Areosa, quer ao abastecimento da urbe Vianense.

Estas águas foram outrora motivo de muitas desavenças e até “guerras” entre os lavradores da Povoença e as autoridades da Vila de Viana, pois todos se achavam no direito â sua posse.

Os da Areosa reclamavam que a água que lhes era destinada não chegava para a rega e movimentação dos moinhos e os da cidade reclamavam mais água para os conventos da Vila e especialmente os diversos chafarizes públicos. Entre estes estava o bem nosso conhecido “Chafariz da Praça”, do então “Campo do Forno” e depois “Praça da Raínha”.

Para acabar com a “guerra da água” foi necessária a intervenção do Corregedor, que a mando de D. João III pôs fim à contenda, com a atribuição de indemnizações e a construção de um depósito de água para os lavradores da Povoença.

Os “Canos de Água” são por si só uma obra de engenharia hidráulica incrível, quer pela sua extensão, quer pela utilização de canalização feita de enormes blocos de granito perfurado justapostos. O “PR9 – Trilho dos Canos de água” aproveita parte do traçado desta extensa conduta.

Seguimos a conduta para norte, até à captação de água e fizemos um curto desvio para a “Azenha Velha”, outrora movida pelas águas do ribeiro de S. Mamede, agora em ruínas, quase escondida pelo denso matagal.

Continuamos a subir ao longo do ribeiro de S. Mamede até à proximidade do lugar, tendo feito uma curta pausa para reabastecimento, antes de rumar à “Aldeia Velha” e sua “Capela Velha”.

É muita a polémica sobre esta “Aldeia Velha”, que perdida na serra e no tempo teria sido a povoação primitiva, mudada no Sec. XVI para a atual localização. Dos tempos iniciais são visíveis algumas construções mal reabilitadas, a interessante “Casa do Padre” e as ruínas tomadas pelo mato da “Capela Velha.

Continuamos depois para norte, até à Pedreira de Santa Luzia, de onde teria sido extraída grande parte do granito das muitas edificações de Viana.

Rumamos de seguida até às “Lajes do Milho”, que deve o seu nome ao aproveitamento que estas enormes lajes propiciaram na seca do cereal na época das colheitas. Foi lá que tiramos a foto de grupo, sobre as ruínas de uma tosca edificação.

Na proximidade cruzamos o “Caminho do Monte” e fomos visitar o “Petroglifo de S. Mamede”, conjunto de gravuras rupestres dispostas em triângulo, esculpidas sobre uma enorme laje. Segundo alguns, a estas imagens estaria associado o culto da serpente.

Era chegada a hora do almoço, pelo que seguimos para o largo da capela de S. Mamede, aproveitando as mesas para fazer o repasto e descansar o corpo.

Findo o descanso continuamos para sul durante algum tempo, passando junto da Fonte do Povo,  mas como ainda era cedo e o dia bonito e propício à caminhada, resolvemos subir até ao Lajão, onde se junta o “Ribeiro das Bouças” com o “Ribeiro Silvares“ formando o “Ribeiro do Pego”.

Já cá viemos muitas vezes, mas é sempre um encanto apreciar a confluência destes cursos de água e a vegetação que se debruça sobre este vasto espelho de água.

Era chegado o tempo de partir, pelo que rumamos a sul, pela direita da casa florestal do Lajão, descendo sempre na proximidade do ribeiro do Pego até regressar à capela da Boa Viagem.

O final do dia foi em Perre, na “Tasca Zé da Ferreira”, onde para além dos muitos e bons “comes e bebes” houve ainda lugar à celebração do aniversário da companheira Maria das Dores e Augusta. Parabéns e muitos anos de vida!

Agradecemos finalmente toda a colaboração que o Carlos Rocha “Cocas”, nos voltou a dar em mais esta festança pelas terras de Perre.

Um Bom Ano de 20020 para todos!

José Almeida
Vianatrilhos
Recolha
Miguel Moreira
Vianatrilhos

Dados do percurso

Informação sobre os aspetos mais significativos:

Data2019-11-28
Hora de início09:03
Hora do fim16:27
Tempo total do percurso7h 23m
Velocidade média deslocação2,6 km/h
Distância total linear14,5 km
Distância total14,6 km
Nº de participantes27