2017-02-11 Pela cumeada da serra de Perre

Outeiro - Nogueira - Perre - Santa Marta - Samonde - Cardielos

 

Desta vez o percurso era linear, pelo que havia que deixar viaturas em S. Silvestre, antes de rumar ao início, junto á capela de S. Miguel, em Outeiro.

O início foi um pouco atribulado, pois um desentendido levou-nos a encurtar o percurso previamente traçado, pois estava previsto subir a serra de Perre mais a norte, por Valadares, mas acabamos por tomar o caminho de Vilares, mas não sendo o percurso previsto, acabou por nos proporcionar uma paisagem alargada para o vale do ribeiro de Outeiro, que mais abaixo se vai chamar de Portuzelo, que corre na confluência da serra de Santa Luzia com a da de Perre, antes de se alargar no encontro com o Lima.

A subida foi prolongada mas moderada, sendo cada vez mais visível a desolação que os incêndios florestais causaram à outrora verdejante mata de pinheiros e eucaliptos, que agora não passa de terrenos calcinados e escorridos pelas chuvas.

Uma verdadeira desolação, que faz pensar o desinteresse a que é votada esta nossa riqueza florestal, dizimada ano após ano pela incúria de alguns e interesse inconfessável de outros, empobrecendo-nos e destruindo um património, que é de todos.

Deixada a zona ardida continuamos para a cumeada da serra. Aí a vegetação torna-se cada vez mais escassa, e atingido a crista, começamos a divisar os dois lados da serra de Perre/Nogueira, alcançando pela primeira vez o extenso e fértil vale entre a Serra d’Arga e a de Perre.

As vistas eram então para os dois lados da cumeada, o que tornou a progressão mais interessante, pois passamos a abarcar para além dos dois vales adjacentes, também o majestoso vale do Lima, com Viana do Castelo encaixada no sopé de Santa Luzia, banhada pelo Lima e com a imensidão prateada do mar, a servir de pano de fundo.

É realmente um cenário a não esquecer!

Muitos conhecem a inolvidável paisagem de Santa Luzia, mas só muito poucos privilegiados tiveram o ensejo de ver este novo angulo sobre o Vale do Lima, em todo o seu esplendor, que nos serviu de enquadramento para a costumeira foto de grupo.

O local escolhido foi o alto da Aguieira, onde ainda existem vestígios de ocupação humana da Idade de Ferro.

Continuamos pela cumeada, para depois iniciar uma descida por uma calçada semidestruída, que desce vertiginosamente para o lado de Nogueira. A descida foi dura, pois para além do elevado pendor, a calçada deu lugar a um amontoado de grandes calhaus, que mos obrigava a um corta mato de contínuos ziguezagues, por entre os amontoados das enormes pedras.

Na descida tivemos a oportunidade de apreciar uma das muitas escombreiras de extração de minério, bem visível nos veios de quartzo em que estas paragens são comuns. A serra de Perre teve no início do século passado várias extrações de Volfrâmio, destinado principalmente ao fabrico de munições de artilharia, das grandes guerras que assolaram a europa.

Chegou entretanto a hora de almoço, pelo que fizemos a paragem junto a uma pequena ribeira, onde para além do reabastecimento, teve lugar a cerimónia de batismo de mais três novos companheiros. Desta vez a honra coube a Alexandra Soares, Jorge Carvalhido e ao Luís Carvalhido, que receberam os votos ao som da sacra ladainha, “Arriun Porum Bota Abaixorum - Amem”, tornando-se assim membros efetivos do Grupo de Montanhismo de Viana do Castelo – Vianatrilhos, com a pesada responsabilidade que esta distinção acarreta aos caloiros.

Continuamos a descida, para depois infletir à direita, contornando o sopé da serra de Perre, seguindo os velhos aquedutos de captação de água de Nogueira, optando depois por seguir por uma antiga e escorregadia calçada, que nos levou a passar na Portela até junto da ribeira de Samonde, que proporcionou acrobáticas escorregadelas e mesmo algumas quedas, felizmente sem consequências.

Mas não havia tempo a perder, pelo que continuamos pelo estradão de Samonde, infletindo desta vez à esquerda, para iniciar a ascensão final ao santuário de S. Silvestre.

Isto de deixar subidas destas para o fim dos percursos devia ser proibido!

Ninguém quis dar parte fraca, mas… a coisa esteve difícil para todos… e a subida final fez mesmo mossa entre os voluntariosos caminheiros.

Estava ainda prevista a visita ao Castro de S. Silvestre, um pouco acima do santuário, mas já era tarde e como havia que subir ainda mais… ficamos mesmo por aí.

No final havia que recuperar energias, pelo que rumamos por Perre novamente até Outeiro, onde nos esperava um Pica no Chão, no café do Paço no lugar de Outeirinho.  Apetite e sede não faltavam, o presigo estava bem confecionado e apetitoso, o vinho também não faltou… pelo que o resultado final foi uma refeição de truz.

Parabéns aos companheiros Miguel, Rego e Armando que exploraram e definiram o percurso, e ao Carlos Rocha pela escolha gastronómica, que finalizou em beleza esta excelente jornada. 

José Almeida
Vianatrilhos

Serras de Perre e Outeiro

Entre as serras de Perro e de Stª Luzia está o vale dos ribeiros de Portuzelo-Outeiro e de Stª Martinha. Dos dois, este é o de maior extensão.

O ribeiro de Stª Martinha é formado por vários braços que nascem na serra de Perre e dos quais se destacam os ribeiros do Pisco e de Samonde. Corre, na maior parte da sua extensão, em terrenos silúricos do tipo xisto-granítico os quais ocupam uma parte considerável do lado mais meridional da serra de Perre e vale subjacente pertencente às freguesias de Serreleis, Stª Marta de Portuzelo e Perre. 

É, na maior parte da sua extensão, um vale amplo e aberto, com os terrenos que marginam o seu leito formados por aluviões recentes. Depósitos plistocénicos, com alturas compreendidas entre os 15 e os 25 metros, aparecem na confluência desta com o ribeiro de Portuzelo-Outeiro e nas imediações do Lima.

Muito mais extenso, sinuoso e alveolar e o vale do ribeiro de Portuzelo Outeiro. Corre, tal como os demais, transversalmente ao Lima e na maior parte do seu curso, encaixado entre as serras de Perre, a Nascente, e a de Stª Luzia, a Poente. A Norte liga, naturalmente, através da portela da Costa (freguesia de Outeiro), ao vale do ribeiro da Paradela, subsidiário do rio Ancora.

É, no seu curso superior, um vale típico de zonas serranas. Os campos, em socalcos, cujas terras foram arrastadas das cumeadas e das vertentes dos montes, formam as zonas mais férteis, principalmente junto das linhas de água. Tal situação predestinou, bem cedo, o vale para uma agricultura de tipo minifundista, com realce para o cultivo do milho e das pastagens, dada a fartura de águas e a razoável qualidade do solo.

No curso inferior a situação é bem diversa.

A partir da portela de Perre o sistema montanhoso perde a agressividade que o caracteriza, a ponto de permitir a fusão com o vale do Lima, resultando daí, uma área suficientemente ampla, ponteada de pequenas elevações e onde se instalaram as freguesias de Perre, Stª Marta de Portuzelo e Meadela.

É. neste quadro de montanha, onde abundam as águas, os pastos e o minério de estanho que os habitantes da Idade do Ferro ergueram alguns dos seus «habitats». Estes situam-se em pontos chaves da serra de Perre, caso dos castros de S. Silvestre e S. Martinho, de que já, tratamos, e o de Amonde que fica já na bacia do rio Ancora, ou então escalonam-se ao longo das vertentes do vale do ribeiro de Portuzelo-Outeiro, caso do «habitat» do Monte dos Castelos e o de Vieito, este situado já na encosta da serra de Stª Luzia. Muito perto dos campos está o castro do Calvário. Confundindo-se com eles, estão o Rego do Crasto e o Castelhão, estes, muito possivelmente, erguidos já na romanização.

A serra de Perre ergue-se a W/SW da serra de Arga, com o seu ponto mais alto na Aguieira, onde existiu outrora um povoado da Idade do Ferro, fortemente romanizado e, mais tarde, o castelo-cabeça da Terra de S. Martinho.

Entre as duas serras encontra-se a mais larga depressão existente na bacia Norte do rio Lima, região onde se implantaram as freguesias de Fontão. Lanheses, Vila Mou. S. Salvador da Torre, Nogueira, Meixedo, Vilar de Murteda e parte de S. Silvestre de Cardielos.

É um vale amplo, aberto, nas imediações do Lima e que assim continua até alturas de Vilar de Murteda, onde aperta, para, em Amonde, fazer a ligação ao vale do rio Ancora, estreito, sinuoso e encaixado até perto da foz.

Geologicamente é uma depressão formada por aluviões provenientes das formações silúricas, onde se intercalam quartzitos e depósitos plistocénicos, com alturas que variam entre os 5/10 e os 60/70 metros.

Como resultado do alto grau pluviométrico e do inclinado das vertentes das serras, surgiram, por todo o vale, uma série de linhas de água, de pequeno caudal, que vem desaguar no Lima. São elas o pequeno ribeiro formado pela junção das águas dos regatos de Muragalhos e Silvareira que descem da serra de Arga; o rio Tinto que serviu o complexo mineiro de Mamede/Vila Mou e que é formado pelo ribeiro de Golada que nasce no Poço Negro e pelo ribeiro das Sapeiras. A Oriente corre o rio do Seixo e seu subsidiário Areeiro e a ribeira de Nogueira que, tal como os seus vários regatos, nascem na vertente ocidental da serra de Perre.

Economicamente foi e é uma zona promissora Para, além da agricultura que continua a ser principal fonte produtiva, a atividade mineira teve larga implantação no vale e suas encostas. Para isso contribuiu a natureza silúrico-quartzítica do solo e a existência de água em quantidades consideradas suficientes, para que pequenas explorações se tivessem multiplicado, em momentos de grande procura de estanho e de Volfrâmio.

 

Carlos Brochado de Almeida - FLUP
Proto-História e Romanização da Bacia Inferior do Lima

 

Dados do percurso

Informação sobre os aspetos mais significativos:

Data 2017-02-11
Hora de início 09:29
Hora do fim 15:55
Tempo total do percurso 6h 25m
Velocidade média 4.2 km/h
Distância total linear 13.7 km
Distância total 13.9 km
Nº de participantes 24