2018-05-19 Por trilhos da Serra Amarela

Lindoso - Travanquinha - Rebordo - Escaravilheira - Sobreira Quente - Tilheno

Começamos junto à igreja matriz do Lindoso, na proximidade do seu imponente castelo e interessante conjunto de espigueiros, encavalitados no penedio circundante.

Em posição estratégica da serra Amarela, sobranceiro a terras Galegas, este castelo medieval, mandado edificar por D. Afonso III, foi fundamental marco de soberania, sendo um dos mais importantes monumentos militares portugueses, nestas parcamente povoadas e distantes terras fronteiriças.

Reza a lenda que o rei D. Dinis quando o viu, logo após a sua reconstrução e reforço, “tão alegre e primoroso o achou, que logo Lindoso se chamou”

Atravessamos o casario granítico do Lindoso e rumamos ao vale do rio Cabril, contornando o “Couto da Cheira” até à corga da ribeira de Sardeira, tendo aí começado as dificuldades do dia. Até onde houve estradão a coisa correu bem, mas após chegar à captação de água da ribeira tudo mudou de figura, tendo o estradão desembocado numa muralha de pedras cobertas de líquenes, que não identificamos como caminho.

Após várias consultas ao mapa e GPS chegamos à conclusão que era mesmo o caminho previsto, pelo que “toca a subir” os penedos até atingir uma calçada que passava a nível superior, junto a um portão metálico perdido no meio do mato.

Aí a coisa melhorou bastante e lá fomos subindo a ribeira, desbravando a muita vegetação que se foi acumulando ao longo da calçada, tornando-a cada vez mais impenetrável, até que… não conseguimos progredir de todo, pois a calçada sumiu-se!

Mais uma conferência de mapa e GPS, concluindo-se que havia que voltar a trepar a escarpa para tentar chegar a outro carreiro que seguia a nível superior. Foi mais um esforço de subir a pés e mãos, agarrados às giestas e calhaus, trepando palmo a palmo até atingir uma bendita estreita calçada, por onde continuamos a destilar do esforço.

 

 

Quando julgávamos que não haveria mis contratempos, eis que a calçada volta a desaparecer no meio de vegetação totalmente serrada, obrigando-nos a infletir à esquerda atravessando a ribeira para a margem direita, já que aí a vegetação era mais baixa e possibilitava progressão.

Daí até ao “Forno da Messe do Testo” foi um saltinho, desfrutando de uma paisagem soberba sobre a albufeira do Lindoso e as serras circundantes, nomeadamente as Torres, Grande e Pequena (já por nós visitadas) à direita.

A Serra Amarela faz nesta altura jus a seu nome, já que os tufos amarelos das giestas difusos por toda a vegetação circundante dão um padrão colorido mesclado que lembra pinturas impressionistas, com as cores a modificar constantemente, dependendo da incidência da luz do sol.

Feita a necessária pausa, nova dúvida sobre o melhor caminho para subir para a Travanquinha. Depois de alguma discussão, já que havia opiniões diversas sobre o caminho a tomar, acabamos por seguir o guião do GPS e rumamos a corta-mato até atingir um estradão abandonado que nos levou ao “Forno da Travanquinha”, também já nosso conhecido de outras visitas ao Lindoso.

Cabe aqui referir que já em 2001 fizemos esta subida da ribeira da Sardeira sem grande dificuldade, hoje estas calçadas e caminhos estão quase totalmente intransitáveis, já que o abandono a que foram votados impossibilitam a sua normal utilização, tornando este troço inicial muito duro e mesmo desaconselhável.

Cansados e um pouco arranhados mas cheios de adrenalina, fizemos a pausa da refeição na relva do curral, tirando do descanso alguns garranos e seus potros que por aí descansavam.

Como foi péssima a progressão que conseguimos da parte da manhã, havia que tentar recuperar, pelo que a pausa foi breve e começamos a ascensão para o estradão florestal da Louriça, que nos levou até crista do Rebordo, já na proximidade do “abrigo do Rebordo Feio”.
Foi tempo da foto de grupo, com o tempo a escurecer ameaçadoramente, fazendo prever chuvada para breve, com a vantagem de refrescar o tempo que toda a manhã foi muito quente.

Se até aí se subiu a bom subir, chegou a hora de descer a bom descer, pelo que seguimos a corta-mato encosta abaixo, até atingir mais abaixo, no “Carqueijal” o estradão florestal Lindoso / Louriça, que seguimos até ao cruzamento de acesso à Chão do Couto, um pouco acima da “Cabana do Bogalhedo”.

Com o som distante dos trovões e umas fracas bátegas seguimos o estradão, tendo mais à frente saído do mesmo, tomado uma calçada que desce o vale em direcção de Parada, parando primeiro no “Forno da Escaravilheira”, onde reza a tradição os anciães sem préstimo eram levados para terminar os seus dias.

Diz o povo que nesses tempos difíceis, os velhos moribundos eram deixados à sua sorte neste fim do mundo, apenas com parca comida, seu cajado e uma manta, até que a tradição se perdeu quando um velho na hora de despedida disse a seu filho para guardar para si mesmo metade da manta, para que quando lhe tocasse a vez, ter com que se agasalhar.

 

 

Daqui continuamos a descida para o “Forno da Sobreira Quente”, onde fizemos nova paragem e como entretanto recuperamos algum do atraso matinal, se fizeram os prometidos batizados aos novos caminheiros que pela primeira vez integraram o grupo de veteranos.
Foi um momento alto para a Fátima, Diogo e Rebeca, que mereceram a elevada distinção de passar a integrar a elite de “Caminheiros da Vianatrilhos”, após a solene cerimónia batismal.

Finda a festividade, continuamos para mais abaixo infletir monte acima para cruzar para o vale da Ribeira das Mulas deixando para trás um interessante abrigo construído em torno de uma rocha, que domina a paisagem circundante.

Descendo novamente, cruzamos a ribeira das Mulas para a margem direita, seguimos por uma antiga levada para o “Forno de Tilheno”, onde a chuva voltou a fazer mais uma breve incursão, que todavia molhou as pedras da calçada, tornando-as mais traiçoeiras, pelo que foi com redobrado cuidado  vale abaixo na direção do Lindoso.

Contornamos o “alto do Peixarrão” e aos poucos começamos a divisar lá bem no fundo primeiro a aldeia de Parada” e depois, finalmente… o Lindoso, com o seu castelo em grande destaque, tendo ao fundo a grandiosa albufeira da barragem, na confluência do rio Lima com o rio Castro Laboreiro, com a aldeia de Paradela encimada com o “Alto do Porco” à esquerda e a galega Olelas com o “Cota da Pola” à direita.

Este ano a chuva permitiu o atingimento da cota máxima da albufeira, pelo que se esperam tempos menos gravosos com o verão que se aproxima.

No largo do Lindoso foi tempo de merecido descanso, após mais um dia na nossa serra Amarela. A manhã foi para os mais novos, que subiram sem problemas os carreiros e calçadas quase totalmente obstruídas, deixando para trás os veteranos ofegantes e queixosos das maleitas próprias da idade, tendo a parte de tarde sido mais consensual, permitindo gozar uma das mais belas e grandiosas paisagens do Alto Minho.

Nota negativa para o PNPG, já que a Porta do Lindoso está fechada aos fim-de-semana (!)

Havemos de cá voltar brevemente!

 

 

José Almeida
Vianatrilhos

 

Dados do percurso

Informação sobre os aspetos mais significativos:

Data 2018-05-19
Hora de início 09:34
Hora do fim 17:48
Tempo total do percurso 8h 14m
Velocidade média deslocação 2.10 km/h
Distância total linear 15,88 km
Distância total 16.22 km
Nº de participantes 21