2019-06-01 Margens do rio Tea

Muito calor!

Foi um dia impróprio para caminhar, com as temperaturas a superar os 35 graus centígrados, que desaconselhavam qualquer exposição solar, quanto mais caminhar debaixo de semelhante esturriqueira!

Mas como já estava marcada há muito… iniciamos esta nossa incursão em terras galegas em Ponteareas, junto da “ponte dos Remedios”, para subir o rio Tea, afluente do rio Minho até ao município de Mondariz, nas muito conhecidas “Posas de Tatin”.

A ponte dos Remedios, também conhecida como de Ponte de San Roque ou Ponte Velha, deve o seu nome à Virgem de Los Remedios, a muito venerada padroeira de Ponteareas.
Trata-se de uma construção medieval, que fez parte do antigo “Camiño Real” que unia Tui e despois Vigo com Ourense e Castela. Teria sido erigida sobre uma outra mais antiga, da época romana, por onde passava a Via XIX, do itinerário de Antonino Pío, que então ligava Bracara Augusta (Braga) com Asturica Augusta (Astorga).

Esta ponte está também na origem do nome do município de Ponteareas, localidade que surge nas imediações do Tea, sendo o seu nome proveniente da palavra ponte, e Areas, que é uma outra paróquia a que estava ligada por essa travessia.

Em Ponteareas tem lugar uma das festividades mais célebres da Galiza, o “Corpus Cristi”, em que a cidade é engalanada por belos arranjos florais, por onde passa a procissão de “Vila do Corpus”
Depois da manobra de deixar as viaturas no fim do percurso linear, começamos passando junto da capela dos Remédios, tomando de seguida a margem direita do Tea.

A primeira paragem foi na “Fabrica da lus”, antiga central de produção de energia de Ponteareas, para logo a seguir chegar à muito concorrida praia fluvial de “A Freixa”, muito procurada neste tempo de calor, em que muitos eram os banhistas que aproveitavam a presa das águas para se banharem nas frias águas do Tea.

A paragem seguinte foi junto a um bar defronte da praia fluvial de “Patacons”, onde metemos qualquer coisa à boca, pois o adiantado da hora exigia um reabastecimento, especialmente de água, já que o calor se fazia sentir bastante, embora o percurso tivesse decorrido quase exclusivamente pelas sombras da margem.

Um pouco mais à frente, junto ao cruzeiro do “Cristo de Pinón” deixamos a margem do rio, para cruzar o “rio de Bordén” na “Ponte da Macieira”, tendo de seguida retomado as margens do Tea já perto da praia fluvial de “Pias”.
Este bocado foi o menos interessante do percurso, já que fomos obrigados a deixar as margens do Tea e as suas sombras protetoras para tomar alguns troços alcatroados, pelo que seria de remodelar este troço, de forma a seguir sempre pela margem.

Continuamos a subida do rio pela margem direita, com o extenso campo de golfe de Mondariz-Balneário na margem oposta, seguindo-se o “Paseo de Trancoso”. Entretanto, a hora da refeição aproximava-se e eram já muitos os que pretendiam fazer a paragem, mas como era nossa intenção chegar à praia fluvial de “Mondariz-Balneário”, fomos atrasando a paragem e lá fomos andando sempre pelas densamente arborizadas margens do Tea até à ponte da Vilar.
0 Município de Mondariz-Balneário, com apenas 2,4 km2 é o mais pequeno de Espanha e foi desde tempos imemoriais conhecido pelas suas ricas águas termais, já exploradas pelos romanos, mas que teve o seu auge no final do século XIX e início do XX, como referência obrigatória de luxo e grandiosidade termal. Monariz-Balneario foi o local escolhido pelos conspiradores monárquicos, foragidos da nova república portuguesa que com o apoio das forças monárquicas galegas, perpetraram a contrarrevolução, que culminou com a breve instauração da Monarquia do Norte.

Depois de alguma indecisão quanto ao local do já tardio almoço, mudamos de margem para procurar uma fresca junto ao rio e aí fizemos finalmente a “merenda”. Isto de encontrar um local para os “comes” tem as suas coisas, pois uns queriam ficar junto ao rio, outros junto de um bar e casa de banho, outros preferiam uma margem, outros outra… Não é mesmo fácil agradar a todos!

Mas depois de começar a comer a coisa sossegou e até houve tempo para banhos, para celebrar condignamente o octogésimo aniversário da companheira Louise e para fazer o batismo de mais 5 caminheiros Vianatrilhos. Desta vez os eleitos foram os companheiros Luis Malheiro, Angelina, Teresa Cardoso, Fernanda Lima e Maria Martins. Os novos membros foram apadrinhados pela Manuela e Manuel Rego, mas a logística falhou, pois nem havia um cálice decente, nem liquido batismal em quantidade suficiente, pelo que a meio da cerimónia o precioso néctar faltou… tendo que se improvisar com uma taça de maduro tinto à falta do cálice do usual bagaço. Enfim… uma falha a vermelho para a organização destes importantes eventos. Na próxima teremos que repetir a parte do “bota abaixo”.

Retomar o ritmo da caminhada depois do almoço no pico do sol não foi fácil, mas não havia alternativa, pelo que regressamos à margem direita do Tea e retomamos a sua ascensão, sempre protegidos pela densa vegetação que nos ia protegente de um calor sufocante.
Passamos pela desembocadura do rio “Xabriña”, nosso conhecido de outras andanças, e alcançamos mais à frente a ponte pedestre metálica de “Almolares” e mais à frente, o pontão de madeira que cruza o rio “Aboaleira”.

Pouco depois, cruzamos a ponte lajeada de “A Poeira” que fazia a travessia de um antigo caminho pedonal de acesso a um velho molino, cujas ruinas ainda se podem ver na margem esquerda.

Seguiu-se a praia fluvial de “Mondariz”, com o seu merendeiro repleto de famílias a fazer os tradicionais Picnics e com muitos banhistas nas tranquilas águas do Tea. Foi no açude de retenção de águas que a custo fizemos a foto de grupo, já que os cansados participantes estavam mais interessados em ir para a sombra do que estar à torreira do sol para a foto. Alguns nem sequer se interessaram em olhar para o boneco!

pós esta curta paragem seguimos para a “ponte de Val” junto das instalações de engarrafamento das “Águas de Mondariz”, tendo continuado depois para a “ponte de Cernadela” também designada por “ponte de Cernarola”, que une as paróquias de Riofrío e Mondariz. Esta ponte tem uma história semelhante à da ponte dos Remedios, já que é também uma construção medieval construída sobre uma outra da era romana, daí o ser designada como ponte romana da Cernarola.

Tem esta ponte associada uma lenda popular, em que uma mulher em avançado estado de gestação se sentiu mal mesmo no meio da ponte e caiu inanimada sobre as suas lajes, não havendo força humana capaz de move-la do local. Perante tal situação foi chamado um velho ermita, que apanhou do rio água numa vasilha metálica e a derramou sobre o ventre da enferma, ao mesmo tempo que pronunciava “In nomine Patris, de Filie et de Spiritu Santi. Amén”. A mulher logo se reanimou, pondo-se em pé sem dificuldade e passados uns dias deu á luz um formoso menino, a que deu o nome de Cernadelo.

Este “milagre” teria dado origem às cerimónias de batismo no ventre das mulheres, pelo que estas no quinto ou sexto mês de gestação deviam ir à ponte de Cernadela à meia-noite, na lua nova, quando as noites estão escuras e levar uma caçarola e uma corda para apanhar água do rio.

Era ainda necessário levar muito que comer e beber e colocar o marido e familiares em cada um dos lados da ponte, para evitar a travessia de animais, que não podiam cruzar a ponte, sob pena de a cerimónia não ter qualquer valor. No meio da ponte, a grávida acendia um candeio para sinalizar que estava ali gente.

A primeira pessoa que passasse na ponte, teria forçosamente que batizar a futura criança ainda no ventre da mãe, apanhando água do rio com a caçarola para a derramar sobre a barriga da grávida, entoando o ritual do batismo cristão.

No fim do ritual, a futura mãe, marido, familiares e padrinho comiam e bebiam, deitando depois ao rio todas as sobras, caçarola, talheres, pratos copos, e restantes utensílios utilizados na cerimónia, sendo o “padrinho da ponte” convidado para apadrinhar a criança depois do parto.

Depois desta ponte de Cernadela em Mondariz não há mais travessias do Tea, pelo que seguimos sempre ao longo a margem na direção das poldras de Tatin, conhecidas como “Posas de Tatin”, que dão acesso ao moinho de mesmo nome, ainda em bom estado de conservação. É um troço particularmente interessante, com diversas pequenas praias fluviais, alguns moinhos e uma flora muito diversificada, agora carregada de tonalidades primaveris.

O Tea ia calmo e raso, pelo que a travessia pelas “ Posas” fez-se sem dificuldades, sendo a derradeira dificuldade a subida do ingreme estradão florestal para o local em que estavam as viaturas. Estavam assim cumpridos os quase 19 Km deste belo passeio pelas margens do Tea, num dia tórrido de Junho.

Houve ainda tempo para uma visita ao castelo medieval de Villasobroso, ou mais comumente “Sobroso”, que no alto do monte Landim, domina o vale do rio Tea. Foi construído sobre um antigo povoado castrejo, tendo a sua edificação remontado ao Sec XII. Por aqui se teria refugiado a rainha D. Urraca, cercada nesta fortaleza pela sua irmã, a infanta D. Teresa de Portugal, aliada aos partidários de seu filho D. Afonso VII. Diz a lenda que conseguiu fugir para Compostela por uma passagem secreta que ligava o castelo até à ribeira de Tea, em busca de ajuda do arcebispo Gelmirez para a reconquista da fortaleza.

Outra é a lenda do peregrino que muito doente foi recebido e bem tratado pelo Sr. D. Fiz do castelo de Sobroso e sua esposa. Doña Floralba apaixonou-se perdidamente pelo jovem peregrino e aproveitando uma ausência de seu suserano, atraiçoou-o. Sabendo do seu regresso próximo, fugiu apavorada com o amado peregrino para terras distantes. Cheio de fúria D. Fiz mandou queimar tudo aquilo que era pertença da sua amada e quando mais tarde esta tentou regressar ao castelo, por morte do doente peregrino, deixou-a à sua sorte no exterior da muralha, ordenando que ninguém lhe desse guarida até morrer. Cheio de ódio levou-a depois ao alto da torre de menagem e lançou-a ao precipício. Desde aí, nas noites de tempestade, pode ser visto um peregrino subir lentamente o monte de Landim e ouvidos os gritos lancinantes de Doña Floralba ao longo da muralha do castelo.

Pela sua situação privilegiada e dominante, este castelo recebeu o nome de "chave forte" (llave fuerte) do reino de Galiza, tendo sido ao longo da sua longa história palco de muitos conflitos de domínio territorial destas paragens fronteiriças.

Também nestas terras de Mondariz, já no século XIII, teve lugar perto de Sobroso o casamento entre o rei D.Dinis de Portugal e a Infanta D. Isabel de Aragão, contando-se que a Rainha Santa Isabel se deslocava depois frequentemente a estas paragens, para se banhar nas suas águas termais.

Depois da visita ao castelo, ainda pensamos ir ao Castro de Troña, no lado oposto do monte de Landim, para ver a povoação castreja que remonta ao Sec VI aC, o célebre petroglifo da serpente, ligado a sacrifícios rituais e a ermida do “Dulce Nombre de Jesús” com um belíssimo cruzeiro, mas como já era tarde, deixamos para trás estas belas terras galegas, para fazer uma paragem técnica no Café Capela em Dem, onde em ameno convívio aproveitamos a fresca da explanada para comer uns petiscos e beber um Champarrião com canela, que soube a céu.

 

José Almeida
Vianatrilhos

Dados do percurso

Informação sobre os aspetos mais significativos:

Data2019-06-01
Hora de início10:05
Hora do fim16:12
Tempo total do percurso6h 6m
Velocidade média deslocação3,69 km/h
Distância total linear18,92 km
Distância total19 km
Nº de participantes34