2018-04-07 - De S. Pedro de Arcos a S. Lourenço da Montaria

S. Pedro de Arcos – Lanheses – Meixedo – Vilar de Murteda - S. Pedro de Arcos

 

 
Costuma-se dizer que “às três tem vez”, mas desta vez o ditado não se cumpriu.

Voltou a estar mau tempo no fim-de-semana, o que embora não inviabilizasse a prática da modalidade, desaconselhava caminhadas em alta serra, quer pela nebulosidade baixa, quer pela chuva e trovoada prevista para Arcos de Valdevez.

Ficou assim a ida à Picota de Frangoto mais uma vez adiada!

Face a mais este imponderável resolvemos fazer uma marcha na base da nossa bem conhecida Serra d’Arga, num trajeto circular que ligou o lugar do Trogal, da freguesia de S. Pedro de Arcos, concelho de Ponte de Lima, à freguesia de S. Lourenço da Montaria, concelho de Viana do Castelo, circundando o vale da ribeira da Silvareira.

A chuva, que fez por diversas vezes a sua aparição, não prejudicou a marcha que se desenrolou sem problemas, mas a forte nebulosidade era patente nas partes altas da serra, que permaneceram permanentemente ocultas por nuvens baixas, confirmando a sensatez da decisão de as evitar, permanecendo a cotas mais baixas.

Partimos do Trogal, seguindo pela margem direita das torrentosas mas límpidas águas da ribeira da Silvareira, seguindo sempre a meia encosta, acompanhando a trincheira de uma antiga captação de águas, com os moinhos das Regadinhas e da Silvareira do outro lado do vale.

As normalmente débeis linhas de água da vertente sul da Serra d’Arga estavam ontem engrossadas pelas fortes e persistente chuvadas, transformadas em possantes ribeiros que se precipitam em cristalinas cascatas serra abaixo.

Fomos assim distinguindo as ribeiras de Stª Justa, Meio, Fonte das Bestas e Grande que iam engrossando aos poucos o Regueiro da Outra Banda, transformando-o na caudalosa ribeira da Silvareira.

Embora inicialmente não estivesse previsto, como havia tempo de sobra e a chuva esporádica não fazia temer molhadela, resolvemos ir até S. Lourenço da Montaria.

A escolha revelou-se acertada, pois tivemos a sorte de poder visitar o Núcleo Museológico Moinhos de água da Montaria, recentemente instalado nas antigas instalações da escola primária da aldeia.

Visitamos o centro de interpretação deste núcleo, onde o Sr. Manuel Paula nos deu a conhecer melhor, as tradições e a vida de São Lourenço da Montaria e da Serra d’ Arga, nomeadamente do uso dos seus moinhos e de diversos objetos que caíram em desuso.

Foi com atenção que ouvimos detalhada explicação sobre o sistema de propriedade partilhada por “herdeiros”, que reparte a água por diversas famílias, criando fortes laços comunitários; sobre o “fole”, saco feito com a pele de cabrito que transportava o grão e a farinha do moinho; sobre a “farinha do pé da mó”, que servia de alimento aos recém-nascidos e sobre os diversos apetrechos dos moinhos que foram entretanto caindo em desuso.

Recorde-se que S. Lourenço da Montaria, com os seus 42 moinhos de rodízio simples, detém a maior concentração de moinhos de água no país, talvez devido ao elevado número de ribeiros e veios aquíferos, sendo a recuperação de 14 destes o motivo que levou à criação do Núcleo Museológico, que visitamos demoradamente.

Agradecemos ao Sr. Manuel Paula a disponibilidade e simpatia com que nos recebeu e pelas explicações que deu sobre os moinhos e as tradições deste povoado, que se chamou inicialmente de S. Mamede dos Pedrulhos, talvez pelo sítio de pedregulhos em que se situa, passando depois à designação de São Lourenço de Breteal, tomando o nome da do alto da serra d’Arga sobranceira, tendo finalmente, já no século XIV, adotado a designação atual de S. Lourenço da Montaria.   

A fotografia de família foi tirada nos Massadoiros de Linho do largo do Souto, que testemunham uma das mais trabalhosas fases da confeção do linho - O “bater” o linho.
Por trás da igreja fomos ao Calvário apreciar e “medir” o secular sobreiro, que com os seus quatro seculos assistiu serenamente ao quotidiano desta distante comunidade rural, perdida nas franjas da Serra d’Arga.

Encetamos o regresso passando pelo interessante conjunto dos moinhos da Costa (Pequeno, Sapato e Grande) e deixamos a Montaria, tomamos a margem esquerda do Regueiro da Outra Banda, descendo lentamente pelo estradão florestal, na direção do Trogal.

Numa das voltas do estradão, aproveitamos o socairo para fizer a pausa de almoço. Para além dos "comes" e do descanso houve ainda tempo para o batismo de mais dois novos caloiros Manuel lima e Claudina Teresa Trigo, que assim se tiveram a honra de se tornar “Caminheiros Vianatrilhos”.

Finda a cantilena e bebida a “água benta” continuamos o percurso na direção do moinho da Silvareira, tendo feito um desvio até à confluência do Ribeiro das Bestas com o da Silvareira. É talvez o troço mais interessante de todo o percurso, com uma vista privilegiada sobre o ribeiro, tendo tomado o leito da levada que fornece a força motriz ao moinho.

Depois das últimas fotos voltamos ao estradão florestal, passando junto ao moinho das Regadinhas, pouco antes de regressar a Trogal.

O dia até começou mal, com má cara e chuva ameaçadora, mas o remate em Ponte de Lima foi em beleza, com panados e arroz de feijão, regados a verde branco fresquinho, que retemperou forças e abriu espaço a mais duas de conversa.

José Almeida
Vianatrilhos

 

Dados do percurso

Informação sobre os aspetos mais significativos:

Data 2018-03-24
Hora de início 08:57
Hora do fim 15:39
Tempo total do percurso 6h 42m
Velocidade média deslocação 3.20 km/h
Distância total linear 15,53 km
Distância total 15.72 km
Nº de participantes 17