2001-02-17 Marcha às Mamoas do Alto da Portela do Pau

 

Desta vez bateu-se o recorde de participantes. Nada menos de 97 (noventa e sete) caminheiros, alguns muito jovens, participaram nesta iniciativa dos Amigos da Chão.

O percurso teve o seu início na branda de A-do-Freire e daí subimos para o Alto da Portela do Pau, onde pudemos apreciar uma das mais importantes concentrações megalíticas da Península, com destaque para um menir e várias mamoas, algumas em estado de completo abandono, que se vem acentuando nos últimos anos.

Fizemos a pausa de almoço junto aos marcos fronteiriços, onde se celebrou a cerimónia do baptismo dos novos caminheiros, seguindo-se o regresso ao local de início.

Dirigimo-nos a Castro Laboreiro onde demos um pequeno passeio pelo interior do povoado, onde pudemos observar o pelourinho e a igreja Matriz.

Findou-se o dia com uma magnífica feijoada no restaurante Miradouro do Castelo.

 

José Almeida

Amigos da Chão

 
 
 

Caminhada até ao Alto da Portela do Pau

Castro Laboreiro

 

Carreço, dia 17 de Fevereiro do primeiro ano do séc. XXI. Desta aldeia, alongada entre o mar e a montanha, lá partiu o autocarro, que depois de passar por terras do Alvarinho, Lamas de Mouro e Cubalhão, os passageiros apearam-se antes de Castro Laboreiro, cuja serrania se insere no PNPG e confronta com a Galiza, a norte e nascente, e com a Gavieira, a sul e poente.  O dia estava ideal para caminhar e com o saco às costas, pelas 10h30, toca a andar que se faz tarde; para trás ficou a Branda de A-do-Freire e, lentamente, Castro Laboreiro deixa de ver-se pela nossa direita, mas com tempo para se divisar o picotado da montanha, capricho morfológico da natureza.

Subindo com suavidade, depressa chegamos ao planalto e aqui o panorama é outro, tal como refere Miguei Torga no seu livro "Portugal", era outro Minho que nos aguardava:

" Desanimado, meti para Castro Laboreiro à procura dum Minho com menos milho, menos couves, menos erva, menos videiras de enforcado... Encontrei-o logo dois passos adiante, severo, de curcelo e carapuça... O colmo de centeio, curtido pelos nevões, perdera o riso alvar das malhadas... Um rebanho de ovelhas silenciosas retouçava as pedras da fortaleza desmantelada. E uma velha muito velha, desmemoriada como uma coruja das catacumbas, vigiava a porta do baluarte, a fiar o tempo.  Era a pré-história ao natural, à espera da neta... Bonita, esbofeteada do frio, a cachopa vinha à frente dum carro de bois carregado de canhotas.  Preparava a casa de inverno para quando chegasse a hora da transumância e toda a família - pais, irmãos, gados, pulgas e percevejos - descesse dos cortelhos da montanha para os cortelhos do vale, abrigados das neves".

Caminhamos ao longo do extenso e deslumbrante planalto, cujo território se mete pela Galiza adentro, onde retemperamos as forças com os já habituais farnéis de meter inveja aos galegos. Mesmo em cima de uma "Mamoa", foi um almoço pré-histórico.  No Alto da Portela do Pau, onde nos encontrávamos, concentram-se, segundo o Padre Aníbal , "duas grandes culturas que atingiram um grau elevado de civilização - a cultura dolménica e a cultura castreja", desde o paleolítico ao neolítico, cujo povoamento pré-histórica se deve aos celtas, inicialmente agrupados em tribos nómadas, enquanto viviam no planalto, passando, depois, para os outeiros (pequenas elevações), para viverem em comunidade e melhor se defenderem dos invasores, a partir do séc. 1 a.C. até ao séc.  VI d.C., habitando em castros.  Da pré-história guarda Castro Laboreiro património ímpar, digno de fazer parte do cardápio de itinerários do PNPG, para turistas e estudiosos da pré-história, aliás, sugestão da figura emblemática de Castro, Padre Aníbal.

Nós, nem somos estudiosos, nem turistas, talvez uns curiosos, enquanto vamos caminhando o saber interessa-nos.
Eram quase três horas da tarde e pelo estradão fronteiriço fomos deixando o planalto para entrarmos na povoação castreja e esperar pelo habitual convívio gastronómico aprazado para o Restaurante "Miradouro do Castelo", onde Marcelo Mastroiani jantou, quando em rodagem do último filme da sua vida.

Vamos à sala e tudo preparado, só faltavam uns retoques na cozinha.  Todos para a mesa, alguém grita, e a custo lá nos fomos sentando no varandim debruçado sobre a corga do rio Laboreiro, mais parecendo que íamos todos de carruagem e quando olhávamos para o Castelo, a imaginação era da "montanha russa".  A noite entardeceu e, num ápice, o chouriço assado e o vinho apalhetado da região, mais o presunto de Castro, calaram a vozearia impaciente.  Enquanto, se apreciava o saboroso presunto, o vinho escorria pelas gargantas secas dum dia baforento.  Já refastelados e bem quentes, veio a feijoada, à farta, para todos.  A caminheira Guilhermina fazia anos e cantaram-se "os parabéns" e todos comeram bolo, menos eu que, atacado de febre, aproveitei a confusão e fiz uma despedida "à francesa".  Mas, contaram-me tudinho.  O convívio estava para nascer como sempre; o Nuno Reis saca dá concertina e o Rui Lopes, dos tambores e pandeiretas e, ali, foi o "show music" dos Amigos da Chão, em pleno "ensaio do 4º Rancho".  O Manuel Lopes fez uma perninha e cantou ao desafio e o vira foi geral.

De regresso, perto da meia-noite, chegou o autocarro à Sociedade, com os caminheiros fatigados do planalto e já cheios da vida castreja.

E, agora, quem tem saída de sendeiro é o famigerado cão de Castro Laboreiro oriundo destas montanha e que, desde o séc. VIII, enche de orgulho este povo "sempre fiel ao ideal pátrio sem nunca se vender ao estrangeiro".

Luis Gonçalves

Amigos da Chão

 

in: Aurora do Lima 25.05.2001

 

 

Os Dolmenes de Castro Laboreiro

CASTRO LABOREIRO, situada na extremidade do Alto Minho, a nascente de Melgaço e a uma altitude de 932 metros, constitui uma região de extraordinária beleza, onde os seus vales amenos, os planaltos extensos e a serra agreste se harmonizavam maravilhosamente, dando à paisagem cambiantes de rara grandeza.  Banhada pelas águas cristalinas do Rio Laboreiro e embaladas pelas maravilhosas canções da sua rápida corrente, é uma região bela, cheia de micro-climas desde a terra fria que produz apenas batata, centeio e pastagens até à parte quente e ribeirinha em que se cultiva toda a espécie de cereais, fruta e vinhos. Desde 1271 até 1855 foi esta região Vila e sede de concelho, com Alcaidia e tribunal a que estava entregue o destino da sua população. Pertença do Condado de Barcelos até 1834, Comenda da Ordem de Cristo desde 1319, Castro Laboreiro ocupou um papel de grande relevo,  quer na independência da Pátria quer na Guerra da Restauração, desde 1640 a 1707.

Defendida pelo seu inexpugnável  Castelo, manteve-se sempre fiel ao ideal pátrio, sem nunca se vender ao estrangeiro. Desde 1136, data em que D. Afonso Henriques visitou Castro Laboreiro até ao presente, o povo castrejo conservou-se sempre coerente consigo mesmo e de um portuguesismo a toda a prova.

Hospitaleiro, folgazão e alegre, o castrejo reúne em si as qualidades e defeitos do povo minhoto e a firmeza e carácter  do transmontano. Vivendo nas faldas da Serra da Peneda, é um povo de uma maneira de viver sui géneres.

Embora alguns pseudo-historiadores de antanho tenham apresentado o povo castrejo como oriundo de habitantes degradados nesta região, a sua origem confunde-se com o Homem da Pedra ou do Megalítico Ocidental.  Compulsando os seus documentos, gravados na pedra, há já 4.000 e 5.000 anos, que a acção destruidora do tempo e a mão demolidora do homem não lograram fazer desaparecer, verificamos que nesta região se desenvolveram sucessivamente duas grandes curtiras que atingiram um grau elevado de civilização: A Cultura Dolménica e a Cultura Castreja.

Percorrendo o lindo e extenso planalto de Castro Laboreiro, que nos lembra a meseta ibérica,  podemos observar os numerosos e notáveis dolmens que se dispersam por todo o planalto, dando-lhe um aspecto de grandiosidade histórica, raras vezes encontrada numa região.  As tribos nómadas que povoaram o planalto, viviam da caça, da pesca e da cultura do trigo, centeio, cevada e aveia, bem como da pastorícia, depois que conseguiam domesticar o boi, o porco, o carneiro e a cabra.

Da sua permanência nesta região restam-nos os numerosos dólmenes a que o povo liga as belas lendas de moiras encantadas à espera de um valoroso cavaleiro que um dia lhes quebre o encanto e as faça suas esposas.

Em noite de S. João toda a riqueza focará exposta ao ar para arejar e ser aquecida pelo sol do dia.

Os dólmenes desta região estão colocados em sistema e ternário geralmente constituídos por sete esteios e uma mesa ou chapéu.

Além da câmara funerária têm o corredor, com a porta de entrada voltada sempre para nascente.  Em todos eles foram inumadas as cinzas dos chefes tribais, uma vez que são cercados e cobertos pelas mamoas. Alguns foram já violados, embora o seu principal recheio se encontre praticamente intacto, no que diz respeito aos machados, raspadores, coup de poing, pontas de sílex e de quartzo etc.

Os vasilhames de cozinha ou das cinzas foram destruídos nos dólmens violados, por se julgarem cheios de ouro e outros metais preciosos. Há-os ainda virgens onde a mão do homem não logrou devassar.

Na destruição das mesas ou chapéus dos mesmos tiveram um papel Importante a cobiça da laje para a construção de casas nesta freguesia e os trabalhos realizados pelos tractores dos Serviços Florestais, cujos óleos eram mudados em cima das mesas dos dolmens, quebrando-as. Vale a pena preserva-los da sua completa destruição, fazendo um inventário de todos eles e declarando-os imóveis de interesse público e pré-histórico.

Eles constituem, além do património cultural e pré-histórico de Castro Laboreiro, preciosas relíquias do passado e pelas quais podemos aquilatar o grau de cultural o grau de cultura daquele povo, com a evolução do homem do paleolítico, mesolítico e neolítico.

 

Castro Laboreiro

A freguesia de Castro Laboreiro, localizada no planalto com o mesmo nome, em plena serra, numa extensa área dentro do Parque Nacional da Peneda-Gerês, dista vinte e cinco quilómetros da sede do concelho.

 Confronta com terras da Galiza, a norte e nascente, Gavieira (Arcos de Valdevez), a sul e poente e Lamas de Mouro, a poente.

O seu nome vem de duas palavras: Castrum, Castro - povoação fortificada pelo povo castrejo, de raça celta, que, depois do seu nomadismo durante milhares de anos nos planaltos, vivendo da caca e da pesca, e depois do pastoreio, se fixou nos outeiros para ali viver em comunidade e se defender das tribos invasoras, desde quinhentos anos antes de Cristo até ao século VI da era cristã: Laboreiro - do latim "lepus, leporis, leporem, leporarium. lepporeiro, leboreio".

O Pe. Aníbal Rodrigues, num estudo sobre os dólmenes de Castro Laboreiro, a que não faltam apontamentos poéticos, descreve Castro Laboreiro assim: "Constitui uma região de extraordinária beleza. onde os seus vales amenos. os planaltos extensos e a serra agreste se harmonizam maravilhosamente, dando à paisagem e ambientes de rara grandeza. Banhada pelas águas cristalinas do rio Laboreiro e embalada pelas maviosas canções da sua rápida corrente, é uma região bela. cheia de microclimas, desde a terras fria que produz apenas batata, centeio e pastagens, até à parte quente e ribeirinha, em que se cultiva toda a espécie de cereais, fruta e vinhos."

Tem mais de 40 lugares, distribuídos pelas brandas e pelas inverneiras - que são os lugares mais altos ou os mais baixos, onde o povo se resguarda do frio intenso dos agrestes invernos ou do calor trazido pelos estios desabridos.
 As brandas, nos lugares mais altos. são mais agradáveis e produtivas na época do calor. servindo aos animais também melhores oportunidades de alimentação - é assim uma espécie de casa comum de veraneio da população e gados da freguesia e de visitantes vindos de fora.  Aqui os principais lugares são: Vila.  Várzea Travessa.  Picotim, Vido, Portelinha, Coriscadas. Falagueiras, Queimadelo, Outeiro, A-do-freire.  Antões, Rodeiro, Portela, Formarigo, Teso, Campelo, Curral do Gonçalo, Eiras, Padresouro,  Seara e Portos.

As inverneiras. nas zonas mais baixas, servem de refúgio ao frio e estão localizadas nos vales da freguesia.  Os seus lugares: Bico, Cailheira, Curveira, Bago de Cima e Bago de Baixo.  Ameijoeira,      Laceiras, Ramisqueira, João Alvo, Barreiro.  Acuceira, Podre, Alagoa, Dorna, Entalada, Pontes, Mareco, Ribeiro de Cima e Ribeiro de Baixo.

 É um ciclo que se repete há milhares de anos neste planalto elevado a uns mil metros acima do nível. do mar.  Daqui se estabelece um longa linha de horizontes com a vizinha Espanha (para onde se poderá seguir pela estrada da Ameíjoeira).

O rio Laboreiro ajuda também à composição de todo um conjunto de extraordinária beleza, serpenteando serra abaixo, até se juntar ao rio Lima.  Ligando as suas margens, permanecem as pontes que as várias civilizações que por aqui passaram foram construindo ao longo dos tempos.  São, segundo o citado trabalho do Pe.  Aníbal Rodrigues, "pontes romanas e românicas, da época da ocupação romana: a da Cava da Velha (monumento-nacional); e românicas, do século XII. como a de Dorna, da Assoreira ou da Capela, de Varziela, das Cainheiras, da Vila, do Rodeiro, das Veigas e dos Portos (estilo celta)."

De facto, a ocupação humana de Castro Laboreiro é comprovável até ao longo passado de quatro ou cinco mil anos.  Nesta região desenvolveram-se sucessivamente duas grande culturas que atingiram um grau elevado de civilização: a cultura dolménica e a cultura castreja.  Aqui pode encontrar-se. ainda hoje, mais de um centena de antas ou dólmenes (será talvez a maior concentração peninsular de dólmenes pré-históricos); alguns menires; a Cremadoura, a poente da Vila, onde se incineravam os cadáveres para serem recolhidas as cinzas em vasilhames de barro (no Mesolítico); doze castros, de há dois mil e quinhentos anos: pinturas e gravuras rupestres.

 O Castelo de Castro Laboreiro, diz o povo ter sido obra dos mouros.  Pinho Leal, no seu "Portugal Antigo e Moderno", afirma mais certo ser atribuível aos romanos.  O Pe.  Anibal Rodrigues coloca-o, porém. no ano de 955, fundado por S. Rosendo, governador do Val del Limia, desde Maio desse ano, por nomeação de D. Ordonho III, rei de Leão.  D. Afonso Henriques rodeou-o de muralhas e, nos princípios do século XIV, quando caiu um raio no paiol de pólvora. que fez todo o polígono ir pelos ares.  D. Dinis ordenou a sua reedificação.

Castro Laboreiro foi vila e sede de concelho desde 1271 até 1855.  Teve tribunal, paços do concelho e cadeia., bem como alcaide e governador do castelo.  Recebeu foral, em Lisboa. a 20 de Novembro de 1513, conferindo-lhe o nome de Castro Laboreiro.  Tinha foral velho, dado por D. Afonso III, em Lisboa. a 15 de Janeiro de 1271, que a elevava a vila. dando-lhe simplesmente o nome de Laboreiro.  Um dos seus privilégios, concedido por vários reis e confirmado por D. João V, era o de não se recrutarem aqui soldados.

Esclarece, no entanto, o Pe.  Aníbal Rodrigues: "Pertença do condado de Barcelos até 1834, comenda da Ordem e Cristo desde 1319, Castro Laboreiro ocupou um papel de grande relevo, quer na independência da Pátria quer na Guerra da Restauração, desde 1640 a 1707.  Defendida pelo seu inexpugnável castelo, manteve-se sempre fiel ao ideário pátrio, sem nunca se vender ao estrangeiro. Desde 1136, data em que D. Afonso Henriques visitou Castro Laboreiro, até ao presente, o povo castrejo conservou-se sempre coerente consigo mesmo e de um portuguesismo a toda a prova."

Era da casa de Bragança, que apresentava o reitor (que tinha de rendimento anual seiscentos mil réis, e o seu coadjutor vinte alqueires de centeio e dez mil réis, tudo pago pela comenda).  A Igreja foi primitivamente vigairaria da matriz de Ponte de Lima, depois abadia do bispo de Tui, que D. João Fernandes de Sotto Maior trocou, em 1308, com o rei D. Dinis.
 No campo da monumentalidade construída, merecem finalmente destaque o pelourinho, de 1560, que é monumento nacional, e a igreja matriz, imóvel de interesse público, que foi construída primitivamente no século XII. em estilo românico.  O coro, a torre e a capela-mor datam de 1775 e ostentam o estilo joanino ou de D. Maria Pia.  Possui uma magnífica pia baptismal, do século XII, e preciosas imagens. que abrangem um largo período que vem desde o século XIV até ao século XVII.

Tratando-se de uma raça pura, dócil e altiva, os mundialmente famosos cães de Castro Laboreiro são, desde o século VIII, motivo de orgulho do seu povo. É uma raça mastim de grande porte, nativa desta região montanhosa. 


Os textos apresentados foram recolhidos em obras diversas

 

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