2017-01-21 Trilho dos Sobreiros

PR 23 - Câmara Municipal de Viana do Castelo

 

Às 09:30 estávamos defronte da Capela de Santa Ana, em Carvoeiro, para fazer o PR23 – Trilho dos Sobreiros, da responsabilidade da Câmara Municipal de Viana do Castelo, inaugurado no passado Dezembro.

O dia estava excelente para a caminhada matutina, com o tempo seco e com o sol a aquecer uma bela manhã de Inverno.

Seguimos por entre campos agrícolas até cruzar o rio Covo e depois subir para o Castro de Alto dos Mouros, castro quase rodeado por um ribeiro (rio Covo) e complementado por um fosso cavado na rocha e muralha pétrea, onde são visíveis vestígios de muros de perfil retilíneo.

Depois de uma prolongada paragem, seguimos para o Parque de Valinhas, espaço muito aprazível, com uma fonte, lago e mesas para picnic protegidas por frondosa vegetação. Debaixo de uma dessas mesas está uma mamoa do período Megalítico. Estrutura apenas percetível por "montículo" que cobre a câmara funerária.

Após mais uma breve paragem, retomamos a marcha subindo a Serra da Padela, na direção de Stª Justa.

Passamos entretanto ao largo da célebre "Lage Negra", imponente maciço rochoso granítico que nos desafiava à escalada, mas… não tínhamos tempo… nem pernas... para tamanho desafio, pelo que contornamos o obstáculo e subimos, a bom subir, para o miradouro da Padela, ponto mais alto do percurso com extensa paisagem para o vale do rio Neiva.

A pausa serviu para meter qualquer coisa à boca e para a tradicional foto de grupo.

Chegados à Capela de Santa Justa, advogada dos males da pele, perdida no cimo da Serra da Padela, tivemos o ensejo de fazer nova pausa e apreciar as vistas.
Ainda era cedo para o almoço, pelo que resolvemos continuar descendo na direção da Vacaria, antiga branda do convento de Carvoeiro, fazendo a pausa de almoço à frondosa sombra dos seculares sobreiros do adro da capela da Senhora de Lourdes, com vistas magníficas para os encavalitados socalcos ainda trabalhados e sobre o majestoso vale do rio Lima.

Depois dos comes e do abastecimento no pequeno fontanário com água fresca, subimos pela "Calçada Nova", caminho florestal de acesso à serra, revestida a pedra de granito por onde passava toda a atividade florestal, patente nos fundos sulcos abertos na pedra pela passagem dos muitos carros de bois.
Na subida, atravessamos um denso montado de sobreiros adultos que deu nome a este percurso, tendo feito de seguida um pequeno desvio até ao “Penedo da Maria Coxa ou Maria Pomba”, esculpido com uma ponteira romba por Maria “Pomba”, fazedora de vassouras de giesta e artista popular, que esculpiu várias estátuas de pedra e madeira, algumas encomendadas pelo clero para as capelas e igrejas locais. O nome de “Pomba” atribui-se a trazer sempre consigo uma pomba branca, que alegava ser a imagem do Espírito Santo. À sua morte diz-se que todas as pombas do vale do Neiva seguiram uma claridade, que era a alma de Maria Pomba, elevada ao Céu no meio de uma multidão de anjos.

Regressamos à calçada, chegamos pouco depois a Carvoeiro e visitamos o convento Beneditino de Santa Maria de Carvoeiro, que no latim se denominava Sancte Marie de Carbonário, onde nos foi facultada a entrada, tendo as responsáveis pela decoração da igreja a amabilidade de nos dar breve explicação dos santos expostos, bem como do que mais importante que interessava ver.

Foi assim que, após visitar a igreja paroquial dedicada à Nossa Senhora de Ó, visitamos a sacristia e saímos para apreciar a sepultura do Abade Santo - D. Pedro Afonso, no pátio exterior da sacristia da Igreja, debaixo de um arco de pedra com um curioso buraco escavado no túmulo, que “manda a devoção do povo tirar terra, e lançar ao pescoço, como remédio contra maleitas”.

As maleitas não sei se cura, mas o que nos curou a sede foram as apetitosas tânjaras, das árvores de fruto do pátio, que serviram de aperitivo ao lanche ajantarado que se seguiu na Tasca da Alice, nas Neves, onde nos aguardava uma bem servida tripalhada, que nos retemperou as energias despendidas com mais esta animada jornada.

José Almeida
Vianatrilhos

Trilho dos Sobreiros - PR23 - Descrição

O "Trilho dos Sobreiros" é um percurso pedestre de pequena rota, integrado na rede municipal de percursos pedestres de Viana do Castelo. Localizado na área florestal da freguesia de Carvoeiro, em plena Serra da Padela, o trilho pretende mostrar a riqueza paisagística, arqueológica e patrimonial da freguesia. O seu percurso é circular e tem uma extensão de 13.5 Km.

O trilho inicia-se junto à escola do 1.° ciclo do ensino básico de Carvoeiro e à Capela de Santa Ana, em pleno centro da freguesia.

Depois de subir as escadas que dão acesso ao adro da capela, o trilho segue para poente seguindo o cominho em terra batida. Por entre campos agrícolas, e já na parte final da povoação, entramos num percurso junto ao rio que nos leva a uma represa de água, com capacidade de armazenamento de 800 m3, usada para regadio e que no verão é multo utlizada para banhos. Continuando para norte, e entrando já na área florestai, subimos pela Estrada da Vacaria e cerca de 200 metros depois entramos à direita numa área de pinheiros e sobreiros que nos leva até ao Castro do "Alto dos Mouros", povoado fortificado de pequena dimensão cuja ocupação data de finais da Idade do Ferro e Romanização.

Continuamos no caminho florestal, agora para poente, e chegamos ao "Parque de Valinhas", espaço de recreio e lazer com um lago com peixes, um fontanário, mesas e toda uma envolvente preparada para um passeio descontraído.

Cerca de 100 metros mais para poente encontramos uma mamoa do período Megalítico. Esta estrutura é um pequeno "montículo" artificial-que-cobre ume-câmara funerária, na maioria dos casos delimitada por uma estrutura arquitetónica denominada de anta ou dólmen. De regresso ao trilho avançamos para norte, passando por nova zona de sobreiros adultos e viramos à direita até à estrada de alcatrão.

De seguida, viramos à esquerda para sairmos logo a seguir, novamente à esquerda, até chegarmos à "Lage Negra", imponente maciço rochoso granítico. Avançamos para norte por um vale até chegarmos ao ponto mais alto do percurso (462 m) para desfrutar de uma magnífica paisagem sobre o vale do rio Neiva. Continuando, agora para leste, chegamos à Capela de Santa Justa, pequena ermida situada no coração da Serra da Padela, onde podemos admirar as magníficas paisagens a sul e a nascente da serra. Santa Justa é advogada dos males da pele e a sua romaria realiza-se no último fim-de-semana de agosto.

Continuando o percurso chegamos ao Lugar da Vacaria, comunidade rural de montanha com belas paisagens sobre o vale do rio Lima. Seguimos para nascente e, depois de deixarmos o casario, entramos novamente na floresta onde começamos a descer em direção a uma represa de água de apoio ao combate a fogos florestais.

Da represa subimos na estrada florestal à sua esquerda e no final da subida saímos à direita para iniciarmos um percurso único pela "Calçada Nova", principal estrada florestal, até meados do século XX, toda revestida a pedra de granito por onde passava toda a atividade florestal.

Sensivelmente a meio do percurso podemos observar uma enorme mancha de sobreiros adultos. Saindo do percurso, e a 250 metros para nascente, podemos observar as imagens esculpidas em penedos por uma residente, realizadas na década de 1930/40 com o auxílio de picos.

Retomando ao trilho, e chegados ao final da "Calçada Nova", viramos à esquerda e, de regresso à área urbana, seguimos à direita para sul pela Rua do Outeiro até ao Largo dos Carvalhos.

No final da Rua Luísa Monteiro voltamos à esquerda para a Rua de Armães e seguimos pela Rua da Costa em direção ao Mosteiro Beneditino. O mosteiro existe desde tempos imemoriais e a última reconstrução data de 1704-1707.

De seguida entramos na Rua de Fontes e regressamos ao ponto de partida, junto à escola.

Passos de Memória

 

 

Mosteiro Santa Maria de Carvoeiro

Em Carvoeiro existiu um mosteiro beneditino, já documentado em 1129, de que nos resta a igreja e a parte residencial construída pelos meados do século XVIII.

Refira-se que a primeira menção explícita à regra de S. Bento , em território portucalense data de 959, mas esta só começa a ser observada, provavelmente a partir de 1085-1095, com a chegada dos monges de Cluny.

Este templo beneditino foi reformulado em 1704 e no seu interior espaçoso podemos apreciar um grandioso retábulo do altar-mor, em estilo nacional e dessa época. Localizado numa rechã, entre montanhas, onde outrora a pastorícia tinha áreas largas, tudo indica que a criação de gado tenha sido a principal fonte de rendimentos. O atual lugar, serrano, da Vacaria parece ter sido outrora uma simples branda do mosteiro.

D. Luisa Monteiro, notável de Carvoeiro cedeu à freguesia este mosteiro. Em Braga, encontram-se elementos provenientes do templo primitivo românico deste Mosteiro.

No livro “Inventário Coletivo dos Arquivos Paroquiais vol. II Norte Arquivos Nacionais/Torre do Tombo” encontra-se, na integra, a seguinte informação:
«A primeira referência conhecida a Carvoeiro encontra-se no documento 547 do Liber Fidei, de 1120, no qual é denominada “Carvonario”.

Existe documentação abundante dos séculos XII e XIII que refere o conto e mosteiro beneditino de Santa Maria de Carvoeiro, fundado nesta freguesia cerca de 885. Segundo o Padre António Carvalho da Costa, este antigo convento terá tomado o nome de uma grande cidade que existiu no alto de um monte próximo de Carvoeiro, de que ficaram vestígios.
O seu nome, Carbono, deriva do carvão, que ali se fazia.

No catálogo das igrejas da Terra de Aguiar do Neiva, de 1320, o mosteiro foi taxado em 60 libras. Em 1371, porém, foi avaliado em 15 libras e, em 1528, “no mosteiro de Carvoeiro S. Maria” rendia 200 reais.

Segundo Américo Costa Santa Maria Maior de Carvoeiro era curato da apresentação daquele mosteiro beneditino, tendo passado, mais tarde, a priorado.

O “Bispo D. Pedro e a organização da diocese de Braga” atribui-lhe como padroeiro Nossa Senhora do O.
No foro administrativo, pertenceu, em 1839, ao concelho de Barcelos, em 1852, ao de Viana e, em 1878, ao julgado de Vila de Punhe.»

geocaching.com

 

Santa Maria de Carvoeiro

“Esta terra que no latim se denominava Sancte Marie de Carbonário, sita na extrema de Viana do Castelo com o concelho de Barcelos e implantada numa elevação de terreno à volta do qual e da sua antiguidade se têm tecido muitas conjeturas, foi um grande centro de vivência beneditina, desenvolvido a partir do seu antiquíssimo mosteiro de Santa Maria de Carvoeiro, génese da comunidade que ainda hoje se acolhe sob o mesmo título.

Virá da segunda metade do seculo IX e ainda terá sofrido sob as derradeiras arremetidas dos árabes e, por isso, houve uma reconstrução na primeira metade do século XI talvez no tempo de D. Afonso, O Magno, quando se iniciou a presúria de entre Douro e Minho, e presume-se saber que chegou a ter numerosa comunidade de frades.

D. Afonso Henriques, em carta de 1 de Julho de 1129 concede, a pedido de Serracino Ozóriz, um dos mandantes locais que muito ajudou o infante na sua causa contra a mãe, carta de couto ao mosteiro de que o próprio monarca traça os limites.

Por esta carta e outras concessões, sobretudo a de D Afonso II em 27 de Maio de 1219, teve o abade de Carvoeiro autoridade concelhia sobre toda a área, funcionando como juiz absoluto e de cujas resoluções não havia apelo nem agravo.

Nota Frei Leão e que ilustra este mosteiro e existência nele, nos áulicos tempos após a fundação, de um santo abade, um tal D. Pedro Afonso que, com as suas elevadas qualidades de piedade e santidade, era estímulo à vida dos demais moradores do convento e, igualmente, dos que viviam ao aconchego da casa monástica. Tendo falecido em aroma de santidade, por longo tempo a sua memória prevaleceu como exemplo a imitar”

“Do conjunto monástico, resta a igreja, a serviço paroquial, e pouco mais. O templo está agora remoçado, e deve ser a reconstrução setecentista como a de outras muitas casas da Ordem. A fachada é um bilhete de identidade da sua ascendência beneditina. Se ao centro, em nicho, tem a padroeira, Nossa Senhora do Ó, nas edículas laterais, do lado do Evangelho está S. Bento e do lado da Epístola Santa Escolástica. No topo aguçado, o brasão do santo fundador.

O interior é duma só nave. No chão estão, agora cobertas por tampas de madeira, as sepulturas. Junto ao Arco cruzeiro encontra-se, no topo duma coxia lateral, do lado do evangelho, uma sepultura com tampa esculpida mostrando uma mitra abacial e um báculo. Por quanto curei saber, será a de D. Frei António dos Reis, que começando por 1604 por ser eleito abade deste mosteiro foi, depois, eleito por três vezes não seguidas, Abade Geral e que terá morrido em Tibães onde exercia o seu abaciato vindo, depois, a seu pedido, a ser tumulado neste mosteiro. ”
 

 

ABADE D. PEDRO AFONSO

"O que mais ilustrou este Convento foi um Abade santo que nele floresceu por nome Dom Pedro Afonso, de cuja pátria, nascimento e criação, mal se pode afirmar coisa alguma com certeza. Pelo computo dos anos é provável conjetura que este santo religioso podia ser um dos que trouxe o Arcebispo de Toledo e Legado da Sé Apostólica, o nosso S. Bernardo, passando de França para Espanha em companhia de São Geraldo e de Dom Maurício. Ainda que o nome não pareça estrangeiro.

Abade já, achamos que passou à Terra Santa no  ano de 1100. D. Fernando de Oxeia conta o decurso desta jornada largamente e afirma que nela foi também. D. Maurício, Bispo de Coimbra. Donde podemos inferir que ambos acompanharam o Conde D. Henrique quando foi de socorro dos conquistadores de Jerusalém quase por aquele tempo.

Chegado à Terra Santa, intentou o piedoso D. Pedro Afonso, fazer um furto não menor que de um tesouro celestial, qual era, a cabeça santa do sagrado apóstolo de Santiago, isto com intento de a reunir a seu sagrado corpo em Compostela. Para esta deliberação escreve o mesmo autor, que teve licença e mandado de Deus especial. E bem se pode presumir de tão santo varão, que seguiria neste particular estilo, que todos religiosamente observavam em consultarem todas as ações mais dificultosas com o Céu.

Mostrou-se que era obra sua quando, prevenindo-se com jejuns e orações para executar seu desejo, ficou uma noite com pretexto devoto na igreja, que incluía aquele tesouro: e, sem saber a caixa que o encerrava se lhe abriu milagrosamente e se ofereceu a mesma santa relíquia aos olhos e mãos do santo Abade.

Teve aviso de Deus deste sucesso, uma mulher virtuosa, que vivia junto à igreja e, ao sair dela, encontrou o Abade e, sem o conhecer, nem o ter visto, o nomeou pelo seu nome e ofício e lhe assegurou ser vontade de Deus e do seu Apóstolo, o que até aí tinha obrado, animando-o a que continuasse, advertindo-se juntamente das intromissões, que teria a sua determinação, se bem ultimamente alcançaria, o que desejava, sem embargos dos estorvos que dificultariam o fim.

Sucedeu que, partindo-se o Abade para Espanha, ao passar por Carrião, Corte da rainha D. Urraca, mãe do imperador D. Afonso, sétimo de nome, o devoto ânimo desta princesa pôde tanto, que com alguma força lhe roubou a joia tão preciosa que consigo trazia, depositando-a em um mosteiro daquela vila.

Porém, correndo alguns anos, foi restituída pela mesma Rainha à igreja do Apóstolo Santiago de Compostela, com muitas outras relíquias, por meia de Dom Diogo Gelmires, seu metropolitano.
E esta é, como dizem alguns, a que hoje se tira frequentemente nas procissões, posto que de muitos é venerada por de Santiago Menor e, por tal segundo aminha lembrança, a venerei, vendo o santuário das relíquias que na clautra da dita igreja se mostra aos peregrinos.

De qualquer maneira que seja, é preciosíssima e muito estimável relíquia, que ao dito Abade do nosso Mosteiro de Carvoeiro se deve.
O piedoso varão, reconhecendo que tudo eram ordens do Céu, se tornou para a seu Convento e, renunciando à prelasia, viveu e morreu tão santamente, que mereceu a veneração em que hoje está o seu nome, obrando Deus muitas maravilhas por sua intercessão, que testificarão a bem-aventurança que sua alma bendita possui no Céu.

Seu trânsito sucedeu no ano 1104. Seu corpo jaz em uma sepultura junta à sacristia da Igreja de Carvoeiro, em um arco de pedra e, dela a devoção comum do povo tira terra por um círculo redondo, e lançando-se ao pescoço, é remédio mui ordinário contra maleitas. A geral aclamação daqueles contornos o canonisa por Abade Santo e assim o nomeiam. Bastante fundamento, para que respeitemos a sua memória com a piedade que se deve a tão antiga e bem fundada tradição.

Não duvido que os monges deste Convento à visita da santidade do Abade D. Pedro e de outros que antes dele floresceram, movidos pelo seu exemplo vivessem com grande religião e fossem homens de grande virtude. Porque, ordinariamente, os súbditos seguem as pisadas das maiores que os governam."

IN: Folheto do Mosteiro de Santa Maria de Carvoeiro
 

Dados do percurso

Informação sobre os aspetos mais significativos:

Data 2017-01-21
Hora de início 09:34
Hora do fim 16:05
Tempo total do percurso 6h 30m
Velocidade média 4.4 km/h
Distância total linear 15.4 km
Distância total 15.6 km
Nº de participantes 29