2019-10-26 de Faria aos Moinhos de Paradela e Monte da Franqueira

Começamos na “Igreja de Santa Maria de Faria”, aldeia histórica para sempre ligada à trágica lenda do alcaide do Castelo de Faria, que corajosamente se sacrificou pela defesa da pátria lusitana. Deixou de ser freguesia e atualmente faz parte da União das Freguesias de Milhazes, Vilar de Figos e Faria.

Depois de alguma demora no arranque, seguimos para norte, passamos na “Casa da Memória das Terras de Faria”, espaço museológico de interpretação das ruínas do Castelo de Faria e da Estação Arqueológica subjacente, que não visitamos por estar encerada.

Cruzamos depois as estreitas ruas do povoado, tendo passado junto da “Capela de Santa Luzia”, antes de nos embrenhar em caminhos rurais que cruzam extensas e bem cuidadas explorações agrícolas, que evidenciam que a agricultura é ainda hoje um dos sectores que marcam mais forte presença nestas paragens. Já há muito que não víamos tantos campos tão bem trabalhados e cuidados, com uma terra escura que se adivinha rica e produtiva.

Seguindo o percurso, deixamos as terras de Faria e entramos na freguesia de Paradela, sempre ladeando os campos cultivados para mais à frente chegar aos “Moinhos de Paradela”.

Tirada a foto de grupo junto a um primeiro moinho isolado, fomos até ao “Parque de Merendas dos Moinhos” fazer uma primeira pausa para meter qualquer coisa à boca. Inaugurado em 2015 é um belo local de lazer e convívio, onde todos os visitantes podem usufruir de um espaço arborizado com infraestruturas bem cuidadas.

Mas havia que continuar, pelo que fomos ver o núcleo principal dos moinhos de vento de Paradela, em que apenas um está no estado primitivo, mas infelizmente já desprovidos do mastro e das suas velas triangulares, que em tempos já remotos moíam cereais, aproveitando a força dos ventos que aqui correm durante praticamente todo o ano.

Os outros três moinhos deste núcleo foram entretanto totalmente descaracterizados e transformados em residências para fins turísticos. De moinhos… apenas a lembrança dos tempos em que o cereal era assim transformado. É uma pena, pois apesar de bastante frequentes no território português, os moinhos de vento são já uma raridade, que merecia mais atenção para a sua preservação.

Regressamos por caminhos rurais às terras de Faria e já no interior da “Sancta Maria de Faria” passamos pela “Casa do Espigueiro”, interessante rica casa de lavoura com imponente espigueiro integrado na fachada principal, datada do início do Séc. XX.

Mais à frente, fronteiro ao “Cruzeiro Paroquial”, de alta coluna com capitel coríntio, datado de 1733, ergue-se o “Portal da Quinta dos Pedregais”, imponente pórtico estilo barroco joanino, encimado com o escudo com as armas em chefe dos Farias. Este pórtico fez parte do antigo solar dos Farias de Barcelos ou Alcaides de Faria.

Dessa nobre e antiga casa hoje já quase nada existe, apenas um pequeno terreno, ínfima parte da extensa Quinta dos Pedregais.

Depois de mais uma foto de grupo com o Portal dos Pedregais a servir de pano de fundo, fizemos uma pausa em frente do “Monumento aos Alcaides de Faria”, logo abaixo do escadório da pequena “Capela de Stº Amaro”, para decidir o que fazer, depois de acabado o percurso inicialmente previsto.

Como ainda era cedo, propusemos a continuação do percurso até ao Monte da Franqueira, para visitar o “Santuário de Nª Srª da Franqueira”,o “Castelo de Faria” e o “Castro de Faria” cercano.

Não houve unanimidade, tendo a maioria optado por fazer o percurso proposto e os restantes companheiros, optado por ir diretos para o monte da Franqueira, onde nos esperariam para continuar o programa.

Depois de breve reorientação tomamos a “Rua da Via Romana” e cruzamos a bom ritmo os vastos e férteis terrenos agrícolas deste vale. Seguimos para inicialmente para “Bouça-Milhazes” e depois infletimos para “Senra-Milhazes”, onde iniciamos a subida do “Monte da Franqueira”. Foi aqui que demos pela falta de dois companheiros, que se atrasaram e seguiram em frente começando a subida do caminho florestal de Bouça-Milhazes.

Os telemóveis entraram em ação e a coisa compôs-se mas… perdemos bastante tempo com o reagrupamento, o que veio a condicionar fortemente o horário para a pausa de almoço, prevista para o topo do monte da Franqueira. Recorda-se a regra principal de andar em grupo - Nunca perder de vista os companheiros da sua frente.

A subida do monte veio a revelar-se bastante difícil, quer pelo forte pendor, quer pela dificuldade dos trilhos florestais que se encontram muito degradados e com muita pedra solta, o que complicou muito a progressão. Mas lá fomos subindo sempre até atingir a Rua Senhor da Fonte da Vida e depois seguir para o Santuário de Nª Srª da Franqueira.

Após o reagrupamento com os companheiros que aí nos esperavam, fomos almoçar juntos no Parque de Merendas do santuário, onde fizemos a já tardia refeição nas mesas de pedra do merendeiro, desfrutando do tépido soalheiro outonal.
Depois do almoço, aproveitamos o miradouro frontal ao santuário para o também solene batismo dos companheiros Duarte Sá e Rui Silva, que se tornaram assim “Caminheiros Vianatrilhos”.

Seguiu-se a descida do Escadório do Santuário e uma demorada visita do “Castelo de Faria”, que remonta aos séculos IX a X, no contexto da Reconquista cristã da Península Ibérica e foi posteriormente palco de heroica resistência ao assalto das forças de Castela no Séc. XIV.

Conta a lenda, que num recontro com as tropas espanholas, um destacamento sob o comando de Nuno Gonçalves de Faria, alcaide do Castelo de Faria foi capturado. Com receio de que a liberdade de sua pessoa fosse utilizada como moeda de troca para a posse do castelo, guarnecido pelo seu filho, convenceu o comandante de Castela a levá-lo diante dos muros do castelo, a pretexto de convencer o filho à rendição, mas acabou por exortar o jovem à resistência, sob pena de maldição. Morto pelos espanhóis diante do filho, o castelo resistiu invicto ao assalto.

Com a ascensão ao trono da dinastia de Avis, o castelo perdeu as suas funções defensiva e administrativa, sendo progressivamente abandonado até se arruinar, sendo as suas pedras utilizadas na construção do vizinho Convento da Franqueira. Finda a visita ao Castelo, tivemos oportunidade de visitar também o “Castro de Faria”, que remonta a 3000 AC e teve diversas ocupações ao longo dos séculos seguintes.

Acabamos a visita à Franqueira com a deslocação ao “Convento do Bom Jesus do monte da Franqueira”, também conhecido como “Convento dos Frades”, fundado no início do Séc. XVI, pertencente à Ordem Terceira de Sº Francisco. O atual edifício data do Séc. XVIII e no interior da “Igreja do Senhor da Fonte da Vida” podem ver-se nas paredes um lavado de pedra, dois quadros com as imagens da Srª do Rosário e de Santo António, pintadas em madeira e o retrato do Marquês de Faria.

Depois da extinção das ordens religiosas, o convento passou para propriedade privada, que o adaptou recentemente a turismo de habitação, sendo a Igreja do Senhor da Fonte da Vida propriedade da paróquia de Pereira, que a mantem aberta ao culto.

E assim terminou um agradável dia de Outono nas terras dos Alcaides de Faria.

Desta vez não houve lanche, decorrendo o encerramento da jornada num jantar em Viana do Castelo, seguido de espetáculo no Casino de Afife - Concerto de Outono, com a atuação da Escola de Música do Centro Social e Paroquial de Nª Srª de Fátima, em que os nossos companheiros Aurora Novais e Manuel Rego evidenciaram os seus excecionais dotes musicais.
 

José Almeida
Vianatrilhos

A lenda do alcaide de Faria

Durante o reinado de Fernando I de Portugal (1367-1383), quando da segunda guerra com Castela, a fronteira norte de Portugal foi invadida.

As forças do soberano de Castela avançavam por Viseu rumo a Santarém e Lisboa, quando uma segunda coluna, vindo da Galiza penetrou pelo Minho.

Saíram-lhe ao encontro forças portuguesas oriundas do Porto e de Barcelos, entre as quais se incluía um destacamento sob o comando de Nuno Gonçalves de Faria, alcaide do Castelo de Faria. Travando-se o encontro na altura de Barcelos, caíram as forças portuguesas, sendo capturado o alcaide de Faria.

Com receio de que a liberdade de sua pessoa fosse utilizada como moeda de troca pela posse do castelo, guarnecido pelo seu filho, Gonçalo Nunes de Faria, concebeu um estratagema. Convencendo o comandante de Castela a levá-lo diante dos muros do castelo, a pretexto de convencer o filho à rendição, utilizou a oportunidade assim obtida para exortar o jovem à resistência, sob pena de maldição.

Morto pelos espanhóis diante do filho, pelo ato corajoso, o castelo resistiu invicto ao assalto. Vitorioso, o filho, tomou o hábito, vindo o castelo a ser sucedido por um mosteiro.

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Dados do percurso

Informação sobre os aspetos mais significativos:

Data2019-10-26
Hora de início08:55
Hora do fim15:38
Tempo total do percurso6h 42m
Velocidade média deslocação3,48 km/h
Distância total linear17,7 km
Distância total17,9 km
Nº de participantes24