2017-11-04 Trilho do Carvalhal do Trovela

Marcha de S. Martinho

Serdedelo - Gondufe - Beiral do Lima -  Boalhosa - Ribeira do Neiva - Serdedelo

 

Desta vez, o ponto de encontro foi no Filadelfia face às obras de pavimentação da rotunda dos Capitães de Abril. Daí abalamos para Ponte de Lima onde nos esperavam alguns companheiros, seguindo finalmente para Serdedelo, onde teve início o percurso escolhido.

A escolha recaiu no Trilho do Carvalhal do Trovela, percurso da responsabilidade da CM de Ponde de Lima que partindo do depósito de água de Cerdedelo, circunda o belíssimo vale do rio Trovela, passando pelas freguesias de Serdedelo, Gondufe, Beiral do Lima, Boalhosa e Ribeira do Neiva.

Lamentavelmente, este percurso não tem sinalização adequada, pois embora exiba aqui e ali umas setas coloridas, não cumpre minimamente com sinalética de pequena rota que deveria exibir, já que se trata de um percurso promovido por um município.

As Camaras Municipais deveriam levar mais a sério a divulgação destes percursos e disponibilizar para além do respetivo desdobrável, a conveniente sinalização do percurso e a disponibilização do track para um correto acompanhamento por GPS. Há muito ainda que melhorar neste capítulo.

Mas pelas 09 horas lá começamos a subida para o já nosso bem conhecido santuário em honra de S. Lourenço, advogado das dores de dentes, situado no cimo do monte da Armada, freguesia de Serdedelo.

A subida foi agreste, mas as vistas para o vale do rio Trovela, encimado pelas aldeias da Armada e Boalhosa e rodeado pelo denso carvalhal, pagou bem o esforço despendido.

Após pausa para descanso e contemplação, seguimos para a Armada, onde fomos tomar o cafezinho matinal, descendo de seguida para as capelinhas de Stº António e Srª da Conceição e continuando na direção da Boalhosa.

Neste troço não seguimos o percurso original, preferindo um trilho já nosso conhecido que percorre mais abaixo o carvalhal que separa as duas freguesias, tendo desembocado na Boalhosa bem defronte da igreja paroquial desta aldeia serrana que dista mais de 11 Km da sede do concelho.

Feita curta pausa, iniciamos a descida pelo denso carvalhal do Trovela, com suas tonalidades matizadas dos amarelo e verdes claros aos vermelhos e castanho escuros, comuns desta época outonal, tendo especial cuidado com o apertado e escorregadio trilho que serpenteava a ingreme encosta.

E foi com alguma dificuldade que encontramos uma clareira para fazer a pausa para a refeição, mas lá conseguimos “montar a banca” numa encosta debruçada sobre o vale, aberta por incêndio que felizmente se não propagou, pelo tipo de vegetação circundante que limitou os estragos a algumas austrálias mirradas pelo fogo.

Repostas as forças, continuamos a ingreme descida até à ponte do Trovela, onde chegamos com alguns escorregões e tropeços, felizmente sem consequências, tendo depois seguido o estradão florestal que por denso carvalhal nos devolveu ao ponto de partida.

Chegamos mais cedo que o previsto, pelo que fizemos um compasso de espera antes de seguir para Cepões, onde festejamos este dia de S. Martinho em animado repasto, que serviu também para celebrar o batismo dos novos caminheiros, Hernâni Dantas, Julles Bedenne, Sacha e Ana Rodrigues.

 

José Almeida
Vianatrilhos

 

Ponte de Lima - S. Lourenço da Armada

0 mais celebrado santuário Limiano em honra de S. Lourenço está situado no concelho de Ponte de Lima, no picoto do monte da Armada, pertencente à freguesia de Serdedelo.

A capelinha é das mais simples, pequeninas e humildes que conceber se possa: apenas quatro paredes com uma porta de entrada que olha para o poente. No exterior, as paredes sobem com o perpianho em parapeito acima do cume do telhado, para que as ventanias não destelhem o templosinho. Da banda do norte e do sul, gárgulas rudes servem de escoante às águas pluviais. Dentro, não tem retábulo nem coisa nenhuma onde os olhos se distraiam. Só uma mesinha de pedra sobre a qual estão as imagens de S. Lourenço e de S. Braz, imagens modernas e encarnadas por qualquer santeiro barato de Braga.

De Ponte de Lima vai-se lá acima, agora, por estrada municipal. Sobe-se por S. Bento da Arca, Serdedelo fora e, a dois passos da Boalhosa, há que deixar o automóvel e empreender, a butes, a íngreme subida para a capela. Muitos romeiros sobem pelo caminho da Poça do Confurco, topónimo de que já falam as Inquirições.

Este senhor S. Lourenço tem veneração muito antiga, muito pegada e muito séria: É advogado contra as dores de dentes. E acorre lá o povoléu de cinco concelhos: de Viana, de Ponte, dos Arcos, da Barca e de Vila Verde. A ermida levanta-se, como disse, no coruto da Armada, no meio de grandes afloramentos graníticos que cercam um grande castro de que se vêm nitidamente três ordens de muralhas.

Como castro este é até o melhor e mais claro de todos os do concelho. O caminho que vem da Boalhosa deve cortar precisamente a primeira e mais exterior das muralhas, por uma das portas da antiga povoação. A romaria realiza-se em 10 de Agosto.

As principais promessas cumprem-se antes do nascer do sol. Assim, desde o final da véspera, o adro era já um arraial e não faltavam lá toldos e mais toldos, abrigando pipas, mantimentos e refrescos. Neste ano de 1967, ao começo da tarde, os caminhos ainda formigavam de gente. Famílias inteiras alapavam-se nos penedos, saboreando os farnéis e gozando o panorama, na verdade muito digno de ser admirado. Via-se de lá, para o sul, o alto do Ural e o talvegue do Trovela que nasce ali pertinho, a aldeia da Boalhosa e os lugares do Guatinho e Lagoa, que já pertencem a Vila Verde. Para poente todo o vale do Lima desde a curva de S. Gonçalo até o próprio mar oceano que espelhava 1á ao fundo, sobre a linha recta da ponte de Viana. Para nascente, as folhas das aldeias da margem direita do Lima, até Padreiro e ao fundo, dosselando o horizonte, as serranias austeras da Penada.

Outros grupos de romeiros abrigavam-se à sombra dos penedos porque, na verdade, o sol causticava e não estava para graças. Aqui e ali não faltavam também os últimos garranos lindamente ajaezados, dos lavradores mais lonjanos de Boivães, de Fonte Coberta e da Labruja, que ainda vão a S. Lourenço à maneira tradicional de seus avós.

Uma tocata: gaita de foles, flauta, bombo e caixa alegrava o ambiente. E era tudo ...

Onde estavam as herdeiros da arte de tocador de harmónio que foi o Lino do Sôrro e do cantador António do Preiro, sempre de indumentária original?

Penitentes havia - mulheres - que cumpriam dolorosamente o duro voto de andar de joelhos em volta da capela, no meio de todo aquele povoléu.

A ermidinha estava cheia de devotos. A imagem de S. Braz mostrava-se adornada com duas espigas de milho branco. A de S. Lourenço com outras duas espigas brancas, num cacho de uvas brancas e um cravo vermelho. Junto de cada uma, sua salva repleta de moedas. Um dos festeiros, afanosamente, fazia trocos e vendia registos.

Os romeiros deitavam a esmola, levavam um registo (havia-os de dois tipos: grandes e pequenos, conforme o formato do papel, mais ou menos enfeitados de vinhetas tipográficas a enfeitarem a mesma reprodução zincografadas do santo) e beijavam os pés e as mãos das imagens. Ao lado das ofertas, havia alguns sacos de sal, umas dúzias de telhas, ovos e dois molhos de cravos vermelhos. As telhas eram velhas e algumas estavam embrulhadas em papel de jornal.

Outrora esta romaria - ainda há 30 anos a esta parte - era muito afamada por zaragatas e pancadaria chegando, urna vez, a postar-se lá uma força de Infantaria 3 para manter a ordem.

Qualquer pendência que se esboçasse nas feiras de Ponte acabava sempre do estribilho tradicional:

— Pr'ó S. Lourenço! ...

E, de facto ali se apresentavam, muito pimpões, os melhores jogadores de pau das redondezas.

E consta, até, que os da Boalhosa se apresentavam de cabeça atada porque, na verdade, quando lhes abriam ao verde (diziam eles) nada incomodava mais os batalhadores do que o sangue escorrer pela testa e a inundar os olhos ...

São ainda rememorados os feitos homéricos dos lódãos do Martinho Carvalhosa, dos Coutinhos da Boalhosa, do Travisselas e os manejos traiçoeiros da faquinha do João da Carpintaria, descendente do antigo carrasco do Couto de Gondufe, que aproveitava sadicamente a confusão e, pela calada, punha as tripas ao sol a gregos e a troianos ...

Onde isso tudo já vai! ...

Perto da capela, no pendor do lado norte, corre ainda uma fonte de água puríssima.

A bica está no assento duma grande pedra, semicircular e recentemente branqueada a cal onde se vê relavada uma cruz que no sopé tem gravada a data de 1754 e ainda a inscrição: g M F M L A N T que interpreto assim: QUE MANDOU FAZER MANUEL ANTONIO.

Outrora estes montes eram célebres pela sua fauna selvagem.

Desapareceu já o gado bravo do Couto de Gondufe, de que fala o padre Carvalho da Costa na sua Corografia; mas ainda há lobos e javalis pelo Ural. De caça miúda não faltam perdizes vermelhas e coelhos.

O Sr. Alexandre Amorim matou, há anos, por ali um mocho branco que não tinha os olhos vermelhos dos albinos, bem como um corvo com a penugem três quartos de um branco sujo.

 

recolhido em obras diversas

 

Dados do percurso

Informação sobre os aspetos mais significativos:

Data 2017-11-04
Hora de início 09:08
Hora do fim 14:25
Tempo total do percurso 5h 16m
Velocidade média deslocação 2.95 km/h
Distância total linear 12.02 km
Distância total 12.17 km
Nº de participantes 34